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#Sermões#Retórica

Sermão de Santo Inácio

Por Padre Antônio Vieira (1669)

E qual é a razão deste modo de medir, que verdadeiramente parece desigual? O igual ficar menor, e o maior ficar igual, não é desigualdade? Não, quando a comparação se faz com os que foram primeiro, porque essa é a prerrogativa da prioridade. Os primeiros sempre têm a vantagem de ser primeiros, e esta primazia, ou prioridade, tem de si mesma tal excelência, que comparada entre igual e igual, sempre fica superior, e é necessário que a mesma igualdade se supra com algum excesso, para não ser, ou parecer, menos que igualdade. Não há nem se pode conceber maior desigualdade, que a das Pessoas Divinas. Vede agora o que fez a Segunda Pessoa, não para ser, mas para provar que é igual à primeira: Non rapinam arbitratus est esse se aequalem Deo, sed semetipsum exinanivit, formam servi accipiens.25 Sendo o Verbo, diz S. Paulo, imagem substancial do Padre e igual a ele em tudo, para mostrar que esta desigualdade era sua, e não alheia, própria, e não roubada, natural, verdadeira, e não fingida, tomou a forma de servo, fez-se homem, padeceu; e remiu o mundo. Esta conseqüência de S. Paulo tem dado muito que entender a todos os Padres e expositores. Porque, para o Verbo mostrar a igualdade que tem com o Pai, parece que se havia de deixar estar à sua destra no mesmo trono, e para mostrar que era imagem e vera-efígie sua, como leu Tertuliano, parece que como espelho do mesmo Padre havia de retratar em si mesmo todas as suas ações somente, e nenhuma outra. Se o Padre criou o mundo, crie-o também, como criou, o Filho; se governa, governe; se decreta, decrete; se manda, mande. E se o Padre se não fez homem, nem remiu o mundo, não seja ele também homem, nem Redentor, porque tomar o Filho outra forma, isto é a forma humana, que o Padre não tomou, e fazer o que ele não fez, parece que era desigualar a igualdade e desfazer a proporção, e mudar a semelhança de verdadeira e perfeita imagem. Pois se o Verbo se quer mostrar igual, por que se desiguala? Se se quer mostrar semelhante, por que se desassemelha, e por que faz o que o Padre não fez? Porque o Padre era a primeira pessoa, e o Filho a segunda, e para se mostrar igual e semelhante, havia de fazer mais. No Padre não há prioridade de tempo nem de natureza, mas há prioridade de origem: o Pai é a primeira fonte da divindade de quem o Filho a recebeu; o Pai é o primeiro exemplar de quem o Filho é imagem; enfim, o Pai é a primeira pessoa e o Filho a segunda, e é tal a prerrogativa da prioridade, qualquer que seja, ainda que não seja, nem possa ser maioria, que para o Verbo mostrar ao mundo a inteireza da sua igualdade e a perfeição da sua semelhança, foi conveniente que fizesse mais de que o Padre fizera. Desta maneira, a nosso modo de entender, supriu o Verbo com o excesso das ações a prioridade da origem, e proporcionou a prerrogativa do exemplar com os novos resplendores da semelhança. E se isto foi decente e conveniente na igualdade de Deus entre a segunda pessoa e a primeira, bem se vê quão necessário será na desigualdade dos homens. Excedeu o Batista a Elias, para lhe ser igual; excedeu Moisés aos outros patriarcas, para lhes ser semelhante. Logo, ainda que Santo Inácio pareça que excedeu aos exemplares santíssimos que imitou, necessariamente havia de ser assim, sendo eles primeiro, para que no excesso ficasse proporcionada a igualdade, e na diferença, a semelhança: Et vos similes hominibus.

§VII

O fim para que Deus ajuntou em Santo Inácio as pefeições de todos os santos, foi para que nele achássemos junto o que nos outros se acha dividido. Como o maná tinha o sabor de todos os manjares, Santo Inácio é um compêndio de todos os santos.

Acabemos com o fim. O fim para que Deus ajuntou em Santo Inácio as semelhanças e perfeições de todos os santos, foi para que neste grande santo achássemos junto, o que nos outros santos se acha dividido. Santo Inácio, se bem se consideram os princípios e fins de sua vida, foi o fruto do Flos Sanctorum. O Flos Sanctorum era a flor, Santo Inácio foi o fruto. Se de todas as flores se compusesse uma só flor, esta flor havia de ter o cheiro de todas as flores; e se desta flor nascesse um fruto, este fruto havia de ter os sabores de todos os frutos. E esta maravilha fez Deus em Santo Inácio. O livro foi a flor, ele o fruto; um fruto que contém em si todos os sabores; um santo que sabe a tudo o que cada um deseja e há mister. O maná era semelhante sem semelhante: semelhante porque tinha o sabor de todos os manjares; sem semelhante, porque nenhum manjar sabia a tudo como ele. Por isso se chamou maná, ou manhu (Êx. 16,15), que quer dizer: Quid est hoc? Que é isto? E a esta pergunta se respondia: é tudo o que quiserdes. O mesmo digo eu de Santo Inácio. Tudo o que quiserdes, tudo o que desejardes, tudo o que houverdes mister, achareis neste santo, ou neste compêndio de todos os santos. Essa foi a razão por que ordenou a Providência divina que concorressem e se ajuntassem neste grande exemplar tanta diversidade de estados, de exercícios, de fortunas. Nasceu fidalgo, foi cortesão, foi soldado, foi mendigo, foi peregrino, foi preso, foi estudante, foi graduado, foi escritor, foi religioso, foi pregador, foi súdito, foi prelado, foi legislador, foi mestre de espírito, e até pecador foi em sua mocidade; depois, arrependido, penitente e santo. Para quê? Para que todos achem tudo em Santo Inácio: Omnibus omnia factus sum.26 O fidalgo achará em Santo Inácio uma idéia da verdadeira nobreza; o cortesão, os primores da verdadeira polícia; o soldado, os timbres do verdadeiro valor. O pobre achará em Santo Inácio que o não desejar é mais certa riqueza; o peregrino, que todo o mundo é pátria; o perseguido, que a perseguição é o caráter dos escolhidos; o preso, que a verdadeira liberdade é a inocência. O estudante achará em Santo Inácio o cuidado sem negligência; o letrado, a ciência sem ambição; o pregador, a verdade sem respeito; o escritor, a utilidade sem afeite.27 O religioso achará em Santo Inácio a perfeição mais alta; o súdito, a obediência mais cega; o prelado, a prudência mais advertida; o legislador, as leis mais justas. O mestre de espírito achará em Santo Inácio muito que aprender, muito que exercitar, muito que ensinar, e muito para onde crescer. Finalmente o pecador, por mais metido que se veja no mundo e nos enganos de suas vaidades, achará em Santo Inácio o verdadeiro norte de sua salvação; achará o exemplo mais raro da conversão e mudança de vida; achará o espelho mais vivo da resoluta e constante penitência e achará o motivo mais eficaz da confiança em Deus e na sua misericórdia, para pretender, para conseguir, para perseverar e para subir ao mais alto cume da santidade e graça, com a qual se mede a glória.

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