Por Padre Antônio Vieira (1673)
A todos os mortos se canta piamente por costume: Requiescant in pace. Mas esta paz e este descanso, só o logram seguramente os que morreram antes de morrer. Vede-o no mesmo texto de Davi, donde a Igreja tomou aquelas palavras: In pace in idipsum, dormiam et requiescam:26 Morrerei e descansarei em paz para isso mesmo: In idipsum. Nesta cláusula in idipsum está o mistério, que sendo a sentença tão clara, a faz dificultosa, mas admirável. Que quer dizer: Morrerei e descansarei em paz para isso mesmo? Se dissera: Morrerei para descansar em paz, bem se entendia; mas Morrerei e descansarei em paz para isso mesmo? Se há de morrer e descansar em paz para isso mesmo, há de morrer e descansar em paz, para morrer e descansar em paz? Assim é, e esse foi o profundo pensamento de Davi. Como se dissera: Eu quero morrer e descansar em paz na vida. E por que, ou para quê? Para isso mesmo; para morrer e descansar em paz na morte: ln pace in idipsum, dormiam et requiescam. Por isso, com grande propriedade, significou o morrer pela frase de dormir: dormiam, porque o sono é morte em vida. Daqui se seguem duas conseqüências últimas, ambas notáveis e de grande consolação para os que morrem antes de morrer. A primeira, que só eles, como há pouco dissemos, gozam seguramente de paz e descanso. A segunda, que da paz e descanso desta morte, se segue também seguramente a paz e descanso da outra, que é o argumento de todo o nosso discurso. Os que morrem quando morrem, perdem o descanso da vida, e não conseguem ordinariamente o da eternidade, porque passam de uns trabalhos a outros maiores. Assim diziam no inferno aqueles miseráveis, que já tinham sido felizes: Lassati sumos in via iniquitatis:27 Chegamos cansados ao inferno. – Ao inferno, e cansados, porque lá não tivemos descanso, e cá tereinos tormentos eternos. Pelo contrário os que morrem antes de morrer, morrem descansados, e morrem para descansar: In pace in idipsum, dormiam et requiescam. Oh! que paz, oh! que descanso para a vida e para a morte! Creio que ninguém haverá, se tem juízo, que se não resolva desde logo a viver e morrer assim, ou a morrer assim para morrer assim. Acabando desta maneira a vida, esperareinos confiadamente a morte, e por benefício do pó que somos: Pulvis es, não temereinos o pó que havemos de ser: ln pulverem reverteris.
LAUS DEO
Baixar texto completo (.txt)Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 30 ago. 2026.