Por Eça de Queirós (1900)
Tirara do bolso um pesado envelope, com sinete de armas no lacre. Mas a prima Maria escrevia sempre depressa, numa letra atabalhoada, com as linhas cruzadas. Talvez o primo Antônio não compreendesse... - E com efeito, diante das quatro folhas de papel eriçadas de negras linhas, parecendo uma sebe espinhosa, o Titó recuou, aterrado. Mas o João Gouveia imediatamente se ofereceu, com a sua perícia em decifrar ofícios de Regedores... Não havendo segredos.
- Não, não há segredos - afiançou Gracinha, rindo. - É unicamente sobre o Gonçalo, como num jornal.
O Administrador folheou a imensa carta, passou os dedos sobre o bigode, com certa solenidade:
'Minha querida Graça... A costureira do Silva diz que o vestido..."
- Não! - acudiu Gracinha. - É na outra página, no alto. Volte a página.
Mas o Administrador gracejou, ruidosamente. Oh! está claro, carta de senhora, logo os trapos... E a Sra. D. Graça a assegurar que era toda sobre Gonçalo. Pois já veriam se pelo meio se não falava ainda em vestidos... Ah! estas senhoras, com os trapos!... - Depois recomeçou, na outra página, com lentidão e gravidade:
"... Deves agora estar ansiosa por saber da grande chegada do primo Gonçalo. Foi realmente brilhante, e parecia uma recepção de pessoa real. Éramos mais de trinta amigos. Está claro, apareceu toda a roda da nossa parentela; e se rebentasse de repente nessa manhã uma revolução, os Republicanos apanhavam ali junta, na estação do Rossio, toda a flor da nobreza de Portugal, da velha, da boa. De senhoras, era a prima Chelas, a tia Louredo, as duas Esposendes (com o tio Esposende, que, apesar do reumatismo e da vindima, veio expressamente da quinta de Torres), e eu. Homens, todos. E como estava o Conde de Arega, que é secretário de El-Rei, e o primo Olhalvo, que é o seu Mordomo-Mor, e o Ministro da Marinha e o Ministro das Obras Públicas, ambos condiscípulos e íntimos de Gonçalo, as pessoas na estação deviam imaginar que chegava El-Rei. O Sud-Express trouxe quarenta minutos de demora. De modo que parecia um salão, com toda aquela gente de sociedade, muito alegre, e o primo Arega, sempre tão amável e engraçado, e fazendo já convites para um jantar (que depois deu) ao primo Gonçalo. Lá fui a esse jantar com o meu vestido verde, novo, que ficou bem...
Gouveia gritou triunfando:
- Hem? Que disse eu?! cá está vestido. Vestido verde!
- Lê para diante, homem! - bramou o Titó.
E o Administrador, realmente interessado, recomeçou, com entono:
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.