Por Eça de Queirós (1940)
O grão-duque passou o rio num barco com as tropas. Os Turcos fizeram sobre as jangadas um fogo fraco e preguiçoso, que tinha o ar melancólico de ser «por honra da firma». As baterias russas bem depressa fizeram calar aquele protesto indolente; os primeiros regimentos que desembarcaram repeliram os Turcos das colinas, ocuparam as melhores posições e procedeu-se logo à construção de uma ponte de barcos, por onde no dia seguinte, com a agradável tranquilidade de um passeio militar, atravessaram trinta mil russos! Quase ao mesmo tempo, noutro ponto do rio, em Petroceni, uma outra divisão russa passou para o território turco. Aí a resistência foi também Superficial e pró-forma, e agora os Russos têm um caminho Seguro para lançar, em terra otomana, uma invasão irresistível.
O que significa esta frouxa defesa dos Turcos? Foram surpreendidos? Calcularam mal o ponto provável da passagem e acumularam forças em ponto errado? Resolveram uma táctica de abstenção? Preferem encontrar os Russos no interior, nas suas colinas fortificadas? Não se sabe. Muitos querem dizer que os Turcos estão desmoralizados, que sentem a inutilidade da resistência e que procuram tirar o melhor partido possível da guerra, deixando-se suavemente corromper pelo dinheiro russo. Diz-se que alguns generais chegaram a esta conclusão que, sendo impossível salvar a pátria, é conveniente com tempo engordar a bolsa. Diz-se que larga soma de dinheiro moscovita tem sido remetida para os paxás que comandam na margem turca do Danúbio; que os oficiais superiores, sabendo isto, perdem o espírito de resistência e abandonam-se às doçuras da indisciplina; e que a totalidade do exército turco está positivamente a fingir que defende o império. Mas realmente o comportamento dos oficiais turcos na Ásia – que se estão batendo com bravura, com desespero e, coisa rara, com inteligência, contradiz profundamente esta interpretação; e eu penso que a táctica dos Turcos é retirarem-se para as fortalezas dos Balcãs, onde o grande espírito de defesa do soldado otomano pode ser aproveitado com vantagens fecundas.
Logo depois da passagem do Danúbio, o czar fez uma proclamação aos Búlgaros; este documento é regularmente »antipático. Fala nos «antepassados», nos séculos de sofrimento»; tem frases antiquadas sobre o «suor do trabalhador» e a «honra da esposa»: abunda em preceitos de amor cristão e é, na sua totalidade, tortuoso como uma mentira, sendo melífluo como um sermão! A opinião em Inglaterra irrita-se com este tom hipócrita do soldado que põe o capuz de missionário. Nada realmente é mais repugnante do que ver o lobo fazer tagatés ao cordeiro. «Reuni-vos sob a bandeira russa!», exclama o czar; o que quer dizer: «Vinde ser uma Polónia número dois, meus filhos!»
E eu imagino que este tom adocicado do salvador que chega com centenares de mil homens deve fazer passar um frio na espinha dorsal do salvado!
No Montenegro a guerra continua tão desastrosa para uns como para outros. Os Montenegrinos, apesar da sua coragem heróica,, de um espírito sublime de sacrifício, não podem nada contra a esmagadora superioridade do número. Os Turcos têm no Montenegro sessenta mil homens, isto é, metade de toda a população do Montenegro: o país, com efeito, tem pouco mais de cento e dezassete mil habitantes! Contra isto não se resiste. Por outro lado, os Turcos têm ali uma força empenhada em conquistar desfiladeiros nus e colinas selvagens, sem utilidade, que, bem utilizada na Ásia, poderia ter mudado as condições da guerra.
Na Ásia é incontestável que os Turcos têm tido vantagens; os Russos foram repelidos e perderam posições: as operações russas têm sido dirigidas com o vagar e a pacatez costumadas; isto deu tempo aos Turcos de se organizarem, de fomentarem insurreições entre as tribos desafectas aos Russos, de formarem legiões curdas e de melhorarem uma situação militar que parecia perdida. Atribui-se esta reacção inteligente a um oficial (não se diz se estrangeiro, se turco) que ultimamente dirige a campanha da Rússia: Mukhtar Paxá conserva o comando, mas o tal misterioso oficial é quem dirige, organiza e decide: cobre-o o mais impenetrável incógnito; ninguém o avista, ninguém o conhece; é uma espécie de espírito inspirado; mas na verdade é que a sua presença tem sido para os Turcos um começo de felicidade e quase de desforra.
Isto não impede que em Constantinopla a inquietação seja grande. A posição do sultão é terrível; em primeiro lugar, o ex-sultão Murad está inteiramente restabelecido e ocupa-se de política, o que dá aos seus partidários uma esperança e um pretexto para se agitarem. Se o ex-sultão Murad, que foi deposto por doença, está bom, não há razão para que continue excluído do trono que legitimamente lhe pertencia. Daqui uma conspiração perpétua dos seus partidários. Por outro lado, o actual sultão tem apenas um apoio, um amigo – o grão-vizir Redif Paxá. Este apoio decerto é fone: Redif é tudo – e a polícia, é o dinheiro, é o sacerdócio, é a imprensa; tudo domina, tudo influi, de tudo dispõe. Mas os ódios que tem criado são enormes no palácio, mesmo todos os desastres da guerra lhe são atribuídos. Diz-se que há dias se passou na presença do sultão uma cena horrível. Redif Paxá, com uma impudência de intrigante, estava dizendo ao sultão – que tanto na Ásia como no Danúbio tudo ia às mil maravilhas; o irmão do sultão, Nureddin Effendi, que estava presente, ergueu-se como um tigre e gritou-lhe na cara:
– Mentes! Es um infame! E a tua presença aqui é uma vergonha.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. Crónicas de Londres. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14018 . Acesso em: 29 jun. 2026.