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#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

PA.lpitações anciosas — e como não vinha carta, mal podia almoçar, com a garganta contrahida, o olhar vago, pensando que talvez fosse o seu ultü mo almoço com a Concha. Mandara mesmo um telegramma ao Carneiro—e uma manhã, mais inquieto, como um homem que prepara de ante mão a explicação d'uma desgraça provavel, confessou á Con.eha que estava á espera d'uns dinheiros que Ilão vinham ! Era o diabo ! Receava até que houvesse difficuldades com o correspon-

dente . . .

Ella acolheu a noticia com absoluta indifferenca. As suas maneiras tornavam-se singulares : andava muito nervosa : a janella parecia ser o centro da sua existencia s, chegava-se um momento á vau randa, voltava, esfregando as mãos, com a cabeça baixa, contrariada ; outras vezes, parecia debruçarse, tão radiosa, tão interessada, que Arthur, ao vêl-a, chegava-se com curiosidade ; mas não descobria nada : apenas, na varanda do quarto do hespanhol, uma cadeira vazia com um jornal dobrado em cima. Os segredinhos com a creada redobravam ; a Concha parecia adoral-a, não a podia dispensar, reclamando-a constantemente, enchendo-a de presentes, de fitas velhas, de botinas, de camisa,s já muito usadas ; e quando Arthur estranhava esta intimidade, ella respondia que uma mulher precisava de ter uma axniga para desabafar : não tinha outra á mão ; queria por ventura que uma senhora,

fizesse amizade com a meretriz do primeiro andar Não — então caluda ! — E de que faliam vocês — De ti !

Mas apesar d'aquelle amor que Arthur julgava cada üa mais forte — era por vezes brusca com elle ; repellia-lhe enfastiada os abraços : uma mu lher, Dios miv, não podia estar sempre lambuzada pelas beijocas d'um marmanjo !

Ás vezes, á noite, ao deitarem-se, sob o pre texto d'algama enxaqueca, não consentia que Ar thtu; lhe tocasse, nem com a ponta da unha — deixando a paixão do auctor dos Esmaltes e Joias desapontada, como um cão a quem se retira uma febra. Outras vezes, vinham-lhe ardores subitos, a horas singulares, sem razão, Arthur explicava estas! mudanças ethnographicamente, pela sensibilidade muito refinada das raças andaluzas—- e cada dia a achava mais adoravel. Seria completamente feliz, se o Carneiro respondesse !

Por fim, o respeitavel Carneiro respondeu, n'uma larga folha de papel pautado, em que explicava a demora da remessa por uma jornada que fizera « á Invicta Cidade, onde o tinham chamado exigen« cias dos seus negocios, bem como levar ao Theatro de São João, a vêr uma peça lyrica, sua joven « Adelaide, que »

Arthur, enfastiado, atirou a carta para o lado e releu com satisfação a letra de cambio sobre um negociante da Baixa. Não resistiu mesmo a communicar a sua alegria á Concha, e agitando a letra disse com um ar negligente, ricaço :

— Dinheirinho fresco.

Ah ! — fez ella seccamente.

Aquellas indifferenças escadalisavam Arthur.n Não as comprehendia : quando elle, por ternura, para lhe dar todos os privilegios d'uma esposa, a queria fazer partilhar intimamente dos seus interesses, dos seus sentimentos, ennobrecendo assim aquella ligação, — ella retra,hia-se, repellia toda a communhão muito intima, evitando entrar nos seus planos e nos seus segredos, dando-lhe o seu corpo, mas reservando-se a alma e a vontade. Parecia querer conservar-se unicamente concubina. Arthur sentia alguma cousa de subtil errar entre elles, se paral-os ; as suas naturezas, como as suas epidermes, tocavam-se sem se penetrarem e Arthur, tendo uma mulher com quem comia, dormia e cohabitava, sentia comtudo, por vezes, uma dolorosa falta de sympathia, uma inactividade triste das suas faculdades affectivas. E para não se parecer a si mesmo inteiramente destituido de affeigões alheias, a sua alma refugiava-se na lembrança da tia Sabina, como um ser que procura um elemento proprio.

Pensava mesmo em lhe escrever, quando, um

dia, recebeu d'ella uma longa carta. Que boa gurpreza ! A letra era qüasi inintelligivel, mas por todas as folhas do papel errava um bom calor de amizade e os ganchos dos seus F F e dos seus T T eram como curvas d'abraços. Dizia :

«Meu querido menino.

Espero que esta te encontre bom, o que todos os dias peço a Nossa Senhora de toda a alma e acabo de saber pelo Vasco que mandaste ir um «ror de moedas, que até me parece peccado. Ora pois se tu soubesses o que nós aqui nos assusta mos, por te saber tão longe e talvez doente n'essa terra tão grande e sem os teus jantarinhos a horas,

«e afflige-nos vêr que gastas tanto, o que custou a ganhar a teu padrinho, n'essa Babylonia sem reli gião. Eu não tenho passado bem, o que é a velhi ce ; é esta vida que não quer ir mais para deante « e assim quem sabe se te tornarei a vêr, e todos os

« dias peço a Nossa Senhora que te guarde porque « o mereces. Dizem-me que até os papeis fallam em ti, o que me tem assustado, ainda que o Vasco « diz que os papeis fallam só de gente que é im-

« portante e do Estado, O Albuquerquezinho vai



(continua...)

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