Por Camilo Castelo Branco (1889)
Aqui tens o prólogo desta carta ; agora vamos espreitar o lance extraordinário daquele encontro, em que deixamos o visconde e a… Como hei-de chamar-lhe ?… A viscondessa, e a sua Exma Filha D. Laura.
— “Pois é possível existires ?” — perguntava o visconde, sinceramente admirado, a sua mulher.
— “Pois não me conheces, Antônio ?” — respondia ela com estúpida naturalidade.
— “Tinham-me dito que morreras…” — tornou ele com desasada hipocrisia. — “Tinham-me dito, há dezessete anos, que tu e nossa filha tínheis sido vítimas da cólera-morbo…”
— “Felizmente que lhe mentiram” — interrompeu Laura com afetada meiguice. — “Não é que lhe tínhamos rezado por alma, e nunca deixamos de pronunciar o seu nome em saudosas lágrimas.”
— “Como tendes vivido ?” — perguntou o visconde.
— “Pobre, mas honradamente” — respondeu Josefa, dando-se uns ares austeros, e pondo os olhos em branco, como quem invoca o céu por testemunha.
— “Ainda bem !” - tornou o visconde — “mas que modo de vida tem sido o vosso ?”
— “O trabalho, meu querido Antônio, o trabalho de nossa filha tem sido o amparo da sua honra e da minha velhice. Tu abandonastes-nos com tamanha crueldade !… Que mal te fizemos-nós ?”
— “Nenhum, mas não vos disse eu que vos considerava mortas?” — respondeu o visconde a sua mulher, que tivera a habilidade de arrancara duas volumosas lágrimas, tanto a propósito.
— “O passado, passado” — disse Laura, afagando carinhosamente as mãos paternas, e dando-se uns ares de inocência capazes de iludir S. Simão Estilista. — “Quer o pai saber” (prosseguiu ela com sentimento) “qual tem sido a minha vida ? Olhe, meu pai, não se envergonhe da posição social em que encontra sua filha… Tenho sido modista, tenho trabalhado incessantemente… Tenho lutado com as tentações da penúria, e tenho feito consistir em minhas lágrimas o meu triunfo…”
— “Bem, minha filha” — interrompeu o visconde com sincera contrição — “esqueçamos o passado… De hora em diante será a abundância o prémio da tua virtude… Ora diz-me : o mundo sabe que tu és minha filha ?… Disseste a alguém que era teu marido, Josefa ?”
— “Não, meu pai.” — “Não, meu Antoninho.” — responderam ambas, como se tivessem previsto e calculado as perguntas e as respostas.
— “Pois bem,” — continuou o visconde — “vamos a conciliar com o mundo as nossas posições presentes, passadas e futuras. De hora avante, Laura, és minha filha, és filha do visconde do Prado, e não podes chamar-te Laura. Serás Elisa, compreendes-me ? É necessário que te chames Elisa…”
—“Sim, meu pai… Eu serei Elisa” — atalhou a inocente modista com impetuosa alegria.
— “É necessário abandonar Lisboa” — prosseguiu o visconde.
— “Sim, sim, meu pai… Vivamos num sertão… Quero gozar, sozinha, na presença de Deus a felicidade de ter pai…”
— “Não iremos para um sertão… Vamos para Londres ; mas… atendamme… é preciso que ninguém as veja, nestes primeiros anos, principalmente em Lisboa… A minha posição atual é muito melindrosa. Tenho muitos inimigos, muitos invejosos, muitos infames, que procuram perder-me no conceito que pude comprar com o meu dinheiro. Estou farto de Lisboa ; partiremos nos primeiro paquete… Josefa, repara em ti, e vê que és viscondessa do Prado. Elisa, a tua educação foi desgraçadamente mesquinha para te poderes mostrar qual eu quero que sejas na alta sociedade. Voltaremos um dia, e terás então suprido com a educação prática a rudeza que indispensavelmente tens.”
Não progrido, neste diálogo, Carlos. O programa do visconde foi rigorosamente cumprido.
Aqui tens os precedentes que prepararam o meu encontro, em Londres, com esta família. Vasco de Seabra, quando viu, pela primeira vez, a filha do visconde atravessar um corredor do hotel, fixou-a com pasmo, e veio dizer-me que acabava de ver, elegantemente trajada, uma mulher que conhecera em Lisboa, chamada Laura.
Acrescentou várias circunstâncias da vida desta mulher, e acabou por mostrar vivos desejos de saber o tolo opulento a quem tal mulher estava associada.
Vasco pediu a lista dos hóspedes, e viu que os únicos portugueses eram Vasco de Seabra e sua irmã, e o visconde do Prado, a sua mulher, e sua filha D.
Elisa Pimentel.
Redobrou o seu pasmo, e chegou a convencer-se de uma ilusão.
No seguinte dia, o visconde encontrou-se com Vasco, e alegrou-se de ter encontrado um patrício, que lhe explicasse aqueles gritos bárbaros dos serventes do hotel, que lhe davam água por vinho. Vasco não duvidou em ser intérprete do visconde, contanto que as suas luzes em língua inglesa pudessem chegar ao esconderijo donde nunca mas vira sair a suposta Laura.
Correram as coisas à medida do seu desejo. Na noite desse dia, fomos convidados para tomar chá, na saleta do visconde. Eu hesitei, sem saber ainda se Laura seria familiar do visconde. Vasco, porém, despreveniu-me deste temor, afiançando-me que se tinha iludido com a semelhança das duas mulheres.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Coisas que só eu sei. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16587 . Acesso em: 28 jun. 2026.