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#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

- Bravo! bravo! - bramou o Barrolo, com palmas delirantes. - Saltem para cá os quinze tostões,Sr. Marquês de Treixedo!

Uma onda de sangue cobria a fina face de Gonçalo. Num relance sentiu que o Título era um dom do Cavaleiro, não ao chefe da Casa de Ramires, mas ao irmão complacente de Gracinha Ramires... E sobretudo sentia a incoerência de que, ao chefe duma Casa dez vezes secular, mãe de Dinastias, edificadora do Reino, com mais de trinta dos seus varões mortos sob a armadura, se atirasse agora um oco título, através do Diário do Governo, como a um tendeiro enriquecido que subsidiou eleições. Todavia saudou o Cavaleiro, que esperava a efusão, os abraços: - Oh! Marquês de Treixedo! certamente muito elegante, muito amável... Depois, esfregando as mãos, com um sorriso de graça e de espanto... Mas, meu caro André, com que autoridade me faz El-Rei Marquês de Treixedo?

O Cavaleiro levantou vivamente a cabeça numa ofendida surpresa:

- Com que autoridade? Simplesmente com a autoridade que tem sobre nós todos, como Rei de Portugal que ainda é, Deus louvado!

E Gonçalo, muito simplesmente, sem fumaça ou pompa, com o mesmo sorriso de suave gracejo:

- Perdão, Andrezinho. Ainda não havia Reis de Portugal, nem sequer Portugal, e já meus avós Ramires tinham solar em Treixedo! Eu aprovo os grandes dons entre os grandes Fidalgos; mas cumpre aos mais antigos começarem. El-Rei tem uma quinta ao pé de Beja, creio eu, o Roncão.

Pois dize tu a El-Rei, que eu tenho imenso gosto em o fazer, a ele, Marquês do Roncão.

O Barrolo embasbacara, sem compreender, com as bochechas descaídas e murchas. Da beira do canapé, Gracinha, toda corada, faiscava de gosto, por aquele lindo orgulho que tão bem condizia com o seu, mais lhe fundia a alma com a alma do irmão amado. E André Cavaleiro, furioso, mas vergando os ombros com irônica submissão, apenas murmurou: - "Bem, perfeitamente!... Cada um se entende a seu modo..." O escudeiro entrava com a bandeja do chá.

E no domingo foi a Eleição.

Ainda com uma desconfiança, uma reserva supersticiosa, o Fidalgo desejou atravessar esse dia muito solitariamente, quase escondido, e no sábado, enquanto todos os amigos de Vila-Clara, mesmo os de Oliveira, o consideravam estabelecido nos Cunhais, e em comunicação azafamada com o Governo Civil, montou a cavalo ao escurecer, e trotou sorrateiramente para Santa Irenéia.

Mas o Barrolo (ainda abalado com "aquele despautério do Gonçalo, que era uma ofensa para o Cavaleiro! até para El-Rei!") ficara com a missão de telegrafar para a Torre as notícias sucessivas das assembléias, à maneira que elas acudissem ao Governo Civil. E, com ruidoso zelo, logo depois da missa, estabeleceu entre os Cunhais e o velho Convento de S. Domingos um serviço de criados formigando sem repouso. Gracinha, na sala de jantar, ajudada por Padre Soeiro, copiava com amor, numa letra muito redonda, os telegramas mandados pelo Cavaleiro, que ajuntava a lápis alguma nota amável - "Tudo Otimamente! - Vitória cresce. - Parabéns a V Exa.s."

Pela estrada de Vila-Clara à Torre, incessantemente, o moço do Telégrafo se esbaforia sobre a perna manca. O Bento rompia pela Livraria, berrando: "outro telegrama, Sr. Doutor". Gonçalo, nervoso, com um imenso bule de chá sobre a banca, a bandeja já alastrada de cigarros meio fumados, lia o telegrama ao Bento. O Bento, com vivas pelo corredor, corria a bramar o telegrama à Rosa.

E assim, quando cerca das oito horas, o Fidalgo consentiu em jantar - já conhecia o seu triunfo esplêndido. E o que o impressionava, relendo os telegramas, era o entusiasmo carinhoso daqueles influentes, povos que ele mal rogava, e que convertiam o ato da Eleição quase num ato de Amor. Toda a freguesia dos Bravais marchara para a Igreja, cerrada como uma hoste, como José Casco na frente erguendo uma enorme bandeira, entre dois tambores que estouravam. O Visconde de Rio-Manso entrara no adro da Igreja de Ramilde na sua vitória, com a neta toda vestida de branco, seguido por uma vistosa fila de char-à-bancs, onde se apinhavam eleitores sob toldos de verdura. Na Finta todos os casais se esvaziavam, as mulheres carregadas de ouro, os rapazes de flor na orelha, correndo à Eleição do Fidalgo entre o repenicar das violas, como à romaria dum Santo. E diante da taberna do Pintainho, em face à Igreja, a gente da Veleda, da Riosa, do Cercal erguera um arco de buxo, com dístico vermelho, sobre paninho: -"Viva o nosso Ramires, flor dos homens!"

Depois, enquanto jantava, um moço da quinta voltou de Vila-Clara, alvoroçado, contando o delírio, as filarmônicas pelas ruas, a Assembléia toda embandeirada, e na casa da Câmara, sobre a porta, um transparente com o retrato de Gonçalo, que uma multidão aclamava.

(continua...)

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