Por Eça de Queirós (1925)
Aquillo serenou-o como uma prova d'indifferença pelo marquez. De resto, se ás vezes, de dia, os modos d'ella, as suas distracções, os seus amuos, os seus suspiros sem razão lhe davam um vago ciume—o fogo com que ella á noite o apertava nos braços nús, era como a evidencia deliciosa do seu amor. E ia-se prendendo tanto a ella pela trama subtil do habito que já nem sahia á rua. Não tro caria aquelle quarto, com saias amarfanhadas por cima das cadeiras e trouxas de roupa enxovalhada debaixo da cama, pelas galerias do Vaticano ; as paisagens do Paraizo não lhe dariam mais satisfa ção e enternecimento do que a contemplação das fachadas sujas dos predios vizinhos. Havia alli, n'a quelle espaço abafado, um cheiro de mulher, de pó d'arroz, de dormido, que o deleitava, e, estirado na cama, com o cigarro na bocca, ouvindo o Melchior tocar o fado e vendo a sua andaluza arrastar a saia, tinha horas regaladas de madracice, de torpor lascivo ; o gemer da viola, o gingar da Concha, mergulhavarn-no n'um sentimentalismo baixo e pandilha; estendia então os braços para ella, reclamava-a e os olhos cerravam-se-lhe n'uma voluptuosidade morna, sentindo-lhe por baixo do roupão a flexibilidade calida da cinta sem espartilho.
Não lia um livro, nem um jornal. Todo o movimento d'espirito lhe era odioso, como se a alma fatigada, amodorrada na baixeza muito quente, no chôco d'aquella vida de gallo, se recusasse a toda a ascenção para alguma coisa de mais elevado. Quasi lhe custava lavar-se, arranjar-se : o corpo comprazia-se-lhe na porcaria. E levantava-se da cama em chinelas, com um derreamento canalha do corpo, para ir para a mesa de jantar, onde ficava até ás dez horas, bebendo com Melchior copinhos de genebra. Depois, vinham os fados, as malagueñae, e elle de novo estirado sobre a cama, de pernas abertas, n'um embrutecimento de bestialidade satisfeita, só erguia a voz para dizer n'um tom idiota, julgando-se catita vagas palavras hespanholas que aprendera : Vivan tas niñas ! Chiquita, no digas eso !
Aquelles diag de preguiça, porém, cessaram quando a Concha declarou que queria ir jantar á mesa redonda. Dizia que a aborrecia comerem a,lli, n'aquella saleta um pouco escura, sós ; que ficava um cheiro de comida desagradavel ; que a sala em baixo pelo menos era alegre ; que se via gente. Arthur, contrariado, vendo n'aquelle desejo um começo de saciedade, apoiado pelo Melchior — que achava que não havia nada como (f a pandegazinha alli á cachucha b,— resistiu. Mas a Concha, ao outro dia, a cada prato que lhe apresentava o crea-
do, tinha um gesto triste de recusa, com um suspiro. Arthur affligiu-se : que diabo, era uma creancice !
Ella declarou simplesmente que emquanto jantassem alli, n'aquelle cacifo, jurara a Nossa Senhora da Atocha não tocar com os seus ricos beiços nem urna bucha de pio.
Arthur, furioso, exclamou :
— Bem, Manuel ! Ámanhã jantamos em baixo ! Ella saltou-lhe ao pescoço, recompensando-o com um beijo chilreado.
O seu fim era humilhar a outra hespanhola, a Mercedes. Ha muito que se preoccupava com aquella collega segundo a expressão faceta de Melchior. Sabia pela creada o que vestia, que roupa branca tinha, que fórma de perna, o que lhe dava o amante, os namoros, tudo ! E quando se certificou que possuia mais vestidos, melhores anneis, outro chic, decidiu « enterral-a Não lhe queria mal desejava só fazel-a chorar de raiva !
No dia em que foram jantar á mesa redonda, levou horas a escarolar-se, a experimentar vestidos, a perfumar-se ; obrigou Arthur a pôr muita pomada no cabello, uma camelia no fraque, para parecer guapo, e tomando o seu grande ar de duqueza, desceu, com um ruge-ruge de sêdas, pelo braço de Melchior. A pobre Mercedes, desprevenida, tinha o seu roupão escarlate, o cabello mal penteado e, ao pé, o seu calvo, de conarinho enxovalhado, cocando-a com os olhinhos afogados de concupiscencia. As duas mn}heres atravessaram-se com dous olhares trespassantes como punhaladas ; toda a côr do roupão de Mercedes lhe subiu ás faces e a Concha sentando-se com modos de princeza que se vê obrigada a comer n'uma taberna, encostou o cotovello á mesa, a mão á face, com todas as pedras dos anneis dardejando sobre a outra. Durante todo o jantar fel-a desgraçada. Tinha maneiras enjoadas de tocar nos pratos, segredinhos para Arthur, com olhares de tedio para a fealdade do calvo ; fallava a Melchior com imperio, como uma rainha a um cortezão, e a cada momento dava pancadinhas na manga do vestido, para fazer sentir a riqueza da sêda. A outra não comia, petrificada : tinha mesmo repellido com uma furia reprimida um gesto terno do calvo ; e quando, a uma ordem da Concha, Arthur pediu uma garrafa de Champagne, ergueu-se, pallida de raiva, e sahiu arrastando a saia, seguida do calvo, curvado, que apertava contra o peito as abas do seu chapéu branco com um ar lamentavel.
Ao outro dia, a Mercedes appareceu á mesa com um vestido de sêda azul, de decote quadrado, toda cheia de joias, e duas camelias no eabello.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.