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#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

Estava tão pensativo, que o Manuel cocheiro teve de lhe perguntar duas vezes se o padrinhozinho não apparecera.

-— Não veio. Vamos lá, 'vamos lá I

Atirou-se para um canto do char-à-bancs, e emquanto o carro rolava surdamente na estrada já escura, Arthur, fitando pela vidraça aberta uma claridade terna de luar que apparecia por cima da linha negra dos pinheiraes, recitava versos d'Hugo, suffocado d'uma melancolia deliciosa :

Et j'étais devant toi plein de joie et de flamme Car tu me regardais avec toute ton ame.

Arthur tinha então vinte e tres annos, Pertencia a uma familia burgueza, originaria de Lisboa, mas dispersada na provincia desde a guerra civil. Seu bisavô paterno, que ficara na tradição familiar como uma, gloria domestica, pertencera, em Lisboa, ao grupo de poetas parasitas que se enthusiasmavam platonicamente nos botequins por Mirabeau e Robespierre, faziam sonetos aos fidalgos em dias d'annos, desejavam morrer pela liberdade e espancavam a ronda ao sahir dos garaug, onde eram admittidos para recitar elegias ás Malvinas. Já velho, começara e, traduzir em verso as Ruinas, de Volney, e os seus manuscriptos eram propriedade d'uma das suas netas, que casara em Oliveira d'Azemeis e levara para sua companhia as duas irmãs mais no vas, Ricardina e Sabina. Seu avô, esse, fôra, no Porto, tabellião correcto e obscuro. Seu pae, depois de ter, na primeira mocidade, publicado duas Meditações funerarias n'um semanario do Porto, casara com a snr. 8 D. Maria das Neves Alpedrim, senhora pallida e magra, que tocava harpa e fôra comparada n'um folhetim do tempo a uma Virgem d'Ossían ; mais tarde estabelecera-se seriamente em Ovar, onde tinha obtido o logar d'escrivão de Direito.

Foi lá que Arthur nasceu, annos depois — e a mãe, encantada, dera-lhe este nome, em memoria dos seus tempos d'harpa e dos cavalleiros de xácara, cujos amores e proezas na Terra Santa tanto a, tinham commovido.

O pae, esse, homem excellente e terno que até ahi se desolara eom a esterilidade do seu casamento, adorou logo a creança e com o seu respeito B.lpersticioso pela magistratura, ainda Arthur não fôra baptizado, ja o bom Manuel Corvello decidira economisar com methcdo, para mais tarde o levar a Coimbra e fazer d'elle um bacharel ; mas secretamente esperava que o filho cultivasse as Bellas-Letras, e a sua esperança era que o Arthurzinho, um dia, reunisse em si as qualidades dos dous homens que elle mais admirava em Ovar— o delegado Pimenta, d'argumentação tão capciosa, nutrido de legislação, um Pegas destinado a uma desembargadoria, e o advogado Silveira, d'imagens floridas, celebre na comarca pelos seus folhetins poeticos no Campeão d'Aveiro !

Ás vezes, quando o pequeno Arthur rabujava muito, o pobre pae, alta noite, de chinelas e paletot, embalava-o nos braços pelo quarto, cantaroIa,ndo-lhe n'uma voz roufenha o Gentil Pugem d'ElRei até o adormentar ; e ficava então enlevado a olhar para aquelle rostozinho amarello de lombrigas, ainda com uma lagrimazinha nas pestanas, imaginando-o já na sua beca de desembargador, celebre como Lobão e auctor d'um livro querido como Amor e Melancolial Elle, por esse tempo, coitado, estaria velho: não poderia trabalhar, mas aquelle serzinho que agora a sonhar lhe mamava no dedo, seria então um filho illustre e bom, que pela posição na Magistratura lhe faria a velhice farta e pela gloria nas Letras lhe tornaria o nome classico.

Foi grande a sua alegria quando notou que nada calmava as raras perrices do Arthurzinho, como folhear algum veneravel in-folio d'antiga legislação ; e sobretudo, mais tarde, quando viu que o divertimento querido do pequeno, não era rufar em tambores ou cavalgar vassouras, mas, aninhado nas saias da mãe, coser caderninhos de papel, que cobria de capas côr de rosa e de que accumulava collecções com a devoção d'um velho bibliophilo.

— Signaes d'intelligencia — dizia muito serio o bom homem.

Por isso, bem cedo, Arthur começou a trabalhar o seu Tito-Livio e o seu Telemaco. Mas a mãe, que depois do parto ficara sempre adoentada, affligiase do tamanho das lições, e se o rapaz, com somno, não fazia o thema, mandava ao outro dia secretamente um arratel de chá ou d'assucar ao mestre João Grainha para lhe acalmar a severidade. De verio e d'inverno cobria-o de flanellas, e se o ouvia espirrar, fazia-o beber ao jantar copinhos d'agua quente ; nunca o deixava adormecer sem verificar se elle tinha aos pés a sua botija, á cabeceira, a imagem de Nossa Senhora, e ao lado, a campainha, a lamparina, a chásada, o assucareiro e um ladrilhozinho de marmelada. E o proprio pae o ia buscar á escola, para impedir que os outros pequenos o fizessem correr ou lhe dirigissem chufas.



(continua...)

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