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#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

Acousou o publico e a cidade d'estl IPidez. Que admirava que uma burguezia embrutecila e de craneo molle fosse indifferente á Poesia e {s idéas nobres Ser poeta n'um mundo tão torl e era uma chapada tolice ». Quando um tal desde; n espera as expansões preciosas das almas ellas devem refugiar-se n'uma mudez orgulhosa e triste. É o que elle faria, que diabo ! Se pegasse na penna, seria para escrever algum dram?lhão com bons direitos d'auctor, ou algum Rot•ambote bem pago e vendido ás cadernetas ! E o mais, regalar a Carne ! E refugiou-se com der,espero na posse da sua Concha.

Já não lhe impord ava o dinheiro ! Quando se lhe acabasse o pouco que tinha— Deus daria ! Toca a extrahir da hora presente todo o gozo, como o sumo fresco d'vma laranja ! E por uma petulancia nervosa, comprou para a Concha um vestido de sêda, dous chapéus, e decidiu satisfazer-lhe os desejos incessntes de luvas, rendas, fitas e frascos de perfuma.

A Concha, de resto, tinha uma mobilidade extrema de caprichos e de appetites : penava por uma sombrinha que via n'uma vitrine e depois de a usar com exaltação um ou dous dias, aborrecia-se, jurava que « lhe não ia bem 9. Arthur encontrava muitas vezes na saleta uma velha de capote e lenço, grande buço, fallas doces, muito cumprimentadora — que, apenas elle entrava, erguia-se, mettia um cabazinho debaixo do capote, agachava-se n'uma mesura, ia buscar a um canto um enorme guarda-sol de sêda tingida e Bahia subtilmente, ciciando :

— Creadinha de V. Ex. a.

A Concha acompanhava-a até ao corredor, fechando a porta sobre si, e alli ficavam a cochichar horas esquecidas ; voltava, vermelha, dizendo que era uma mulher muito decente, que comprava ves„ tidos e arranjava cousas muito baratas em segunda mão.

— Mis cosas, mis cosas !

Estava, com effeito, trocando constantemente objectos, pondo um par de brincos no *prego para obter uma renda inutil, vendendo a renda para ter mais um par de meias de sêda, toda tontinha de phantasias. E ultimamente para ir ás lojas, segundo dizia, sahia só de manhã e de tipoia.

Um dia que aquelas passeatas o irritaram mais, Arthur fez-lhe uma observação despeitada. A Concha voltou-se com a grande attitude d'uma esposa offendida, passou-lhe nos olhos negros como que o clarão d'um tiro e de cabeça erguida, perguntou-lhe se a tomava por uma escrava ! Era o resultado de viver com um portuguez ! E dos seus labios deseahidos escorria um desprezo immenso. Nunca o seu conde lhe fizera uma tal offensa ! Mas esse era um fidalgo, um homem que sabia amar e respeitar uma mulher. E deixando-se oahir n'uma cadeira, começou a choramigar . . . Que desgraciada era I

Arthur, an.iquilado pelo seu grande ar, enternecido pelas lagrimas, prostrou-se de joelhos deante d'ella, jurou-lhe que ninguem a amava como elle . . . i Que dispuzesse da sua vida ! Era capaz de casar com

Mas a Concha respondeu-lhe friamente que não imaginasse fazer-lhe uma grande honra. Já outras vezes Arthur, n'algum momento de delirio mais ex pansivo, lhe fallara em casamento, mas d'um modo gracejador, ligeiro, e aquella palavTa tornava-a sem pre muito seria. E um dia mesmo, ella confessa ra-lhe que varios homens ricos, de grandes nomes, tinham querido casar com ella : em Madrid, antes d'ella vir para Portugal, um marquez offerecera-lhe a sua mão e um palacio, — Que marquez — Mi marquez !

Aquelle marquez que apparecia assim subitamente no seu passado —de que Arthur julgava conhecer os episodios mais mil:dos — irritou-o extraordinariamente. Exigiu a hist oria d'ef: sas relações e a Concha acabou por lhe jurar que el a um velho repugnante : por isso o recusara. Mas dias depois, deixou escapar, fallando ainda di) marqu — que se tornara um assumpto sempre presente — que era um rapaz mui guapo. E accreseentou qae a perseguia para que ella voltasse para Madrid.

Arthur concebeu então um ciume g] otesco pelo personagem : se a via macan;buzia, suppunha-a cheia de saudades do marquez ; se a ouvia segredar com a creada, imaginava que er reeados do marquez : chegou mesmo a suspeit{..r que elle estivesse em Lisboa, disfarçado, para II, 'a roube.r e sentia que alguma cousa de funesto so contra o seu amor.

Um dia, mexendo n'uma g: ',veta 11a, encontrou um lenço muito fino, com u n monog ramm.a sob uma coroa. Enfureceu-se : uma corôa ! De quem — Mi marquez ! — disse ella friamenbe.

Arthur, pallido, fez o lenço tiras e ficou logo a tremer, receando uma rajada de colera, um rompimento. Mas ella, tranquillam( nte, com uma serenidade de ser fragil martyrisad. apanhou as tiras uma a uma, fazendo beicinho ( horoso, como uma creança que levanta os pedaços d 'uma boneca partida, uniu-as, beijou-as, contemplo a-as murmurando :

— Mi marquez ! Mi marquez !

D'ahi a pouco Arthur encontrou as tiras preciosas, esquecidas, arrastando entre a roupa suja.



(continua...)

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