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#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

O petróleo dos candeeiros findava: e o Gago, reclamado para trazer castiçais, surdiu em mangas de camisa, detrás duma cortina de chita, com a sua esperta humildade banhada em riso, lembrando a Suas Excelências que passava da uma horazinha da noite... O Administrador, que detestava noitadas, nocivas à sua garganta (de amígdalas loucamente inflamáveis), puxou o relógio com terror. E rapidamente reabotoado na sobrecasaca, de chapéu-coco mais tombado à banda, apressou o lento Titó, porque ambos moravam no alto da Vila-ele defronte do Correio, o outro na viela das Teresas, numa casa onde outrora habitara e aparecera apunhalado o antigo carrasco do Porto.

O Titó porém não se aviava. Com o bengalão debaixo do braço, ainda chamou o Gago ao fundo sombrio da sala estreita, para cochichar sobre o embrulhado negócio de urna compra de espingarda, soberba espingarda Winchester, empenhada ao Gago pelo filho do Tabelião Guedes de Oliveira. E, quando desceu a escadaria, encontrou à porta da taberna, no estendido luar que orlava a rua adormecida, o Fidalgo da Torre e o João Gouveia bruscamente engalfinhados na costumada contenda sobre o Governador Civil de Oliveira - o André Cavaleiro!

Era sempre a mesma briga, pessoal, furiosa e vaga. Gonçalo clamando que não aludissem diante dele, pelas cinco chagas de Cristo, a esse bandido, esse Sr. Cavaleiro e sobretudo Cavalo, mandão burlesco que desorganizava o Distrito! E João Gouveia muito teso, muito seco, com o coco mais caído na orelha, assegurando a inteligência superior do amigo Cavaleiro, que estabelecera limpeza e ordem, corno Hércules, nas cavalariças de Oliveira! O Fidalgo rugia. E Videirinha, com o violão resguardado atrás das costas, suplicava aos amigos que recolhessem à taberna, para não alvorotar a rua...

- Tanto mais que defronte, coitada, a sogra do Dr. Venâncio está desde ontem com a pontada!

- Pois então - berrou Gonçalo - não venham com disparates que revoltam! Dizer você, Gouveia,que Oliveira nunca teve Governador Civil como o Cavaleiro!... Não é por meu pai! O papá já lá vai há três anos, infelizmente. Concordo que não fosse boa autoridade. Era frouxo, andava doente... Mas depois tivemos o Visconde de Freixomil. Tivemos o Bernardino. Você serviu com eles. Eram dois homens!... Mas este cavalo deste Cavaleiro! A primeira condição para a autoridade superior dum Distrito é não ser burlesca. E o Cavaleiro é de entremez! Aquela guedelha de trovador, e a horrenda bigodeira negra, e o olho languinhento a pingar namoro, e o papo empinado, e o pó-pó-poh! E de entremez! E estúpido, duma estupidez fundamental, que lhe começa nas patas, vem subindo, vem crescendo. Oh senhores, que animal!... Sem contar que é malandro.

Teso na sombra do imenso Titó, como uma estaca junto duma torre, o Administrador mordia o charuto. Depois, de dedo espetado, com uma serenidade cortante:

- Você acabou?... Pois, Gonçalinho, agora escute! Em todo o distrito de Oliveira, note bem, emtodo ele! não há ninguém, absolutamente ninguém, que de longe, muito de longe, se compare ao Cavaleiro em inteligência, caráter, maneiras, saber, e finura política!

O Fidalgo da Torre emudeceu, varado. Por fim sacudindo o braço, num desabrido, arrogante desprezo:

- Isso são as opiniões dum subalterno!

- E isso são as expressões dum malcriado! - uivou o outro, crescendo todo, com os olhinhosesbugalhados a fuzilar.

Imediatamente entre os dois, mais grosso que um barrote, avançou o braço do Titó, estendendo uma sombra na calçada:

- Olá! Oh rapazes! Que desconchavo é este? Vocês estão borrachos?... Pois tu, Gonçalo...

Mas já Gonçalo, num desses seus impulsos generosos e amoráveis que tão finamente seduziam, se humilhava, confessava a sua brutalidade, sensibilizado:

- Perdoe você, João Gouveia! Sei perfeitamente que você defende o Cavaleiro por amizade, nãopor dependência... Mas que quer, homem? Quando me falam nesse Cavalo... Não sei, é por contágio da besta, orneio, atiro coice!

O Gouveia. sem rancor, logo reconciliado (porque admirava carinhosamente o Fidalgo da Torre), deu um puxão forte à sobrecasaca e apenas observou "que o Gonçalinho era uma flor, mas picava..." Depois, aproveitando a emoção submissa de Gonçalo. recomeçou a glorificação do Cavaleiro, mais sóbria. Reconhecia certas fraquezas: Sim, com efeito, aquele modo empertigado... Mas que coração! - E o Gonçalinho devia considerar...

O Fidalgo, de novo revoltado. recuou, espalmando as mãos:

- Escute você. oh João Gouveia! Por que é que você lá em cima. á ceia, não comeu a salada depepino? Estava divina. até o Videirinha a apeteceu! Eu repeti. acabei a travessa... Por que foi? Porque você tem horror fisiológico, horror visceral ao pepino. A sua natureza e o pepino são incompatíveis. Não há raciocínios, não há sutilezas, que o persuadam a admitir lá dentro o pepino. Você não duvida que ele seja excelente. Desde que tanta gente de bem o adora: mas você não pode... Pois eu estou para o Cavaleiro como você para o pepino. Não posso! Não há molhos. nem razões, que mo disfarcem. Para mim é ascoroso. Não vai! Vomito!... E agora ouça. Então Titó. que bocejava, interveio, já farto:

(continua...)

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