Por Eça de Queirós (1875)
O cônego, que estava escrevendo, caiu como uma massa fulminada para as costas da cadeira: - Que me diz você?
- Grávida!
E no silêncio que se fez o soalho gemia sob os passeios furiosos do pároco da janela para a estante.
- Está você certo disso? perguntou enfim o cônego com pavor.
- Certíssimo! A mulher já há dias andava desconfiada. Já não fazia senão chorar... Mas agora é certo... As mulheres conhecem, não se enganam. Há todas as provas... Que hei-de eu fazer, padre-mestre?
- Olha que espiga! ponderou o cônego atordoado.
- Imagine você o escândalo! A mãe, a vizinhança... E se suspeitam de mim?... Estou perdido... Eu não quero saber, eu fujo!
O cônego coçava estupidamente o cachaço, com o beiço caído como uma tromba. Representavam-se-lhe já os gritos em casa, a noite do parto, a S. Joaneira eternamente em lágrimas, toda a sua tranqüilidade extinta para sempre...
- Mas diga alguma coisa! gritou-lhe Amaro desesperado. Que pensa você? Veja se tem alguma idéia... Eu não sei, eu estou idiota, estou de todo!
- Aí estão as conseqüências, meu caro colega.
- Vá para o inferno, homem! Não se trata de moral... Está claro que foi uma asneira... Adeus, está
feita!
- Mas então que quer você? disse o cônego. Não quer decerto que se dê uma droga à rapariga, que a arrase...
Amaro encolheu os ombros, impaciente com aquela idéia insensata. O padre-mestre, positivamente, estava divagando...
- Mas então que quer você? repetia o cônego num tom cavo, arrancando as palavras ao abismo do tórax.
- Que quero! Quero que não haja escândalo! Que hei-de eu querer?
- De quantos meses está ela?
- De quantos meses? Está de agora, está dum mês...
- Então é casá-la! exclamou o cônego com explosão. Então é casá-la com o escrevente!
O padre Amaro deu um pulo:
- Com os diabos, tem você razão! É de mestre!
O cônego afirmou gravemente com a cabeça que era "de mestre".
- Casá-la já! Enquanto é tempo! Pater est quem nuptiae demonstrant... Quem é marido é que é pai.
Mas a porta abriu-se, e apareceram os óculos azuis, a touca negra de D. Josefa. Não se pudera conter em cima, na cozinha, tomada dum frenesi agudo de curiosidade; descera na ponta das chinelas e colara o ouvido à fechadura do escritório; mas o grosso reposteiro de baetão estava cerrado por dentro, um ruído de lenha que se descarregava na rua abafava as vozes. A boa senhora então decidiu-se a entrar, "a dar os bons-dias ao senhor pároco".
Mas debalde, por detrás dos vidros defumados, os seus olhinhos agudos esquadrinharam ansiosamente o carão espesso do mano e a face pálida de Amaro. Os dois sacerdotes estavam impenetráveis como duas janelas fechadas. O pároco mesmo falou ligeiramente do reumático do senhor chantre, da notícia que corria sobre o casamento do senhor secretário-geral... Ao fim duma pausa ergueuse, contou que tinha nesse dia uma famosa orelheira para o jantar - e a Sra. D. Josefa, roendo-se, viu-o abalar depois de ter dito já por detrás do reposteiro ao cônego:
- Então até à noite em casa da S. Joaneira, padre-mestre, hem?
- Até à noite.
E o cônego, muito grave, continuou a escrever. D. Josefa então não se conteve; e depois de arrastar um momento as chinelas em tomo do banco do mano:
- Há novidade?
- Grande novidade, mana! disse-lhe o cônego, sacudindo os bicos da pena. Morreu o senhor D. João VI !
- Malcriado! rugiu ela rodando sobre os sapatões, cruelmente perseguida por uma risadinha do mano.
Foi à noite, embaixo, na saleta da S. Joaneira, enquanto Amélia em cima, com a morte na alma, martelava a Valsa dos Dois Mundos, que os dois padres, muito chegados no canapé, de cigarro nos dentes, por debaixo do tenebroso painel onde a vaga mão do cenobita se estendia em garra sobre a caveira, cochicharam o seu plano: - antes de tudo era necessário achar João Eduardo, que desaparecera de Leiria; a Dionísia, mulher de faro, ia bater todos os recantos da cidade para descobrir a toca em que a fera se acoutava; depois, imediatamente, porque o tempo urgia, Amélia escrever-lhe-ia... Só quatro palavras simples: que soubera que ele fora vítima duma intriga; que nunca perdera nada da amizade que lhe tinha; que lhe devia uma reparação; e que viesse vê-la... Se o rapaz hesitasse agora, o que não era provável (o cônego afirmava-o), fazia-se-lhe reluzir a esperança do emprego no governo civil, fácil de obter pelo Godinho, inteiramente governado pela mulher, que era uma escravazinha do pobre Natário?...
- Mas o Natário, disse Amaro, o Natário que detesta o escrevente, que dirá ele a esta revolução?
- Homem, exclamou o cônego com uma grande palmada na coxa, que me tinha esquecido! Pois você não sabe o que aconteceu ao pobre Natário?...
Amaro não sabia.
- Quebrou uma perna! Caiu da égua!
- Quando?
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Crime do Padre Amaro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1791 . Acesso em: 29 jun. 2026.