Por Eça de Queirós (1875)
- Então, ouve cá, disse ele chegando-se mais para ela, fazendo ranger o catre com o seu peso.
Ouve cá, quem é o outro? Quem é que vem com a Amélia?
Ela respondeu logo, atirando as palavras dum fôlego:
- É o bonito, é o magro, vêm ambos, sobem para o quarto, fecham- se por dentro; são como cães!
Os olhos do cônego injetaram-se para fora das órbitas:
- Mas quem é ele, como se chama? O teu pai que te disse?
- É o outro, é o pároco, o Amaro! fez ela impaciente.
- E vão para o quarto, hem? Lá para cima? E tu que ouves, tu que ouves? Diz tudo, pequena, diz tudo!
A paralítica então contou, com um furor que dava tons sibilantes à sua voz de tísica, - como ambos entravam, e a vinham ver, e se roçavam um pelo outro, e abalavam para o quarto em cima, e estavam lá uma hora fechados...
Mas o cônego, com uma curiosidade lúbrica que lhe punha uma chama nos olhos mortiços, queria saber os detalhes torpes:
- E ouve lá, Totozinha, tu que ouves? Ouves ranger a cama?
Ela respondeu com a cabeça afirmativamente, toda pálida, os dentes cerrados.
- E olha, Totozinha, já os viste beijarem-se, abraçarem-se? Anda, diz, que te dou dois pintos.
Ela não descerrava os lábios; e a sua face transtornada parecia ao cônego selvagem.
- Tu embirras com ela, não é verdade?
Ela fez que sim numa afirmação feroz de cabeça.
- E viste-os beliscarem-se?
- São como cães! soltou ela por entre os dentes.
O cônego então endireitou-se; bufou outra vez com o seu grande sopro de encalmado, e coçou vivamente a coroa.
- Bem, disse, erguendo-se. Adeus, pequena... Agasalha-te. Não te constipes...
Saiu; e ao fechar com força a porta exclamou alto:
- Isto é a infâmia das infâmias! Eu mato-o! eu perco-me!
Esteve um momento considerando, e partiu para a Rua das Sousas, de guarda-sol em riste, apressando a sua obesidade, com a face apoplética de furor. No Largo da Sé, porém, parou a refletir ainda; e rodando sobre os tacões, entrou na igreja. Ia tão levado que, esquecendo um hábito de quarenta anos, não dobrou o joelho ao Santíssimo. E arremessou-se para a sacristia - justamente quando o padre Amaro saía, calçando cuidadosamente as luvas pretas que usava agora sempre para agradar à Ameliazinha.
O aspecto descomposto do cônego assombrou-o.
- Que é isso, padre-mestre?
- O que é, exclamou o cônego de golpe, é a maroteira das maroteiras! É a sua infâmia! é a sua infâmia!...
E emudeceu, sufocado de cólera.
Amaro, que se fizera muito pálido, balbuciou:
- Que está você a dizer, padre-mestre?
O cônego tomara fôlego:
- Não há padre-mestre! O senhor desencaminhou a rapariga! Isso é que é uma canalhice mestra!
O padre Amaro, então, franziu a testa como descontente dum gracejo: - Que rapariga!? O senhor está a brincar?
Sorriu mesmo, afetando segurança; e os seus beiços brancos tremiam.
- Homem, eu vi! berrou o cônego.
O pároco, subitamente aterrado, recuou:
- Viu?
Imaginara, num relance, uma traição, o cônego escondido num recanto da casa do tio Esguelhas...
- Não vi, mas é como se visse! - continuou o cônego num tom tremendo. - Sei tudo. Venha de lá. Disse-mo a Totó. Fecham-se no quarto horas e horas! Até se ouve embaixo ranger a cama! É uma ignomínia!
O pároco, vendo-se pilhado, teve, como um animal acossado e entalado a um canto, uma resistência de desespero.
- Diga-me uma coisa. O que é que o senhor tem com isso?
O cônego pulou.
- O que tenho? o que tenho? Pois o senhor ainda me fala nesse tom? O que tenho é que vou daqui imediatamente dar parte de tudo ao senhor vigário-geral!
O padre Amaro, lívido, foi para ele com o punho fechado:
- Ah, seu maroto!
- Que é lá? que é lá? exclamou o cônego de guarda-sol erguido. Você quer-me pôr as mãos?
O padre Amaro conteve-se; passou a mão sobre a testa em suor, com os olhos cerrados; e depois de um momento, falando com uma serenidade forçada:
- Ouça lá, Sr. cônego Dias. Olhe que eu vi-o ao senhor uma vez na cama com a S. Joaneira...
- Mente! mugiu o cônego.
- Vi, vi, vi! afirmou o outro com furor. Uma noite ao entrar em casa... O senhor estava em mangas de camisa, ela tinha-se erguido, estava a apertar o colete. Até o senhor perguntou: "Quem está aí?". Vi, como estou a vê-lo agora. O senhor a dizer uma palavra, e eu a provar-lhe que o senhor vive há dez anos amigado com a S. Joaneira( à face de todo o clero! Ora aí tem!
O cônego, já antes esfalfado dos excessos do seu furor, ficou agora, àquelas palavras, como um boi atordoado. Só pôde dizer daí a pouco, muito murcho:
- Que traste você me sai!
O padre Amaro então, quase tranqüilo, certo do silêncio do cônego, disse com bonomia:
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Crime do Padre Amaro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1791 . Acesso em: 29 jun. 2026.