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#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

Mas durante o jantar e depois na sala tomando café, enquanto Gracinha recomeçara as velhas canções patrióticas, agora as jacobitas, em louvor dos Stuarts - Gonçalo ansiou pela aparição do Cavaleiro. Nem receava que a esse encontro se misturasse amargura, despeito sufocado. Todo o seu furor contra o Cavaleiro, aceso na dolorosa tarde do Mirante, revolvido na Torre durante torturados dias, logo se dissipara lentamente depois da sua tocante conversa com a irmã, na manhã histórica da briga da Grainha. Gracinha então, com grandes lágrimas de pureza e de verdade, jurara reserva, retraimento. Gonçalo, abandonando Oliveira, mostrava também uma resistência louvável contra o sentimento ou a vaidade que o transviara. Demais ele não podia romper novamente com o Cavaleiro, andando ainda nos mexericos e espantos de Oliveira aquela reconciliação ruidosa que chamara o Cavaleiro à intimidade dos Cunhais. E por fim de que valiam furores ou mágoas? Nenhum rugir ou gemer seu anulariam o mal que se consumara no Mirante - se porventura se consumara. E assim toda a cólera contra o André se dissipara naquela sua leve e doce alma, onde os sentimentos, sobretudo os mais escuros, os mais carregados, sempre facilmente se desfaziam como nuvens em céu de estio...

Mas quando, perto das nove horas, o Cavaleiro penetrou na sala, vagaroso e magnífico, com o bigode encurtado mas mais retorcido, uma gravata vermelha entufando estridentemente no largo peito que entufava, Gonçalo sentiu uma renovada aversão por toda aquela petulância recheada de falsidade - e apenas pôde bater molemente, desenxabidamente, nas costas do velho amigo, que o apertava num abraço de aparatosa ternura. E enquanto André, torcendo as luvas claras, languidamente enterrado na poltrona que o Barrolo lhe achegou com carinho, contava de Lisboa e de Cascais, tão alegre, e partidas de bridge e da Parada e d'El-Rei Gonçalo revivia a tarde do Mirante, o seu pobre coração a bater contra a persiana mal fechada, a bruta súplica murmurada através daqueles bigodes atrevidos, e emudecera, como empedernido, esmigalhando nervosamente entre os dentes o charuto apagado. Mas Gracinha conservava uma serenidade atenta, sem nenhum dos seus chamejantes rubores, dos seus desgraçados enleios de modo e gesto, apenas levemente seca, duma secura preparada e posta. Depois André aludira muito desprendidamente ao seu regresso a Lisboa, depois da Eleição, "porque o tio Reis Gomes, o José Ernesto, esses cruéis amigos, lhe andavam atirando para os ombros todo o trabalho da Nova Reforma Administrativa".

Entre ele e Gracinha, separados por um curto tapete, parecia cavada uma funda légua de fosso, onde rolara, se afundara todo aquele romance do verão, sem que na face de ambos restasse um afogueado vestígio do seu ardor. E Gonçalo, insensivelmente contente pela aparência, terminou por abandonar a cadeira onde se empedernira, acendeu o charuto na vela do piano, perguntou pelos amigos de Lisboa. Todos (segundo o Cavaleiro) ansiavam pela chegada de Gonçalo.

Lá encontrei também o Castanheiro... Entusiasmado com o teu Romance. Parece que nem no Herculano, nem no Rebelo existe nada tão forte, como reconstrução histórica. O Castanheiro prefere mesmo o teu realismo épico ao do Flaubert, na Salanimbô. Enfim, entusiasmado! E nós, está claro, ardendo por que apareça a sublime obra.

O Fidalgo corou profundamente, murmurando: - "Que tolice!" Depois roçou pela poltrona em que se enterrava o André, afagou suavemente o largo ombro do André:

- Pois, tens feito cá muita falta, meu velho! Há dias passei em Corinde, tive saudades...

Então o Barrolo, que não sossegava, vermelho, a estourar rebolando pela sala, espiando ora o Cavaleiro, ora o Gonçalo, com um riso mudo e ávido, não se conteve mais, gritou:

- Bem, basta de prólogos... Vamos lá agora à grande surpresa, André! Eu tenho estado toda atarde a rebentar... Mas enfim, jurei e calei! Agora não posso... Vamos lá. E tu, Gonçalinho, vai preparando os quinze tostões.

Gonçalo, com a curiosidade de novo refervendo, apenas sorria, desprendidamente:

- Com efeito! Parece que tens uma bela novidade.

O Cavaleiro alargou lentamente os braços, sempre enterrado na vasta poltrona, sem pressa:

- Oh! é a coisa mais simples, mais natural... A Sra. D. Graça já sabe, não é verdade?... Não hámotivo para surpresa... Tão legitima, tão natural!

Gonçalo exclamou, já impaciente:

- Mas enfim, venha lá, dize.

O Cavaleiro insistia, indolente. Todo o espanto era que só agora se pensasse em a realizar, coisa tão devida, tão adequada. Pois não lhe parecia à Sra. D. Graça?

Gonçalo, numa brasa, berrou:

- Mas quê? que diabo?

O Cavaleiro, que se despegara vagarosamente da poltrona, puxou os punhos, e diante de Gonçalo, no silêncio atento, alteando o peito, grave, quase oficial, começou:

- Meu tio Reis Gomes, e o José Ernesto, tiveram uma idéia muito natural, que comunicaram aEl-Rei, e que El-Rei aprovou... Que aprovou mesmo ao ponto de a apetecer, de se assenhorear dela, de desejar que fosse só sua. E hoje é só de El-Rei. El-Rei pois pensou, como nós pensamos, que um dos primeiros Fidalgos de Portugal, decerto mesmo o primeiro, devia ter um título que consagrasse bem a antigüidade ilustre da Casa, e consagrasse também o mérito superior de quem hoje a representa... Por isso, meu querido Gonçalo, já te posso anunciar, e quase em nome de El-Rei, que vais ser Marquês de Treixedo.

(continua...)

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