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#Crônicas#Literatura Brasileira

Crônica do Viver Baiano Seiscentista

Por Gregório de Matos (1650)

Senão mais eficaz, menos chagado,

E de o ter por um Anjo estive em risco.

Mas como no pregar é tão azado,

Achei, que no evangélico obelisco

É Cristo no burel ressuscitado.



UM AMIGO DESTE RELIGIOSO PEDIU AO POETA SUAS APROVAÇÕES SOBRE A MESMA PREDICA, A PEDITÓRIO DO MESMO PREGADOR NESTE.



MOTE

Louvar vossas orações

é próprio do Pregador,

e a mim me dá mais temor

o Pregador, que os sermões.



Só o vosso entendimento

vos pode Tomás louvar,

e eu se pudera imitar

qualquer vosso pensamento:

para mostrar seu talento

fez um círculo em borrões

Apeles com dous carvões;



quem vira uma risca vossa?

Riscai vós, para que eu possa

Louvar vossas orações.

A causa é melhor, que o efeito

na boa filosofia,

e assim é vossa energia

menor, que o vosso sujeito:

logo se no humano peito

não há alcançar o primor

nas obras de tal autor,

mal a causa alcançarão,

pois o pregar do sermão

É próprio do Pregador.



Se louvo vossa alta idéia,

sou culpado em me atrever,

e sou culpado em meter,

a fouce em seara alheia:

nesta empresa, em que receia

entrar o engenho major,

entra o néscio sem pavor,

porque a louca valentia

dá ao néscio a ousadia,

E a mim me dá mais temor.



Ou cobarde, ou atrevido,

ou ousado, ou não ousado

hei de dizer empenhado,

o que calava entendido:

um amigo a vós rendido

pede a vossas orações

as minhas aprovações,

e eu calando lhe obedeço,

porque fique em maior preço

O Pregador, que os sermões.



O MESMO AMIGO PEDIU AO POETA EM OUTRA OCASIÃO LHE GLOSASSE ESTE MOTE, CUJA MATÉRIA FOI HAVER TRIUNFADO O DITO FR. TOMAS DE CERTA OPOSIÇÃO CAPITULAR.



MOTE



Nuvens, que em oposição

o sol querem desluzir,

seus raios sabem sentir

por ser seu cuidado em vão.



No Céu pardo de Francisco

pardo à força de nublados

há vapores humilhados,

e soberbos com seu risco:

o soberbo ao sol arisco

se põe, e o humilhado não,

e o sol menos queima então

as nuvens, que chegar vê

em acatamentos, que

Nuvens, que em oposição.



As nuvens, que se lhe opõem

com tão néscio atrevimento,

o sol de um raio violento

queima, abrasa, e descompõe:

tudo o mais o sol dispõe

pare o manter, e cobrir

criar, e reproduzir,

e com razão não tem fé

co’as nuvens ingratas, que

O sol querem desluzir.



O sol por sua altivez,

e nativo luzimento

não recebe abatimento

e abatê-lo é louca empresa:



quando se atreve a vileza

do vapor, que o vai seguir

na nuvem, que o quer cobrir,

se a subir não tem desmaios,

ao resistir dos seus raios

Seus raios sabem sentir.



Sentem com tanto pesar,

que têm por melhor partido

não haver ao sol subido

que subir para baixar:

era força escarmentar

na queda de Faetão,

e na Icária perdição,



que estes outros se arruinaram,

quando ao sol subir cuidaram,

Por ser seu cuidado em vão.



AO SOBREDITO RELIGIOSO DESDENHANDO CRITICO DE HAVER GONÇALO RAVASCO, E ALBUQUERQUE NA PRESENÇA DE SUA FREIRA VOMITADO HUMAS NÁUSEAS, QUE LOGO COBRIU COM O CHAPÉU.



Quem vos mete, Fr. Tomás,

em julgar as mãos de amor,

falando de um amador

que pode dar-vos seis e ás?

Sendo vós disso incapaz,

quem vos mete, Fr. Franquia,

julgar, se foi policia

o vômito, que arrotastes,

se quando vós o julgastes,

vomitastes uma asnia:



Sabeis, por que vomitou

aquele amante em jejum?

lembrou-lhe o vosso budum,

e a lembrança o enjoou;

e porque considerou,

que o tal budum vomitado

era um fedor refinado,

por não ver poluto um céu,

o cobriu com seu chapéu,

e em cobri-lo o fez honrado.

Vós sois um pantufo em zancos,

mais oco do que um tonel,

e se estudais no burel,

entendereis de tamancos:



que as ações dos homens brancos,

tão brancos como Furão,

não as julga um maganão

criado em um oratório,

julgador de refeitório,

que dá o nosso Guardião.



O que sabeis, Frei Garrafa,

é a traça, e a maneira,

com que estafais uma Freira,

dizendo, que vos estafa:

vós saís com a manga gafa

do palangana, e tigela

(continua...)

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