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#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

Bento as despertara. Em cada um dos três sobrados parou, penetrando curiosamente. quase com uma intimidade, nas salas nuas e sonoras, de vasto lajedo, de tenebrosa abóbada, com os assentos de pedra, estranho buraco ao meio, redondo como o dum poço e ainda pelas paredes riscadas de sulcos de fumos, os anéis dos tocheiros. Depois em cima, no imenso eirado que a fieira de lamparinas, cingindo as ameias, enchia de claridade, Gonçalo, erguendo a gola do paletot na aragem mais fina, teve a dilatada sensação de dominar toda a Província, e de possuir sobre ela uma supremacia paternal, só pela soberana altura e velhice da sua torre, mais que a Província e que o Reino. Lentamente caminhou em roda das ameias, até o miradouro. a que um candeeiro de petróleo, sobre uma cadeira de palhinha posta em frente à fresta, estragava o entono feudal. No céu macio, mas levemente enevoado, raras estrelas luziam, sem brilho. Por baixo a quinta, toda a largueza dos campos, a espessura dos arvoredos se fundiam em escuridão. Mas na sombra e silêncio, por vezes além, para o lado dos Bravais, lampejavam foguetes remotos. Um clarão amarelado e fumarento, caminhando mais longe, entestando para a Finta, era decerto um rancho com archotes festivos. Na alta Igreja da Veleda tremeluzia uma iluminação vaga, rala. Outras luzes, incertas através do arvoredo, riscavam o velho arco do Mosteiro, em Santa Maria de Craquede. Da terra escura subia, por vezes, um errante som de tambores. E lumes, fachos, abafados rufos, eram dez freguesias celebrando amoravelmente o Fidalgo da Torre, que lhes recebia o amor e o preito no eirado da sua torre, envolto em silêncio e sombra.

O Bento descera, com o Joaquim, para reforçar as lamparinas nas frestas dos muros, onde elas esmoreciam na espessura. E Gonçalo sozinho, acabando o charuto, recomeçou a rolda, lento, em torno às ameias, perdido num pensamento que já o agitara estranhamente, através daquele sobressaltado domingo... Era pois popular! Por todas essas aldeias, estendidas à sombra longa da Torre, o Fidalgo da Torre era pois popular! E esta certeza não o penetrava de alegria, nem de orgulho - antes o enchia agora, naquela serenidade da noite, de confusão, de arrependimento! Ah! se adivinhasse - se ele adivinhasse!... Como caminharia, com a cabeça bem levantada, com os braços bem estendidos, sozinho, em confiança risonha para todas essas simpatias que o esperavam, tão certas, tão dadas. Mas não! Sempre se julgara cercado da indiferença daquelas aldeias, onde ele, apesar do antiquíssimo nome, era o costumado moço, que volta de Coimbra e vive silenciosamente da sua renda, passeando na sua égua. A essas indiferenças tão naturais nunca ele imaginara arrancar o punhado de votos, o punhado de papelinhos que necessitava para entrar na Política, onde ele conquistaria pela destreza o que os velhos Ramires recebiam por herança - fortuna e poder. Por isso se agarrara tão avidamente à mão do Cavaleiro, à mão do Sr. Governador Civil - para que S. Exa., o bom amigo, o mostrasse, o impusesse como o homem necessário, o querido do Governo, o melhor entre os bons, a quem as freguesias deviam oferecer num domingo o punhado de votos.

E na impaciência desse favor abafara a memória de amargos agravos; diante de Oliveira pasmada abraçara o homem detestado desde anos, que andava chasqueando e demolindo, por praças e jornais facilitara a ressurreição de sentimentos que para sempre deviam jazer enterrados; e envolvera o ser que mais amava, a sua pobre e fraca irmãzinha, em confusão e miséria moral... Torpezas e danos - e para quê? Para surripiar um punhado de votos que dez freguesias lhe trariam correndo, gratuitamente, efusivamente, entre vivas e foguetes, se ele acenasse e lhos pedisse...

Ah! eis aí... Fora a desconfiança, essa encolhida desconfiança de si mesmo - que desde o colégio, através da vida, lhe estragara a vida. Era a mesma desgraçada desconfiança, que ainda semanas antes, diante de uma sombra, um pau erguido, uma risada numa taberna, o forçava a abalar, a fugir, arrepiado e praguejando contra a sua fraqueza. Por fim, um dia, numa volta de estrada, avança, ergue o chicote - e descobre a sua força! E agora, penetra por entre o povo, agarrado timidamente à mão poderosa, por se imaginar impopular - e descobre a sua popularidade imensa. Que vida enganada, e tanto a sujara - por não saber!

O Bento não aparecia, ainda azafamado em iluminar condignamente as reixas da Torre.

(continua...)

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