Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

N 'essa tarde, pela primeira vez, sentou-se á mesa um rapaz hespanhol, muito bonito, d'uma pallidez deliciosa, olhares afogados n'uma langui-

dez fluida, um buçozinho que parecia desenhado a tinta da Chi na, janota, com o cabello muito frizado e dous car: á Capoul sob.re a testa. Parecia conhecido da. Mercedes e do calvo: trocavam atravez da mesa alg.trnas palavras. Mercedes olhava-o muito, e a Concha, ao fim do jantar, vendo o rapaz, muito Io, partir avellãs para ella, mordeu os beiços furiosi b.

O seu des ejo de a humilhar tornou-se então uma preoccupação ardente; exigiu a Arthur outro vestido; queria ir todas as noites ao theatro, para que a outra soubesse, se ralasse ». Ás horas em que a via á janella do primeiro andar, mandava buscar uma tipoia descob rta, descia as escadas com grande espalhafato, ia. se recostar na caleche, rindo alto, fingindo-se anin lada, gritando pelo Melchior, pelo Arthur, c. que lhe esquecera a sombrinha, e que lhe fossem buscar o lenço de renda . . . Pessoas na rua paravam, pasmac Ias d'aquella vivacidade, admirando-a. A M em cima, se não tinha tempo de se retirar 11a varanda, affectava olhar o céu ou o predio fronteiro, (;u, de costas voltadas para a rua, fallava, Tia para dentro do quarto. A Concha desesperava-se d'aquella indifferença, chamava-lhe os nomes ma is hedi ondos, e apenas chegava ao Aterro, mandava voltar para traz, para o Hotel, para a « apanhar ainda á janella dar-lhe o espectaculo do seu chic, da sua grande cauda, das suas meias dc sêda côr de rosa, ao saltar do estribo da tipoia. — F, no emtanto, Arthur pagava ao cocheiro, pensando :

— Mais dez tostões deitados á rua !

Porque recomeçava a prcoccupar-se com o dinheiro. Desejava escrever ao Carneiro, pedindo-lho o outro conto de réis que lá tinha em deposito, mas hesitava ; sentia que o gastaria depressa, n'aquella vida prodiga. E depois Deixar a Concha Era matar a pobre creatura que o amava, que por um sentimento de regeneração, para se tornar digna d'elle, ia-se cada dia fazendo mais senhora D, a ponto d'ir ouvir missa todos os domingos, querer aprender piano e soletrar depois do almoço, labo riosamente, o Diario de Noticias. Podia lá deixal-a ! Seria vil ! era possivel tambem voltar a Oliveira d'Azemeis, recahir n'aquelle embrutecimento mor no, com partidas do bilhar na Corcovada e passeios por entro os pinheiraes da estrada, aos domingos de tardo, no pó do macadam

Uma d'essas manhãs, quando estavam na saleta o Pancho penteava a Concha Melchior appareceu o atirou-se para uma cadeira com um ar tão abatido, que Arthur, sempre bondoso, lhe perguntou com muito interesse :

— Que aconteceu

O outro fitou-o com anciedade e apertando as mãos dramaticamente :

— Oh, Arthur, você é que me pode salvar ! Preciso sem falta, ámanhã, de dez libras. Senão, estou perdido. Oh ! Arthur . .

Arthur interrompeu-o, desolado. Tinha de seu quatorze libras — era tudo o que restava de um conto de réis — devia a conta do Hotel, não podia

O outro deu uma punhada furiosa no ar :

—É a minha sorte . — rosnou com rancor.

— Você comprehende, homem . . .

— Basta, homem ! Raio de vida !

E foi harpejar a guitarra com furor, vendo pen tear a Concha.

Arthur -— que devia ir buscar um camarote para o Price, porque a Concha queria lá ir, para enterrar» a Mercedes com um chapéu novo — sa,hiü, muito contrariado. Aquella precisão do Melchior collocava-lhp. a realidade deante dos olhos, brutal mente : estava a tinir ! D'ahi a dias, não teria sequer para uma tipoia ! FJ depois, custava-lhe negar dinheiro ao Melchior ; era o intimo, o confidente ; era tão bom para a Concha, tão serviçal, tão alegre

Quando entrou, estava resolvido a pedir quinhentos mil réis ao Carneiro ; em todo o caso, para economisa, que diabo!... não largaria as dez libras ao Melchior. Antes de tudo, elle !

Pousava o chapéu sobre uma cadeira, quando a Concha, direita, nobre, cruzando os braços, lhe per gutitou com severidade e que significava aquillo de não querer tirar o pobre Melchior d 'apuros ! Era neceRsario ser ingrato ! Que amizade ! Ah, bem via agora que os portuguezes eram uns para os outros como tigres ! Ah, se fosse o conde ou o marquez ! Outra gente !



(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...123124125126127...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →