Por Raul Pompéia (1880)
A intenção de Eustáquio era reconhecer o abrigo dos seus perseguidores e dar-lhes combate se fosse possível, não queria porém que fosse conhecida a sua presença na floresta, por essa razão temia alguma luta com feras.
Deram mais alguns passos, mas pararam logo, prestando atenção a um murmúrio indeciso, que não vinha do alto da montanha, porém, ao contrário, da planície, e não podia ser portanto o ruído de um acampamento de índios, que só existiam do outro lado das colinas.
— Serão eles? murmurou Eustáquio.
— Quem sabe? respondeu-lhe um homem.
O marido de Branca e seus homens já se tinham voltado e examinavam as matas que se estendiam um pouco abaixo deles.
Nada viram.
Retomaram o caminho que tinham já atravessado e principiaram a descer a ladeira que levava ao cimo da pequena montanha.
Examinaram de novo a floresta. Do lado direito cousa alguma distinguiram senão as trevas da noite, na frente ainda nada, mas à sua esquerda avistaram ao longe, nas profundezas do bosque, um clarão vermelho. Eustáquio apontou para esse lugar e exclamou:
— Lá estão os assassinos!
Tinha na voz uma entonação de ódio.
Abandonando a picada, os exploradores seguiram em linha reta para o clarão. A lama do chão molhado atolava-os até acima dos joelhos, os espinhos abriam rasgões nas calças e nos capotes chegando mesmo a feri-los, contudo eles avançavam com indomável frenesi. Encontraram nova vereda e continuaram. Percebiam melhor o clarão. Era uma fogueira que brilhava sob a folhagem e o ruído que se ouvia proveniente de seu crepitar.
Já próximos da fogueira, eles pararam. Estavam vacilantes, não por medo, porque o seu ânimo não conhecia medo, porém por essa emoção que sente o soldado antes do combate e que invade o espírito mesmo do herói, a qual se transforma logo em ardor e lhe dá a coragem que não vê perigos.
O marido de Branca, aproveitando-se da luz vermelha e fraca que vinha da fogueira, viu no relógio que eram quase dez horas. A conselho de um dos paraenses, deixaram todos o caminho para adiantarem-se de rastos pelo mato. Esta manobra, habilmente executada, levou-os até o fogacho que via-se cintilar através das folhas... Espessa massa de arbustos veio ocultar-lhes inteiramente o fogo. Nada podiam mais ver, embora ouvissem perfeitamente o estalo das madeiras que ardiam.
Aí mesmo elevava-se, retorcendo-se em amplas rugas o tronco enorme de uma gigantesca castanheira, que se esgaIhava no alto. Essa árvore lembrou a Eustáquio a idéia de subir a ela, para, de cima, observar melhor o que se passava embaixo.
Assim, sendo posta em execução a idéia, subiram todos auxiliando-se uns aos outros.
Um galho, que se inclinava horizontalmente por sobre a fogueira. levou-os a um ponto de observação. Outro melhor não podiam achar.
Ramos frondosos os encobriam por todos os lados e através desses ramos podiam facilmente ver tudo, não obstante o calor que aí chegava e as lufadas de denso fumo, que por vezes se enovelavam nas folhas.
Abaixo deles formava-se uma espaçosa clareira, no meio da qual uma grande fogueira carbonizava estrepitosamente alguns troncos. As chamas intensas inundavam-na de rubros eflúvios, que transformavam os troncos vizinhos em barras de ferro em brasa e, do meio delas, subiam fagulhas luminosas que se apagavam no alto ao tocar nas folhas.
O zimbório de folhas úmidas, refletindo os infernais clarões do fogo, coroava dignamente um painel sinistro. Ao lado da fogueira viam-se dous negros, cujas faces lustrosas recebiam em cheio a sua luz, que as cobria das mais horríveis cores.
Um deles permanecia em pé, com os braços cruzados sobre o cano de uma espingarda, e olhava inalteravelmente para o outro que, assentado, revelava pelo balancear da cabeça os sinais de uma luta entre a vigília e o sono. Mais longe, como os mortos no campo de batalha, estavam estendidos outros homens nas mais variadas posições. Tinham todos o corpo envolto em capas e pareciam dormir profundamente.
O que estava de pé curvou-se e bateu brutalmente no ombro do companheiro, exclamando:
— Dormes! Se dormes, encarregado da vigília, o que farás, encarregado da vingança?
Desperta e vem fazer-me companhia.
O negro que fora tão estouvadamente despertado levantou a cabeça, perguntando, com os olhos meio fechados:
— O que é que quer?
O mais moço vendo que o companheiro não estava disposto a se levantar, largou no chão a espingarda e segurando-lhe os ombros, sacudiu-o com toda a força. As sacudidelas tiveram bom efeito, pois o mais velho pôs-se de pé e, estendendo os braços acima da cabeça, curvou-se para traz como que se desentorpecendo. Em breve viu-se tão acordado como o mais moço e ambos fizeram uma volta pela clareira, atirando lascas de pau sobre as brasas.
(continua...)
POMPÉIA, Raul. Uma tragédia no Amazonas. Rio de Janeiro: Typ. Cosmopolita, 1880. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17442 . Acesso em: 6 abr. 2026.