Por Padre Antônio Vieira (1655)
88. Também das alheias nos devemos lastimar muito. Todo o mundo, que o demônio hoje ofereceu a Cristo, foi por uma alma alheia. Se dá todo o mundo o demônio por perder uma alma, porque não daremos nós, e porque não faremos alguma coisa por tantas almas que se perdem? Neste mesmo instante se estão perdendo infinitas almas na África, infinitas almas na Ásia, infinitas almas na América – cujo remédio venho buscar – tudo por culpa e por negligência nossa. Verdadeiramente não há reino mais pio que Portugal; mas não sei entender a nossa piedade, nem a nossa fé, nem a nossa devoção. Para as almas que estão no purgatório, há tantas irmandades, tantas confrarias, tantas despesas, tantos procuradores, tantos que as encomendem de noite e de dia, só aquelas pobres almas que estão indo ao inferno não têm nada disto. As almas do purgatório, ainda que padeçam, têm o céu seguro; as que vivem e morrem na gentilidade, não só têm o céu duvidoso, mas o inferno e a condenação certa, sem haver quem lhes acuda. Não é maior obra de misericórdia esta? Pois por que não haverá também uma irmandade, por que não haverá também uma congregação, por que não haverá também uma junta, porque não haverá também um procurador daquelas pobres almas? – Senhor, estas almas não são todas remidas com o vosso sangue? – Senhor, estas almas não são todas remidas com o sangue de Cristo?26 Senhor, a conversão destas almas não a entregastes aos reis e reino de Portugal? – Senhor, estas almas não estão encarregadas por Deus a Vossa Majestade com o reino? – Senhor, será bem que estas almas se percam e se vão ao inferno contra o vosso desejo? – Senhor, será bem que aquelas almas se percam, se vão ao inferno por nossa culpa? Não o espero eu assim da Vossa Majestade divina, nem da humana. Já que há tantos expedientes para os negócios do mundo, haja também um expediente para os negócios das almas, pois valem mais que o mundo. Desenganemo-nos: quanto mais se adiantar o negócio da salvação das almas, tanto os do mundo irão mais por diante. O demônio ofereceu todos os reinos do mundo a Cristo pela perdição de uma alma, e Cristo; porque tratou da salvação das almas, está hoje Senhor de todos os reinos do mundo. Assim nos sucederá a nós também, e assim o prometo em nome do mesmo Deus. Deixai-me santificar as palavras do demônio, e pô-las na boca de Cristo: Ostendit ei omnia regna mundi: Está-nos Deus mostrando todos os reinos desse novo mundo, que por sua liberalidade nos deu, e por nossa culpa nos tem tirado em tanta parte. E, apontando para a África, para a Ásia, para a América, nos está dizendo: Haec omnia tibi dabo, si cadens adoraveris me: Reino de Portugal, eu te prometo a restituição de todos os reinos que te pagavam tributo, e a conquista de outros muitos, e mui opulentos desse novo mundo, se tu, pois te escolhi para isso, fizeres que creia em mim, e me adore: Si cadens adoraverit me. Assim o prometa da bondade de Deus, assim o espera do grande zelo e piedade de sua majestade, assim o confio da muita Cristandade de todos os ministros, e, se tratarmos das almas alheias, este meio, de que tanto se serve Deus, será o mais eficaz de conseguirmos a salvação das próprias, nesta vida, com grandes aumentos de graça, e na outra, com o prêmio da glória.
Baixar texto completo (.txt)Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 31 ago. 2026.