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#Ensaios#Literatura Brasileira

Os Sertões

Por Euclides da Cunha (1902)

Revela-o o roteiro pormenorizado da marcha. Enquanto o grosso da coluna decampava, no alvorecer de 21, do Rio Pequeno, pouco mais de uma légua de Monte Santo, e chegava, seriam nove horas da manhã, ao Caldeirão Grande, depois de caminhar duas léguas, já desta escala largara à retaguarda da artilharia o canhão 32, protegido pela Brigada Medeiros. Na mesma ocasião, mais avantajada, a Brigada Gouveia atingia a Gitirana, à noite, onde já se achavam a comissão de engenheiros e o general Artur Oscar, que até lá fora, escoteiro, seguido de um piquete de vinte praças de cavalaria e do 9.° de Infantaria. Considerando-se que o comboio dirigido pelo coronel Campelo França e protegido pelo 5.º de Polícia ficara à retaguarda , vê-se que a tropa se espalhara em longura de quase quatro léguas, violando-se inteiramente as instruções preestabelecidas.

No amanhecer do dia 22, enquanto o general Barbosa, que permanecera o resto do dia anterior em Caldeirão, levantava acampamento seguindo para Gitirana, daí partia o comandante geral com a Primeira Brigada, o 9.º Batalhão da 3.ª e 25.° da 2.ª, a ala de cavalaria do major Carlos de Alencar e a artilharia, levando o dispositivo prefixado: na frente o 14.° e 30.° Batalhões, no centro a cavalaria e a artilharia; depois dois outros corpos, o 9.° e o 25.°. Ora, enquanto o comandante geral seguia rapidamente naquele dia, chegando em pouco tempo com a vanguarda a Juá, 7.600 metros além de Gitirana, imobilizava-se a artilharia nesta última escala aguardando que a comissão de engenheiros ultimasse a abertura de picadas e trabalhos de sapa; e, como o grosso das forças vinha ainda pela estrada do Caldeirão, estas mais uma vez se subdividiam forçadamente, ficando em condições desvantajosas na emergência de um assalto, porque não vinham adrede dispostas a afastamentos tão largos, que deviam ter sido de antemão estabelecidos, realizando-se não como um vício de mobilidade mas como requisito tático indispensável.

As brigadas reuniram-se, por fim, na noite daquele dia, em Juá. Ali chegou, às

6 horas, logo após a artilharia, o resto da coluna composta dos 5.°, 7.°, 15.°, 16.° e 27.° corpos de infantaria. Executava-se o comboio, retardado num trecho qualquer dos caminhos.

Daquele ponto seguiram os dois generais, na manhã de 23, para Aracati, 12.800 metros na frente, fazendo a vanguarda os batalhões do coronel Gouveia. Mas a artilharia, protegida pelos do coronel Medeiros, só se moveu ao meio-dia, depois que os engenheiros, apoiados pela Brigada Flores, executaram penosíssimos trabalhos de reparos.

Pormenorizamos, miudeando-a aos menores incidentes, esta marcha, para que se revelem as condições excepcionais que a rodearam.

Depois da partida de Juá e atingida a velha fazenda do Poço, totalmente em ruínas, sobreveio incidente indicador do quanto era conhecido o terreno em que se avançava.

INCIDENTES

Ao invés de prosseguirem em rumo para a direita — buscando a fazenda do

Sítio, de um sertanejo aliado, Tomás Vila-Nova inteiramente dedicado à nossa gente — entraram os sapadores por um desvio, a esquerda. Quando já iam longe, depois de algumas horas de trabalho, reconheceu o tenente-coronel Siqueira de Meneses a impossibilidade de afeiçoar os caminhos com a presteza necessária. "Tais eram o grande movimento de terras a fazer-se, o cerrado da caatinga, os pesados lajedos a remover-se, além dos acidentes do terreno para a descida e subida dos veículos". Abandonando então todo o trabalho feito, procurou o sítio de Vila-Nova. Esclarecido por este, atacou à tarde a nova vereda que, embora alongando a distância, tinha melhores condições de viabilidade. A artilharia por ali só avançou ao cair da tarde, passando pelo sítio dos Pereiras. Foi acampar a meia-noite na lagoa da Laje, dois quilômetros aquém de Aracati, onde já estava havia muito toda a coluna. Ficara ainda mais à retaguarda, com a 3.ª Brigada, o moroso 32, à borda a pique de um ribeirão, o dos Pereiras, que o adiantado da noite obstara se pudesse atravessar.

Entrava-se, no entanto, na zona perigosa. Nesse dia, na lagoa da Laje, o piquete do comando geral, guiado por um alferes, surpresara alguns rebeldes que destelhavam a casa ali existente. O recontro foi rápido. Os sertanejos, de surpresa acometidos por uma carga, fugiram sem replicar. Um único ficou. Estava sobre o telhado levadio e ao descer viu-se circulado. Reagiu apesar de ferido. Afrontou-se com o adversário mais próximo, um anspeçada; desmontou-o; e arrancou-lhe das mãos a clavina, derreando-o com ela a coronhadas. Encostou-se depois à parede do casebre e fez frente aos soldados, girando-lhes à cabeça a arma, em molinete. Batido, porém, de toda a banda, baqueou, exausto e retalhado. Mataram-no. Era a primeira façanha, exígua demais para tanta gente.

Suceder-se-lhe-iam outras.

No dia 24 agravou-se a marcha. A coluna, que decapara de Aracati ao meio-dia, porque teve de aguardar a vinda dos retardatários da véspera, endireitou, unida, para Juetê, distante 13.200 metros — para mais uma vez se subdividir.

Os caminhos pioravam.

Tornou-se necessário, além dos trabalhos de sapa, abrir mais de uma légua de picada contínua através de uma caatinga feroz que naquele trecho justifica bem o significado da denominação indígena do lugar .

Relata o chefe desse trabalho memorável:

(continua...)

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