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#Sermões#Retórica

Sermão da Sexagésima

Por Padre Antônio Vieira (1655)

Pouco disse S. Paulo em lhes chamar comédia, porque muitos sermões há que não são comédia: são farsa. Sobe talvez ao púlpito um pregador dos que professam ser mortos ao mundo, vestido ou amortalhado em um hábito de penitência (que todos, mais ou menos ásperos, são de penitência, e todos, desde o dia em que os professamos, mortalhas) a vista é de horror, o nome de reverência, a matéria de compunção, a dignidade de oráculo, o lugar e a expectação de silêncio. E quando este se rompeu, que é o que se ouve? Se neste auditório estivesse um estrangeiro que nos não conhecesse, e visse entrar este homem a falar em público naqueles trajas e em tal lugar, cuidaria que havia de ouvir uma trombeta do céu, que cada palavra sua havia de ser um raio para os corações, que havia de pregar com o zelo e com o fervor de um Elias, que com a voz, com o gesto, e com as ações havia de fazer em pó e em cinza os vícios. Isto havia de cuidar o estrangeiro. E nós, que é o que vemos? Vemos sair da boca daquele homem, assim naqueles trajos, uma voz muito afetada e muito polida, e logo começar com muito desgarro, a quê? A motivar desvelos, a acreditar empenhos, a requintar finezas, a lisonjear precipícios, a brilhar auroras, a derreter Cristais, a desmaiar jasmins, a toucar primaveras, e outras mil indignidades destas. Não é isto farsa a mais digna de riso, se não fora tanto para chorar? Na comédia o rei veste como rei e fala como rei, o lacaio veste como lacaio e fala como lacaio, o rústico veste como rústico e fala como rústico, mas um pregador vestir como religioso e falar como... não o quero dizer por reverência ao lugar. Já que o púlpito é teatro e o sermão comédia, sequer não faremos bem a figura? Não dirão as palavras com o vestido e com o ofício? Assim pregava S. Paulo, assim pregavam aqueles patriarcas que se vestiram e nos vestiram destes hábitos? Não louvamos e não admiramos o seu pregar, não nos prezamos de seus filhos? Pois por que os não imitamos? Por que não pregamos como eles pregavam? Neste mesmo púlpito pregou S. Francisco Xavier, neste mesmo púlpito pregou S. Francisco de Borja, e eu, que tenho o mesmo hábito, por que não pregarei a sua doutrina, já que me falta o seu espírito?

X

Não fazer caso das zombarias dos ouvintes: a doutrina que eles desestimam, essa é a mais proveitosa; é como o trigo que caiu no caminho. O pregador é o médico: não deve procurar agradar mas curar Diferença entre dois famosos pregadores de Coimbra. Esperança de melhores frutos para a quaresma que se inicia.

Dir-me-eis o que a mim me dizem, e o que já tenho experimentado, que se pregamos assim, zombam de nós os ouvintes, e não gostam de ouvir. Oh! boa razão para um servo de Jesus Cristo! Zombem e não gostem embora, e façamos nosso ofício. A doutrina de que eles zombam, a doutrina que eles desestimam, essa é a que lhes devemos pregar, e por isso mesmo, porque é a mais proveitosa e a que mais hão mister. O trigo que caiu no caminho, comeram-no as aves. Estas aves, como explicou o mesmo Cristo, são os demônios que tiram a palavra de Deus dos corações dos homens: Venit diabolus et tollit verbum de corde eorum. Pois por que não comeu o diabo o trigo que caiu entre os espinhos, ou o trigo que caiu nas pedras, senão o trigo que caiu no caminho? Porque o trigo que caiu no caminho: Conculcatum est ab hominibus: pisaram-no os homens, e a doutrina que os homens pisam, a doutrina que os homens desprezam, essa é a de que o diabo se teme. Desses outros conceitos, desses outros pensamentos, dessas outras subtilezas que os homens estimam e prezam, dessas não se teme, nem se acoutela o diabo, porque sabe que não são essas as pregações que lhe hão de tirar as almas das unhas. Mas daquela doutrina que cai: secos viam; daquela doutrina que parece comum: secas viam, daquela doutrina que parece trivial: secas viam, daquela doutrina que parece trilhada: secos viam, daquela doutrina que nos põe em caminho e em via da nossa salvação (que é a que os homens pisam e a que os homens desprezam) essa é a de que o demônio se receia e se acoutela; essa é a que procura comer e tirar do mundo. E por isso mesmo, essa é a que deviam pregar os pregadores, e a que deviam buscar os ouvintes. Mas se eles não o fizerem assim, e zombarem de nós, zombemo-nos tanto de suas zombarias como dos seus aplousos. Per infamiam, et bonan famam, diz S. Paulo (2 Cor. 6,8). O pregador há de saber pregar com fama e sem fama. Mais diz o apóstolo: há de pregar com fama e com infâmia. Pregar o pregador para ser afamado, isso é mundo, mas infamado, e pregar o que convém, ainda que seja com descrédito de sua fama, isso é ser pregador de Jesus Cristo.

(continua...)

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