Por Eça de Queirós (1925)
— Então, usta, hein ! Ora usted ! , . . — dizialhe, emquanto Arthur escolhia os charutos — Então por onde andou usted ?
— A viajar — disse Arthur.
—Ora usted I a comidinha ós sete, hein Usted será bem servido !
Para evitar a mesa redonda, tinham tomado, ao pé do quarto de dormir, outro quarto, que, tirada a cama, fôra improvisado em sala de jantar. A commoda servia d'aparador ; e para dar alegria e conforto, tinham-lhes dependurado um canario defronte da janella.
As primeiras semanas foram deliciosas. O inverno ia muito doce e luminoso e succediam-se os dias de sol, n'nm grande azul, d'onde cahia um calorzinho suave e uma alegria macia. As varandas, que deitavam para a rua da Prata, alegravam o quarto.
Era a primeira vez que Arthur vivia com uma tnulher em intimidade conjugal ; as mais pequenas 'cousas : B gomma das gaias, os atacadores do col-
-lete, os bordados das camizinhas, interessavam-no como revelações ; admirava cada vez mais « a sua Conchazinha», achando um gozo raro em cada um dos seus movimentos. Nos actos mais insignificantes — quando lavava os braços nús, quando esticava as meias nas pernas ou enfiava uma fita côr de rosa nos passadores da camisa — encontrava o sabor inesperado d'uma voluptuosidade nova. Rondava em volta d'ella com uma curiosidade devota, ora interessado pelos cabellinhos da nuca, ora pela fórma das unhas, ora por certo requebrar da cintura ; não amava os seus olhos com o mesmo amor com que amava os seus peitos ou as suas orelhas pequeninas, porque cada parte do seu corpo, como se fossem personalidades differentes com influencias espeeiaes, lhe inspirava um enthusiasmo particular. Melchior definira-o como um baboso e punha n'eeta expressão um fundo d'inveja e de vago despeito.
Como a Concha era muito preguiçosa, levantavam-se tarde. Ordinariamente almoçavam na cama : uma creada que fallava um hespanhol misturado de portuguez e que depressa se tornara a intima da Concha, trazia o almoço aos pombinhos i, ás onze horas. E era para Arthur uma delicia todas as manhãs renovada, vêr a Concha com os peitinhos ao léu, um casabeque de flanella escarlate pelos hombros, mover sobre o taboleiro os braços brancos e partir os ovos quentes delicadamente com o gume da faca, arrebitando o dedo minimo : depois, no chôco da roupa quente, corpo contra corpo, saboreavam am ciga rrinho.
Arthur cada dia lhe achava as maneiras mais senhoris. Mesmo nos ardores amorosos, tinha Uma reserva de dama. Ao deitar-se, nunca lhe dava um beijo sem primeiro fazer o Signal da cruz : assim se vê um livro d'orações sobre a commoda d 'um lupanar. Arthur attribuia estas delicadezas ás suas convivencias '{Ilustres e não se fartava de lhe ouvir historia dos seus amores com o conde ou visconde carlista : interrogava-a mesmo sobre a maneira como elle a amava, a abraçava, se lavava, gostando de penetrar nos etalhes intimos d'uma vida aristocratica e de beijar a bocca onde se tinham pousado os labios d'um Crande d'Hespanha ; comtudo sentia uma satisfação intima em o saber enterrado n'algum desfiladeiro montanhas de Navarra.
Pelas duas horas vinha o Pancho, o cabolleireiro, penteal-a : era um gordalhufo, amarello como um limão, de t)igodes negros como tinta ; Usava a mesma camisa ile chita, de collarinho muito decotado, quatro, cine,o semanas a fio ; e manejando, com as suas mãos papudas e molles de _pomada, os gos cabellos negros da Concha, conversavam — tratando-so por tu por serem do mesmo pueblo.
sempre historias d'outras raparigas bespanholüs a quem Pancho construia os altos penteados — 0 que fazia a Trina, o que dissera' a Angelita, quem o querido da Lola . . . Como fallavam no rapido accento andaluz, em calão, Arthur não os comprehendia e aquelle tu familiar do cabelleireiro irritava-o surdamente. Mas a Concha não podia dispensar o Pancho, porque não se sabia pentear. Não sabia, de resto, fazer nada, nem pregar um botão, nem dar uma passagem : quando tentava pegar n'uma agulha, tinha logo dôres de cabeça. Cada dia Arthur se surprehendia mais com aquelle temperamento : ora tinha rajadas d'animação, e então agitava-se pelo quarto, batendo os moveis com as longas saias muito engommadas, abrindo e fechando as janellas, arrumando e desarrumando a roupa nas gavetas, cantarolando, batendo as palmas sem razão, toda petulante de vida animal ; ora, embalando-se n'uma cadeira de balouço, com o corpo molle, os braços descahidos, abandonada n'uma madracice vaga, os olhos meio cerrados, fumava infindaveis cigarros ; ou então, sentada em cima da cama, encruzada como uma turca, o pézinho n'uma das mãos, a face murcha, parecia um bicho entorpecido, nos fins do inverno.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.