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#Romances#Literatura Portuguesa

O crime do Padre Amaro

Por Eça de Queirós (1875)

Cessaria as suas relações com Amaro, se o ousasse: mas receava quase tanto a sua cólera como a de Deus. Que seria dela se tivesse contra si Nossa Senhora e o senhor pároco? Além disso, amava-o. Nos seus braços, todo o terror do Céu, a mesma idéia do Céu desaparecia; refugiada ali, contra o seu peito, não tinha medo das iras divinas; o desejo, o furor da carne, como um vinho muito alcoólico, davam-lhe uma coragem colérica; era com um brutal desafio ao Céu que se enroscava furiosamente ao seu corpo. - Os terrores vinham depois, só no seu quarto. Era esta luta que a empalidecia, lhe punha pregas de envelhecimento ao canto dos lábios secos e ardidos, lhe dava aquele ar murcho de fadiga que irritava o padre Amaro.

- Mas que tens, tu, que parece te espremeram o suco? perguntava- lhe ele quando aos primeiros beijos a sentia toda fria, toda inerte.

- Passei mal a noite... Nervoso.

- Maldito nervoso! rosnava o padre Amaro impaciente.

Depois vinham perguntas singulares que o desesperavam, repetidas agora todos os dias. Se tinha dito a missa com fervor? Se tinha lido o Breviário? Se tinha feito a oração mental?...

- Sabes tu que mais? disse ele furioso. Sebo! E esta! Tu pensas que eu sou ainda seminarista, e que tu és o padre examinador, que verifica se cumpri a Regra? Ora a tolice!

- É que é necessário estar bem com Deus - murmurava ela.

Era com efeito a sua preocupação, agora, que Amaro fosse um bom padre. Contava, para se salvar e para se livrar da cólera de Nossa Senhora, com a influência do pároco na corte de Deus: e temia que ele por negligência de devoção a perdesse, e que, diminuindo o seu fervor, diminuíssem os seus méritos aos olhos do Senhor. Queria-o conservar santo e favorito do Céu para colher os proveitos da sua proteção mística.

Amaro chamava a isto "caturrices de freira velha". Detestava-as, por as achar frívolas - e porque tomavam um tempo precioso, naquelas manhãs da casa do sineiro...

- Nós não viemos aqui para lamúrias, dizia ele, muito secamente. Fecha a porta, se queres.

Ela obedecia, - e então aos primeiros beijos na penumbra da janela cerrada, ele reconhecia enfim a sua Amélia, a Amélia dos primeiros dias, o delicioso corpo que lhe tremia todo nos braços, em espasmos de paixão.

E cada dia a desejava mais, dum desejo contínuo e tirânico, que aquelas horas escassas não satisfaziam. Ah! positivamente, como mulher não havia outra!... Desafiava a que houvesse outra, mesmo em Lisboa, mesmo nas fidalgas!... Tinha pieguices, sim, mas era não as tomar a sério, e gozar enquanto era novo!

E gozava. A sua vida por todos os lados tinha confortos e doçuras - como uma destas salas onde tudo é acolchoado, não há móveis duros nem ângulos, e o corpo, onde quer que pouse, encontra a elasticidade mole duma almofada.

Decerto, o melhor era as suas manhãs em casa do tio Esguelhas. Mas tinha outros regalos. Comia bem: fumava caro numa boquilha de espuma: toda a sua roupa branca era nova e de linho: comprara alguma mobília: e não tinha, como outrora, embaraços de dinheiro porque a Sra. D. Maria da Assunção, a sua melhor confessada, lá estava com a bolsa pronta. Sobretudo, ultimamente, tivera uma pechincha: uma noite em casa da S. Joaneira, a excelente senhora, a propósito duma família de ingleses que vira passar num char-à-banc para ir visitar a Batalha, exprimira a opinião que os ingleses eram hereges.

- São batizados como nós, observara D. Joaquina Gansoso.

- Pois sim, filha, mas é um batismo para rir. Não é o nosso rico batismo, não lhes vale.

O cônego então, que gostava de a torturar, declarou pausadamente que a Sra. D. Maria dissera uma blasfêmia. O santo concílio de Trento, no seu cânone IV, sessão VII, lá determinara "que aquele que disser que o batismo dado aos hereges, em nome do Padre, do Filho e do Espírito, não é o verdadeiro batismo, seja excomungado!". E a D. Maria, segundo o santo concílio, estava desde esse momento excomungada!...

A excelente senhora teve um flato. Ao outro dia foi lançar-se aos pés de Amaro, que em penitência da sua injúria feita ao cânone IV, sessão VII do santo concilio de Trento, lhe ordenou trezentas missas de intenção pelas almas do purgatório - que D. Maria lhe estava pagando a cinco tostões cada uma.

Assim, ele podia às vezes entrar na casa do tio Esguelhas com um ar de satisfação misteriosa e um embrulhozinho na mão. Era algum presente para Amélia, um lenço de seda, uma gravatinha de cores, um par de luvas. Ela extasiava-se com aquelas provas da afeição do senhor pároco; e era então no quarto escuro um delírio de amor, enquanto embaixo a tísica, sobre a Totó, ia fazendo "trás... trás..."

XIX

- O senhor cônego? Quero-lhe falar. Depressa!

A criada dos Dias indicou ao padre Amaro o escritório, e correu a cima contar a D. Josefa que o senhor pároco viera procurar o senhor cônego, e com uma cara tão transtornada que decerto tinha sucedido alguma desgraça!

Amaro abrira abruptamente a porta do escritório, fechou-a de repelão, e sem mesmo dar os bonsdias ao colega, exclamou:

- A rapariga está grávida!

(continua...)

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