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#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

Os trabalhadores começaram por esvaziar o Mirante da velha mobília que o guarnecia desde o tempo do tio Melchior; o imenso divan jazeu dois dias no jardim, encalhado contra uma sebe de buxo, e o Barrolo, impaciente, com aquele desusado traste, de molas quebradas, nem o consentiu nas arrecadações do sótão, mandou que o queimassem com outras cadeiras, partidas, numa fogueira de festa, na noite dos anos de Gracinha. E ela andou em torno da fogueira. O estofo puído flamejou, depois o mogno pesado mais lentamente, com um leve fumo, até que uma brasa ficou latejando, e a brasa escureceu em cinza.

Logo nessa semana as Lousadas, mais agudas, mais escuras, invadiram uma tarde os Cunhais - e apenas espetadas no sofá, logo lhe contaram, com um riso feroz nos olhinhos furantes, do grande escândalo, o Cavaleiro! em Lisboa! sem rebuço! com a mulher do Conde de S. Romão! um fazendeiro de Cabo Verde!

Nessa noite, ela escreveu a Gonçalo uma carta muito longa que começava: - "Por cá estamos todos bem, e neste ramerrame costumado..." E com efeito a vida recomeçara, no seu ramerrame, simples, contínua, e sem história, como corre um rio claro numa solidão.

À porta envidraçada da varanda o filho da Críspola espreitou - o filho da Críspola, que ficara sempre na Torre, como "andarilho", mas crescera muito para fora da sua antiga jaqueta de botões amarelos, usava agora jaquetões velhos do Sr. Doutor, e já repuxava o buço:

- E que está lá embaixo o Sr. Antônio Vilalobos, com o Sr. Gouveia e outro senhor, o Videirinha,e perguntam se podem falar à senhora...

- O Sr. Vilalobos! Sim! que subam, que entrem para aqui, para a varanda!

Ao atravessar a sala, onde dois esteireiros de Oliveira pregavam uma esteira nova, o vozeirão do Titó já ribombava, notando os "preparativos da festa..." E quando entrou na varanda a sua face mais barbuda, mais requeimada, rebrilhava com a alegria de encontrar enfim a Torre despertando daquela modorra, em que tudo dentro parecia tristemente apagado, até o lume das caçarolas:

- Peço desculpa da invasão, prima Graça. Mas passamos, de volta dum passeio dos Bravais,soubemos que a prima viera com o Barrolo...

- Oh! gosto imenso, primo Antônio. Eu é que peço desculpa desta figura, assim despenteada, degrande avental... Mas todo o dia em arranjos, a preparar a casa... E o Sr. Gouveia, como tem passado? Não o vejo desde a Páscoa.

O Administrador, que não mudara nesses quatro anos, escuro, seco, como feito de madeira, sempre esticado na sobrecasaca preta, apenas com o bigode mais amarelado do cigarro, agradeceu à Sra. D. Graça... E passara menos mal, desde a Páscoa. A não ser a desavergonhada da garganta...

- E então o nosso grande homem? quando chega? quando chega?

- No domingo. Estamos todos em alvoroço... Então não se senta, Sr. Videira? Olhe, puxe aquelacadeira de vime. A varanda por ora não está arranjada.

Videirinha, logo depois da Eleição, recebera de Gonçalo o lugar prometido, fácil e com vagares. para não esquecer o violão. Era amanuense na Administração do Concelho de Vila-Clara. Mas convivia ainda na intimidade do seu chefe, que o utilizava para todos os serviços, mesmo de enfermeiro, e o mandava sempre com uma autoridade seca, mesmo ceando ambos no Gago.

Timidamente arrastou a cadeira de vime, que colocou, com respeito, atrás da cadeira do seu chefe. E depois de tirar as luvas pretas, que agora sempre trazia para realçar a sua posição, lembrou que o comboio chegava ao apeadeiro de Craquede às dez e quarenta, não trazendo atraso. Mas talvez o Sr. Doutor apeasse em Corinde, por causa das bagagens...

- Duvido - murmurou Gracinha. - Em todo ocaso o José está com tenção de partir demadrugada, para o encontrar na bifurcação, em Lamelo.

- Nós, não! - acudiu o Titó, que se sentara familiarmente no rebordo da varanda. - Cá o nossorancho vai simplesmente a Craquede. Já é terra da família, e sítio mais sossegado para o vivório... Mas então esse homem não se demorou em Lisboa, prima Graça?

- Desde domingo, primo Antônio. Checou no domingo, de Paris, pelo Sud-Express. E teve umachegada brilhante... Oh! muito brilhante! Ontem recebi eu uma carta da Maria Mendonça, uma grande carta em que conta...

- O quê? A prima Maria Mendonça está em Lisboa?

- Sim, desde os fins de agosto, numa visita a D. Ana Lucena...

Vivamente, João Gouveia puxou a cadeira, numa curiosidade que decerto o remoera:

- É verdade, Sra. D. Graça! Então parece que a D. Ana Lucena comprou uma casa em Lisboa,anda em arranjos de mobília?... V Exa. ouviu, Sra. D. Graça?

Não, Gracinha não sabia. Mas era natural, agora que tanto se demorava em Lisboa, pouco se aproveitava da Feitosa, tão linda quinta...

- Então casa! - exclamou o Gouveia, com imensa convicção. - Se anda em arranjos de mobília,então casa. É natural, quer posição. Depois, já lá vão quatro anos de viuvez, e...

Gracinha sorriu. Mas o Titó, que coçava lentamente a barba, voltou à carta da prima Maria Mendonça, contando a chegada.

- Sim! - acudiu Gracinha - conta, esteve na Estação, no Rossio. Parece que o Gonçalo ótimo,mais forte... Olhe, primo Antônio, leia a carta. Leia alto! Não tem segredos. É toda sobre o Gonçalo...

(continua...)

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