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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

Andanças de uma viola de cabaça

Por Gregório de Matos (1696)

4 Quem não sarou desta vez,
fica muito temeroso,
que Ihe há de ser mui penoso
acabar-se-vos o mês:
ninguém jamais isto fez,
nem é cousa contingente
o ficar toda esta gente
com perigo tão atroz,
que se acabe o mês a vós,
para mal de outro doente.

DISPARATES NA LINGUA BRAZILICA A HUMA CUNHÃA, QUE ALI GALANTEAVA
POR VICIO.

1 Indo à caça de tatus
encontrei Quatimondé
na cova de um Jacaré
tragando treze Teiús:
eis que dous Surucucus
como dous Jaratacacas
vi vir atrás de umas Pacas,
e a não ser um Preá
creio, que o Tamanduá
não escapa às Gebiracas.

2 De massa um tapiti,
um cofo de Sururus,
dous puçás de Baiacus,
Samburá de Murici:
Com uma raiz de aipi
vos envio de Passé,
e enfiado num imbé
Guiamu, e Caiaganga,
que são de Jacaracanga
Bagre, timbó, Inhapupê.

3 Minha rica Cumari,
minha bela Camboatá
como assim de Pirajá
me desprezas tapiti:
não vedes, que murici
sou desses olhos timbó
amante mais que um cipó
desprezado Inhapupê,
pois se eu fora Zabelê
vos mandara um Miraró.

A HUMA DAMA, QUE MANDANDO-A O POETA SOLICITAR LHE MANDOU DIZER
QUE ESTAVA MENSTRUADA.

O teu hóspede, Catita,
foi mui atrevido em vir
a tempo, que eu hei mister
o aposento para mim.
Não vou topar-me com ele,
porque havemos de renhir,
e há de haver por força sangue,
porque é grande espadachim.
Tu logo trata de pôr
fora do teu camarim
um hóspede caminheiro
que anda sempre a ir, e vir.
Um hóspede impertinente
de mau sangue, vilão ruim:
por mais que Cardeal seja
vestido de carmesim.
Despeje o hóspede a casa,
pois Ihe não custa um ceitil,
e a ocupa de ordinário
sem pagar maravedi.
Não tenhas hóspede em casa
tão asqueroso, tão vil,
que até os que mais te querem
fujam por força de ti.
Um hóspede aluado,
e sujeito a frenesis,
que em sendo quarto de lua
de fina força há de vir.
Que diabo há de sofrê-lo,
se vem com tão sujo ardil,
a fazer disciplinante,
quem foi sempre um serafim?
Acaso o teu passarinho
é pelicano serril,
que esteja vertendo sangue
para os filhos, que eu não fiz?
Vá-se o mês, e venha o dia,
em que eu te vá entupir
essas cruéis lancetadas
com lanceta mais sutil.
Deixa já de ensangüentar-te,
porque os pecados que eu fiz,
não é bem, que pague em sangue
o teu pássaro por mim.

A HUMA DAMA, QUE LHE MANDOU HUM REGISTO DE SANTA JULIANA QUE HAVIA
TIRADO POR SORTES EM SANTA ANNA.

Não me maravilha não,
tirares hoje em Santa Ana
uma Santa Juliana,
e o touro por um grilhão:
porque a vossa devoção
é certo, que a meus adornos
decretou estes subornos,
para que veja a minha alma,
que por dar à Santa a palma,
me prende hoje pelos cornos.

A HUMA NEGRA QUE TINHA FAMA DE FEYTICEIRA CHAMADA LUIZA DA PRIMA.

1 Dizem, Luíza da Prima,
que sois puta feiticeira,
no de puta derradeira,
no de feiticeira prima:
grandemente me lastima,
que troqueis as primazias
a lundus, e a putarias,
sendo-vos melhor ficar
puta em primeiro lugar,
em último as bruxarias.

2 Mas é certo, e sem disputa,
que isso faz a idéia vossa,
pois para bruxa sois moça,
e sois velha para puta:
que os anos vos computa
e a idade vos arrima,
esse a fazer vos anima
pela conta verdadeira
no de puta derradeira,
no de feiticeira prima.

3 Esta é forçosa ocasião,
de que o Cação vos passeie,
porque é força que macheie
um cação a outro cação:
enquanto a fornicação
o fazeis naturalmente,
e quanto o enjeitar a gente
é tanto, o artifício, e tal,
que exercendo o natural,
obrais endiabradamente.

4 Isto suposto, Luizica,
vos digo todo medroso,
que deve ser valeroso
o homem, que vos fornica;
porque se vos comunica
toda a noite com sojornos
o demo dos caldos mornos
com seu priapo à faísca,
à fé que a muito se arrisca,
quem põe ao Diabo cornos.

5 Dormi c'o diabo à destra,
e fazei-lhe o rebolado,
porque o mestre do pecado
também quer a puta mestra:
e se na torpe palestra
tiveres algum desar,
não tendes, que reparar,
que o Diabo, quando emboca,
nunca dá a beijar a boca,
e no cu o heis de beijar.

6 Se foi vaso de eleição
São Paulo a passos contados,
vós pelos vossos pecados
sois vaso de perdição:
toda a praga, e maldição
no vosso vaso há de entrar,
e a tal termo há de chegar
esse vaso sempiterno,
que há de ser da vida inferno
onde as porras vão parar.

A PEDITORIO DE HUMA DAMA QUE SE VIO DESPREZADA DE SEU AMANTE.

Até aqui blasonou meu alvedrio,
Albano, meu, de livre, e soberano,
Vingou-se, ai de mim triste! Amor tirano,
De quem padeço o duro senhorio.

(continua...)

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