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#Romances#Literatura Portuguesa

Amor de Salvação

Por Camilo Castelo Branco (1864)

O escândalo, que felizmente abortou à portaria do convento, pôs de sobrerrolda os pais de família que tinham meninas a educar nas Ursulinas e deu às insones freiras um sexto sentido de observação. Dentro do mosteiro reinava a opinião de que Teodora tinha bastante capacidade para tomar criada, conforme o gorado sistema de Libana. Além disto, depois da expulsão da transmontana, a morgadinha, em vez de quebrar do orgulho e reportar-se, enfuriou-se mais, e saia com invectivas e chacotas às freiras velhas, clamando a vozes descompostas que a mandassem embora, se lhes não servia assim. A comunidade, ofendida e esgotada de paciência, consultado o tutor da educanda, assumiu o uso ou o abuso dos antigos poderes monásticos, e encerrou-a no seu quarto, com ameaças de a fecharem no tronco. Teodora esmoreceu diante da força mista das freiras e dos padres capelães, que prometiam suprir com o pulso a ineficácia da eloqüência persuasiva.

Vagamente informado da situação da sua amada, Afonso de Teive foi à portaria do convento, no heróico propósito de ir arrancar a vítima de sobre as asas da teocracia despótica. A porteira, senhora de óculos e de muita virtude, ofereceu peito de mártir às injúrias ímpias do acriançado amante. Porém, como quer que o acaso ali encaminhasse uni cabo de policia, quando Afonso gesticulava e vociferava um menos mau improviso contra os conventos, o cabo, com as mãos atadas na cabeça, correu ao regedor, e este acudiu no supremo lance, já quando o alucinado aluno de Retórica estrondeava na porta valentes murros, chamando Teodora a clamorosos gritos.

Travado pelos braços pujantes das autoridades, Afonso não pode resistir à surpresa do assalto. Escabujou e esbraveou enquanto as forças da raiva o aqueceram; afinal caiu exânime nos braços da lei, balbuciando ainda "Teodora!". Estava a instaurar-se-lhe processo, quando a fidalga de Ruivães chegou a desfazer com a sua respeitável presença, e auxilio dos mais importantes cavalheiros de Braga, a criminalidade pueril do filho.

Afonso, levado por sua mãe, foi para casa, deliberado a deixar-se morrer. Caiu de cama, e tresvariou em febres de mau carácter. Todavia, os cuidados maternais, cooperados pela robusta natureza dos dezesseis anos, salvaram-no. Os olhos, durante a morosa convalescença, choraram-lhe de continuo; os sonhos eram-lhe ainda suplícios de que despertava em brados e soluços; não obstante, a cura do amor, que chora, é certa: ferida de coração, onde possa chegar o agro e adstringente de uma lágrima, cicatriza cedo ou tarde. Amores incuráveis são os que desabafam em rancorosas explosões.

A parentela do ilustre pimpolho, alvorotada pelas lástimas da fidalga, reunira-se em conselho, e alvitrara que Afonso de Teive fosse completar os estudos preparatórios em Lisboa, hospedando-se em casa de um seu tio desembargador. O moço obedeceu às exortações e rogos de sua mãe, depois que a extremosa senhora lhe prometeu e asseverou que, a despeito de tudo e de todos, Teodora, no prazo de um ano, seria sua esposa.

Os parentes embicaram, resmoneando que o morgado da Fervença o era só em nome, sem vinculo nem foro em ascendente conhecido. Contra estas razões se insurgiu Afonso em termos que feririam a ilustração democrática de um botequineiro antes de ser cavaleiro do hábito de Cristo. A fidalga, mais ufana de proceder do tronco dos primitivos cristãos, iguais entre si e iguais ante Deus, que vaidosa de aparentar-se com os Pinheiros de Barcelos e os Correias e Lacerdas da Honra de Farelães, votou com seu filho, dizendo "que na casa de Ruivães sobejava a fidalguia e faltava a felicidade".

Foi Afonso para Lisboa com o capelão- O tio desembargador agasalhou-o nos braços, e as primas, filhas do bondoso magistrado, a mingua de um irmão, começaram logo a dizer que Deus lhes dera um, e, como tal, o não deixariam voltar mais, sem elas à província.

Pouco montam tantas carícias para o contentamento de Afonso. Ralam-no saudades, emagrecem-no os jejuns, amarelece-o a tristeza. Nas aulas é mau estudante; no círculo dos condiscípulos é um autómato que ri por comprazer, e vai sem saber que vai para onde o impelem; em casa com as primas é um aborrecido, que nem ao menos as acha bonitas, nem cisma sequer em adivinhar as charadas maricas, e logogrifos figurados, em que todas são exímias e sobremodo impertinentes.

A senhora de Ruivães recebe de todos os correios instantes cartas de Afonso acelerando as diligências para o casamento. A consternada mãe já por terceiras pessoas mandou sondar as dificuldades que importa combater. De Braga dizem-lhe que Teodora já saiu do encerramento da cela e tem o convento todo por homenagem, salvo o palratório e a cerca. Ajuntam as informações que o tutor da morgada freqüenta semanalmente o convento, e algumas vezes vai com ele um filho, rapaz de figura absurda, com uma gravata vermelha, capaz de seduzir uma nação de pretos, e urna casaca arqueológica, de cabeção tão copioso que parecia enrolar um capote.

A descrição poderia ser acoimada de desgraciosa; mas de hipérbole não. Este sujeito chama-se Eleutério Romão dos Santos, por ser filho de Eleutéria Joaquina e de Romão dos Santos, tutor de Teodora, lavrador abastado, vizinho do Mosteiro de Tibães.

Eleutério tem vinte e dois anos; quis aprender a ler com seu tio padre Hilário; mas a natureza opôs-se-lhe, logo que ele, após um ano de canseira, entrou a soletrar palavras de três sílabas. Vencido pela natureza, padre Hilário desistiu, visto que lhe era vedado arejar o cérebro do sobrinho por uma fresta aberta a machado.

(continua...)

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