Por Eça de Queirós (1875)
- Traste por quê? Diga-me lá! Traste por quê? Temos ambos culpas no cartório, eis aí está. E olhe que eu não fui perguntar, nem peitar a Totó... Foi muito naturalmente ao entrar em casa. E se me vem agora com coisas de moral, isso faz-me rir. A moral é para a escola e para o sermão. Cá na vida eu faço isto, o senhor faz aquilo, os outros fazem o que podem. O padre-mestre que já tem idade agarra-se à velha, eu que sou novo arranjo-me com a pequena. É triste, mas que quer? É a natureza que manda. Somos homens. E como sacerdotes, para honra da classe, o que temos é fazer costas!
O cônego escutava-o, bamboleando a cabeça, na aceitação muda daquelas verdades. Tinha-se deixado cair numa cadeira, a descansar de tanta cólera inútil; e erguendo os olhos para Amaro:
- Mas você, homem, no começo da carreira!
- E você, padre-mestre, no fim da carreira!
Então riram ambos. Imediatamente cada um declarou retirar as palavras ofensivas que tinham dito; e apertaram-se gravemente a mão. Depois conversaram.
O cônego, o que o tinha enfurecido era ser lá com a pequena da casa. Se fosse com outra... até estimava! Mas a Ameliazinha!... Se a pobre mãe viesse a saber, estourava de desgosto.
- Mas a mãe escusa de saber! exclamou Amaro. Isto é entre nós, padre-mestre! Isto é segredo de morte! Nem a mãe sabe de nada, nem eu mesmo digo à pequena o que se passou hoje entre nós. As coisas ficam como estavam, e o mundo continua a rolar... Mas você, padre-mestre, tenha cuidado!... Nem uma palavra à S. Joaneira... Que não haja agora traição!
O cônego, com a mão sobre o peito, deu gravemente a sua palavra de honra de cavalheiro e de sacerdote que aquele segredo ficava para sempre sepultado no seu coração.
Então apertaram ainda uma outra vez afetuosamente a mão.
Mas a torre gemeu as três badaladas. Era a hora de jantar do cônego.
E ao sair, batendo nas costas de Amaro, fazendo luzir um olho de entendedor:
- Pois seu velhaco, tem dedo!
- Que quer você? Que diabo... Começa-se por brincadeira...
- Homem! disse o cônego sentenciosamente, é o que a gente leva de melhor deste mundo. - É verdade, padre-mestre, é verdade! É o que a gente leva de melhor deste mundo.
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Desde esse dia Amaro gozou uma completa tranqüilidade de alma. Até aí incomodava-o, por vezes, a idéia de que correspondera ingratamente à confiança, aos carinhos que lhe tinham prodigalizado na Rua da Misericórdia. Mas a tácita aprovação do cônego viera tirar-lhe, como ele dizia, aquele espinho da consciência. Porque enfim, o chefe de família, o cavalheiro respeitável, o cabeça - era o cônego. A S. Joaneira era apenas uma concubina... E Amaro mesmo, às vezes agora, em tom de galhofa, tratava o Dias de seu caro sogro.
Outra circunstância viera alegrá-lo: a Totó adoecera de repente: o dia seguinte ao da visita do cônego, passara-o soltando golfadas de sangue: o doutor Cardoso, chamado à pressa, falara de tísica galopante, questão de semanas, caso decidido...
- É destas, meu amigo, tinha ele dito, que é trás... trás... - era a sua maneira de pintar a morte, que, quando tem pressa, conclui o seu trabalho com uma fouçada aqui, outra além.
As manhãs na casa do tio Esguelhas eram agora tranqüilas. Amélia e o pároco já não entravam em pontas de pés, tentando esgueirar-se para o prazer, despercebidos da Totó. Batiam com as portas, palravam forte, certos que a Totó estava bem prostrada de febre, sob os lençóis úmidos dos suores constantes. Mas Amélia, por escrúpulo, não deixava de rezar todas as noites uma Salve-Rainha pelas melhoras da Totó. Às vezes mesmo ao despir-se, no quarto do sineiro, parava de repente, e fazendo um rostinho triste:
- Ai, filho! Até me parece pecado, nós aqui a gozarmos, e a pobre pequena lá embaixo a lutar com a morte...
Amaro encolhia os ombros. Que lhe haviam eles de fazer, se era a vontade de Deus?...
E Amélia, resignando-se à vontade de Deus em tudo, ia deixando cair as saias.
Tinha agora daquelas pieguices freqüentes que impacientavam o padre Amaro. Em certos dias aparecia muito murcha; trazia sempre algum sonho lúgubre a contar, que a torturara toda a noite, e em que ela pretendia descobrir avisos de desgraças...
Perguntava-lhe às vezes:
- Se eu morresse, tinhas muita pena?
Amaro enfurecia-se. Realmente era estúpido! Tinham apenas uma hora para se verem, e haviam de estar a estragá-la com lamúrias?
- É que não imaginas, dizia ela, trago o coração negro como a noite.
Com efeito as amigas da mãe estranhavam-na. Às vezes, durante serões inteiros não descerrava os lábios, pendia sobre a sua costura, picando molemente a agulha; ou então, muito cansada mesmo para trabalhar, ficava junto da mesa fazendo girar devagar o abajur verde do candeeiro, com o olhar vazio e a alma muito longe.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Crime do Padre Amaro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1791 . Acesso em: 29 jun. 2026.