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#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

Gonçalo atirou a ponta do charuto, e com as mãos nas algibeiras do paletot, parou junto do miradouro, olhou vagamente para as estrelas. A névoa adelgaçara quase sumida - lumes mais vivos palpitavam no céu mais profundo. De lumes e céus descia essa sensação de infinidade, de eternidade, que penetra, como uma surpresa, nas almas desacostumadas da sua contemplação. Na alma de Gonçalo passou, muito fugidiamente, o espanto dessas eternas imensidades sob que se agita, tão vaidosa da sua agitação, a rasteira, a sombria poeira humana. Longe, algum derradeiro foguete ainda lampejava, logo apagado na escuridão serena. As luzinhas sobre a capela de Veleda, sobre o arco de Santa Maria de Craquede, esmoreciam, já ralas. Todo o remoto rumor de musicatas se perdera, na mudez mais funda dos campos adormecidos. O dia de triunfo findava, breve como os luminares e os foguetes. - E Gonçalo, parado, rente do miradouro, considerava agora o valor desse triunfo por que tanto almejara, por que tanto sabujara. Deputado! Deputado por Vila-Clara, como o Sanches Lucena. E ante esse resultado, tão miúdo, tão trivial - todo o seu esforço tão desesperado, tão sem escrúpulos, lhe parecia ainda menos imoral que risível. Deputado! Para quê? Para almoçar no Bragança, galgar de tipóia a ladeira de S. .Bento, e dentro do sujo convento escrevinhar na carteira do Estado alguma carta ao seu alfaiate, bocejar com a inanidade ambiente dos homens e das idéias, e distraidamente acompanhar, em silêncio ou balando, o rebanho do S. Fulgêncio, por ter desertado o rebanho idêntico do Braz Victorino. Sim, talvez um dia, com rasteiras intrigas e sabujices a um chefe e à senhora do chefe, e promessas e risos através de Redações, e algum Discurso esbraseadamente berrado - lograsse ser Ministro. E então? Seria ainda a tipóia pela calçada de S. Bento, com o correio atrás na pileca branca, e a farda malfeita, nas tardes de assinatura, e os recurvados sorrisos de amanuenses pelos escuros corredores da Secretaria, e a lama escorrendo sobre ele de cada gazeta de oposição... Ah! que peca, desinteressante vida, em comparação de outras cheias e soberbas vidas, que tão magnificamente palpitavam sob o tremeluzir dessas mesmas estrelas! Enquanto ele se encolhia no seu paletot, Deputado por VilaClara, e no triunfo dessa miséria - Pensadores completavam a explicação do Universo; Artistas realizavam obras de beleza eterna; Reformadores aperfeiçoavam a harmonia social; Santos melhoravam santamente as almas; Fisiologistas diminuíam o velho sofrer humano; Inventores alargavam a riqueza das raças; Aventureiros magníficos arrancavam mundos de sua esterilidade e mudez... Ah! esses eram os verdadeiramente homens, os que viviam deliciosas plenitudes de vida, modelando com as suas mãos incansadas formas sempre mais belas ou mais justas da humanidade. Quem fora como eles, que são os sobre-humanos! E tal ação tão suprema requeria o Gênio, o dom que, como a antiga chama, desce de Deus sobre um eleito? Não! Apenas o claro entendimento das realidades humanas - e depois o forte querer.

E o Fidalgo da Torre, imóvel no eirado da Torre, entre o céu todo estrelado, e a terra toda escura, longamente revolveu pensamentos de Vida superior - até que enlevado, e como se a energia da longa raça, que pela Torre passara, refluísse ao seu coração, imaginou a sua própria encaminhada enfim para uma ação vasta e fecunda, em que soberbamente gozasse o gozo de verdadeiro viver, e em torno de si criasse vida, e acrescentasse um lustre novo ao velho lustre de seu nome, e riquezas puras o dourassem, e a sua terra inteira o bem-louvasse porque ele inteiro e num esforço pleno bem servira a sua terra...

O Bento surdiu da portinha baixa do eirado, com a lanterna:

- O Sr. Doutor ainda se demora?

- Não. A festa acabou, Bento.

Nos começos de dezembro, com o primeiro número dos Anais, apareceu a Torre de D. Ramires.

E todos os jornais, mesmo os da oposição, louvaram "esse estudo magistral (como afirmou a Tarde) que, revelando um erudito e um artista, continuava, com uma arte mais moderna e colorida, a obra de Herculano e de Rebelo, a reconstituição moral e social do velho Portugal heróico". Depois das festas de Natal, que ele passou alegremente nos Cunhais, ajudando Gracinha a cozinhar bolos de bacalhau por uma receita sublime do Padre José Vicente, da Finta, os amigos de Oliveira, os rapazes do Club da Arcada ofereceram ao Deputado por VilaClara, na sala da Câmara, adornada de buxos e bandeiras, um banquete, a que assistia o Cavaleiro, de grã-cruz, e em que o Barão das Marges (que presidia) saudou "o prestigioso moço que, talvez em breve, nas cadeiras do Poder, levantasse do marasmo este brioso país, com a pujança, a valentia, que são próprias da sua raça nobilíssima!"

No meado de janeiro, por uma agreste noite de chuva, Gonçalo partiu para Lisboa; e através do inverno, em Lisboa, andou sempre nos Carnet-Mondain e High-Life dos jornais, nas noticias de jantares, do raouts, de tiros aos pombos, de Caçadas de El-Rei, tão notado nos movimentos mais simples da sua elegância, que os Barrolos assinaram o Diário Ilustrado para saber quando ele passeava na avenida. Em Vila-Clara, na Assembléia, o João Gouveia já encolhia os ombros, rosnando: - "Desandou em janota!" - Mas nos fins de abril uma notícia de repente alvoroçou Vila-Clara, espantou na quieta Oliveira os rapazes do Club e da Arcada, perturbou tão inesperadamente Gracinha, então em Amarante com o Barrolo, que nessa noite ambos abalaram para Lisboa - e na Torre atirou a Rosa para um banco de pedra da cozinha, lavada em lágrimas, sem compreender, gemendo:

- Ai o meu rico menino, o meu rico menino, que o não torno mais a ver!

Gonçalo Mendes Ramires, silenciosamente, quase misteriosamente, arranjara a concessão dum vasto prazo de Macheque, na Zambézia, hipotecara a sua quinta histórica de Treixedo, e embarcava em começos de junho no paquete Portugal, com o Bento, para a África.

XII

Quatro anos passaram ligeiros e leves sobre a velha Torre, como vôos de ave.

(continua...)

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