Por Padre Antônio Vieira (1670)
124, Se um dos nossos pretendentes do Evangelho – e seja S. Tiago, que veio a Portugal – viera hoje, e, em lugar da cadeira que pediu, pretendera a de qualquer bispado do Reino, haviam-lhe de responder que no reino não, porque era filho de um pescador, que o maior favor que se lhe podia fazer era dar-lhe um bispado ultramarino, e logo lhe nomeariam satiricamente o de Meliapor, por ser na Costa da Pescaria. Se Josué, conquistador de trinta e três reinos, e de quem se prezou o sol de ser soldado, quisesse ser capitão-general, também lhe haviam de opor que tinha sido criado de Moisés; e José, o qual teve maior indústria que todos os homens, para adquirir fazenda a seu rei, e maior fidelidade para a conservar, se quisesse ser vedor da fazenda, vede se lho consentiriam as ovelhas que tinha guardado seu pai? Não falo em Bartolo, se lhe viesse ao pensamento a regência da justiça, ou a Navarro, a da consciência, porque o segundo, tendo ensinado em Portugal com assombro de todas as universidades o que aprendeu na de Coimbra, foi a tomar por si o não, e ir morrer em terras estranhas, por que se lhe não dissesse na nossa: Non est in loco nostro consuetudinis. A censura deste que se chama costume, é que não é costume, senão abuso contrário à natureza, à razão, à virtude, e prejudicial à república, e que os príncipes que se escusam com este modo de não, ele não só os não escusa, mas acusa e condena mais, fazendo os odiosos aos vassalos, ao mundo e ao mesmo Deus, o qual por isso fez a todos os homens filhos do mesmo pai e da mesma mãe.
125. Excluído, pois, este abuso particular da nossa terra, o modo que em todas e todos aprovam, e os melhores políticos ensinam como o mais decente, é que, nas ocasiões de negar, para abrandar a dureza do não, depois de mandar consultar as matérias, se escuse o sábio príncipe com seus conselhos. É necessário porém advertir neste meio, que deve ser aplicado com tal moderação e cautela, que, por enfeitar o não, não se afeie a autoridade do rei nem o crédito dos conselhos, nem as mesmas razões da escusa. Negou el-rei Aquis a Davi a licença que lhe pedia para o servir em certa guerra como aventureiro entre suas mesmas tropas, e escusou o não com os seus conselheiros: Non places satrapis.22 Porém, antes de chegar a pronunciar este não, e depois dele, fez com juramento em protesto mais honrado para quem o ouvia, que para quem o jurava: Vivit Dominus quia rectus es tu et bonus in conspectu meo, sed non ploces satrapis. Scio quia bonus es tu in oculis meis, sicut angelus Domini (1 Rs. 29,6.9): Juro-vos, Davi, que no meu conceito sois reto e bom, e me pareceis tão bom e tão reto como um anjo de Deus; mas não contentais aos do meu conselho.-Quantas coisas se negam aos grandes sujeitos como Davi, não porque não sejam dignos e digníssimos delas, mas porque não contentam ao conselho dos reis. Se dissera que lhes não contentavam os oferecimentos de Davi, motivos podiam ter para isso, mas que lhes não contentava a pessoa: Non places? E se o conceito do rei era tão diverso, que o tem por homem justo e bom, e que mais lhe parece anjo que homem, por que se não conforma orei antes com o seu parecer, e com o seu juízo, que como descontentamento dos conselheiros? E já que se conforma com eles na resolução, porque a intima a Davi, floreada de tantos louvores, que os mesmos louvares confutam e condenam a negativa? Tudo isso disse Aquis para enfeitar o não com que negava a Davi o que lhe pedia, mas, com estes mesmos enfeites, asseou primeiramente a autoridade e soberania de rei, porque, seguindo o voto dos conselheiros, contra o juízo e experiência própria, mostrou que era súdito dos seus conselhos, e não superior e senhor; asseou também o crédito dos mesmos conselhos, porque, dizendo que Davi lhes não contentava, mostrou que se governavam mais pelo aspecto das pessoas que pelo merecimento das causas;e asseou finalmente a mesma razão com que se escusava, porque, sendo os procedimentos de Davi tão retos, como ele reconhecia, jurava e tinha experimentados, eles mesmos desfaziam toda a chamada razão da escusa, e convenciam ser pretexto. Havendo pois o príncipe de se escusar ou escudar com os seus conselhos, diga que mandou considerar a matéria, e que se conformou com eles, e não diga mais.
§ VIII
Aleguem os príncipes herdeiros os decretos e disposições dos pais, como fez Cristo aos dois irmãos Zebedeus. Causas do infausto reinado de Roboão, filho de Salomão. Jacó e a bênção de Manassés e Efraim.
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 26 ago. 2026.