Por Machado de Assis (1891)
-O senhor dá-se bem com a residência aqui em Botafogo? interrompeu Carlos Maria dirigindo-se ao dono da casa.
Freitas, interrompido, mordeu os beiços, e, pela segunda vez, mandou o moço ao diabo. Colou-se ao espaldar, teso, grave, olhando para um painel da parede. Rubião respondeu que se dava bem, que a praia era linda.
-A vista é bonita, mas nunca pude tolerar o mau cheiro que há aqui, em certas ocasiões, disse Carlos Maria. Que lhe parece? continuou voltando-se para o Freitas.
Freitas desencostou-se e disse tudo o que pensava, que um e outro podiam ter razão; mas insistiu em que a praia, a despeito de tudo, era magnífica; discorreu sem amuo, nem vexame; fez até o obséquio de chamar a atenção do Carlos Maria para um pedacinho de fruta que lhe ficara na ponta do bigode.
Chegaram ao fim, era pouco mais de uma hora. Rubião, calado, recompunha mentalmente o almoço, prato a prato, via com gosto os copos e os seus resíduos de vinho, as migalhas esparsas, o aspecto final da mesa, em vésperas de café. De quando em quando dava um olhar à casaca do criado. Chegou a apanhar o rosto de Carlos Maria em flagrante prazer, quando tirava as primeiras fumaças de um dos charutos que ele mandara distribuir. Nisto entrou o criado com uma cestinha coberta por um lenço de cambraia, e uma carta, que acabavam de trazer.
CAPÍTULO XXXII
-QUEM É que manda isto? perguntou Rubião.
-D. Sofia.
Rubião não conhecia a letra; era a primeira vez que ela lhe escrevia Que podia ser? Via-se-lhe a comoção no rosto e nos dedos. Enquanto ele abria a carta, Freitas familiarmente descobria a cestinhaeram morangos. Rubião leu trêmulo estas linhas
Mando-lhe estas frutinhas para o almoço, se chegarem a tempo; e, por ordem do Cristiano, fica intimado a vir jantar conosco, hoje, sem falta.
Sua verdadeira amiga,
SOFIA.
- Que frutas são? perguntou Rubião fechando a carta.
- Morangos.
-Chegaram tarde. Morangos? repetiu ele sem saber o que dizia.
-Não é preciso corar, meu caro amigo, disse-lhe rindo o Freitas, logo que o criado saiu. Estas cousas acontecem a quem ama...
-A quem ama? repetiu Rubião corando deveras. Mas, pode ler a carta, veja...
Ia mostrá-la, recuou e meteu-a no bolso. Estava fora de si, meio confuso, meio alegre; Carlos Maria deleitou-se em dizer-lhe (que ele não podia encobrir que o mimo era de alguma namorada. E não achava que repreender; o amor era lei universalse era alguma senhora casada, louvava-lhe a discrição...
- Mas pelo amor de Deus! interrompeu o anfitrião.
-Viúva? Estamos no mesmo caso, continuou Carlos Maria; a discrição aqui é ainda um merecimento. O maior pecado, depois do pecado, é a publicação do pecado. Eu, se fosse legislador propunha que se queimassem todos os homens convencidos de indiscrição nestas matérias; e haviam de ir para a fogueira, como os réus da inquisição com a diferença que, em vez de sambenito, levariam uma capa de penas de papagaio...
Freitas não podia ter-se com riso e batia na mesa, à maneira de aplauso; Rubião, meio enfiado, acudia que não era casada nem viúva . . .
-Solteira então? replicou o moço. Um casório em breve? Vá que é tempo. Morangos de noivado, continuou, pegando alguns entre os dedos. Cheiram a alcova de donzela e a latim de padre.
Rubião não sabia mais que dissesse; afinal tornou atrás e explicou se; eram da senhora de um seu amigo particular. Carlos Maria piscou o olho, Freitas interveio dizendo que agora, sim, senhor, estava explicado; mas que, a princípio, o mistério, o arranjo da cestinha. o ar dos próprios morangos,-morangos adúlteros, disse ele, rindo - todas essas cousas davam ao negócio um aspecto imoral e pecaminoso; mas tudo ficara acabado.
Tomaram em silêncio o café; depois passaram à sala. Rubião desfazia-se em obséquios, mas preocupado. Corridos alguns minutos, estava satisfeito com a primeira suposição dos dous convivasa de um amor adúltero; achou até que se defendera com demasiado calor. Uma vez que não dissesse o nome de ninguém, podia ter confessado que era, em verdade, um negócio íntimo. Mas também podia acontecer que o próprio calor da negativa deixasse alguma dúvida no animo dos dous, alguma suspeita... Aqui sorriu consolado.
Carlos Maria consultou o relógio, eram duas horas, ia-se embora. Rubião agradeceu lhe muito e muito o obséquio e pediu-lhe que repetisse; podiam passar alguns domingos assim em boa palestra amigável
- Apoiado! bradou Freitas aproximando-se.
Tinha metido meia dúzia de charutos no bolso, e, ao sair. disse ao ouvido do Rubião; - Cá vai a lembrança do costume; seis dias de delícias, uma delícia por dia.
-Leve mais.
-Não; virei buscá-los depois.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Quincas Borba. Rio de Janeiro: Garnier, 1891.