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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

O Almada

Por Machado de Assis (1858)

Maiormente os da boca do Veloso,

Que mal sofre ao rival este triunfo.

Mas como o fruto que seduz no rosto

E o verme esconde no corrupto seio,

Assim o pregador das grandes festas

Alegrar-se parece, enquanto a inveja

O punge, e mil idéias lhe insinua

De adular o prelado, e ao Vilalobos

Arrebatar os louros, que lhe impedem,

- O sono não, - mas o sossego d’alma.

VII

Ao ver-se tão cercado de zumbaias,

Em si mesmo não cabe de contente

O profundo doutor, em cujos lábios

A vaidade sorri, velada a meio

Dessas vãs cortesias de aparato,

E desse “Não, senhor! Oh! não! Oh! nunca!

Nunca esta prosa minha ambicionara

A tão alto subir como pretende

A bondade de Vossa Senhoria.

É um trabalhozinho feito à pressa

Só por obedecer às ordens suas”.

E outras tais mogigangas de modéstia,

De humildade, que são naqueles trances

Usual expressão.

VIII

Mas tu, Cardoso,

Êmulo foste do feliz vigário,

Quando para intimar o austero Mustre

Te ofereceste ousado. Havia fama,

Temerário escrivão, que a natureza

Para servo do altar te não fizera,

Que nasceras com balda de meirinho

Ou capitão-do-mato.[17]

–“Eu mesmo quero

(Diz o forte escrivão) dar-lhe este golpe,

E certo estou de que a fatal devassa

Nas mãos virá do arrependido Mustre

A vossos pés cair”. Cheio de mal gosto,

Almada esta façanha lhe elogia,

E copiada a intimação famosa,

Rubricada e selada, prontamente

A recebe o Cardoso. Dous abraços

O prelado lhe dá, e mais a bênção

Que o livrará das tentações do diabo.

Dá-lhe inda mais. De urna gaveta saca

Um tremendo chapéu pomposo e feio,

Que lhe mandara um monge italiano,

E que ele a sete chaves escondia.

“Tomai (lhe diz) este chapéu que há anos

De alheias vistas guardo; ele só vale

Mais que vinte orações; tomai-o, e vosso".

IX

Era um chapéu de ti: três enormes bicos.

Respeitoso o escrivão lhe imprime um beijo

E na cabeça o põe, e assim de casa

Para intimar o Mustre se encaminha.

Vaidoso e cheio da missão que leva,

As ruas atravessa da cidade,

O pavor antevendo e os calafrios

Do mesquinho ouvidor, quando o mandado

De seus lábios ouvir, e na cabeça

Sentir descarregar o grande golpe.

A notícia entretanto ia correndo

Pela cidade toda, e a cada passo

Nas esquinas, nas lojas se detinha

A gente curiosa e os olhos punha

No famoso escrivão; mas, sobranceiro,

Impávido calcando a dura terra,

Sem fazer caso do miúdo povo,

No caminho prossegue. Já chegava

Aos edifícios últimos, e a planta

O despovoado chão pisava afouto,

Quando em frente lhe surge, lacrimosa,

Brígida, mocetona de mão cheia,

Caseira sem rival, mescla robusta

De áfrico sangue e sangue d’alva Europa.

X

Nos braços dela uma gentil criança

Dorme placidamente. Então sorrindo,

Ao ver o belo infante, e o brando sono

Que essa alma em flor, não machucada ainda

De ásperas mãos humanas, sobre as asas

À doce região dos anjos leva,

Pára o Cardoso. Brígida chegando

Da mão lhe trava, os olhos ergue a medo,

E estas palavras trêmula suspira:

“Revendo senhor, coragem tanta,

Cega destimidez, prendas tão raras

(Perdoai da caseira o atrevimento)

Fatais vos hão de ser. De boca em boca,

Corre que ides citar a toda a pressa

O bárbaro ouvidor. Ai, mais que nunca

A idéia de perder-vos me acobarda.

Que será desta mísera criança,

Se o padrinho lhe falta,18 e sem conforto,

Nem amparo, nem mão experiente

Houver de caminhar do berço à campa?

Convosco irão, senhor, os dias dela,

E os meus dias também, tão bafejados

Daquelas auras que a fortuna sopra

Por que seja maior nossa desdita.

Quem mais irei servir? Que mesa estranha

Me verá preparar toalha e copos,

Se esse monstro infernal, que a liberdade

E a vida guarda em suas mãos de ferro,

Ousar tirar-vos ambas? Não me resta

Pai nem mãe; tive irmãos; soldados foram,

Morreram todos na holandesa guerra.

Todos acho eu em vós; vós, meu amparo

Té hoje heis sido. Oh! por quem sois, vos peço,

Não me deixeis, senhor, sozinha e triste

Semear de amargas lágrimas a terra,

A dura terra em que poisar meu corpo,

Deslembrada, talvez escarnecida.

É tempo ainda; arremessai ao longe

(continua...)

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