Por Eça de Queirós (1875)
- Ah! O amigo pároco também? Está bom, está bom. Faremos uma consulta à Totó!
Amélia então, contente de sua malícia, tagarelou sobre a Totó. O senhor cônego ia ver... Era uma criatura incompreensível... Ultimamente, ela não tinha querido contar em casa, mas a Totó tomara-lhe birra... E dizia coisas, tinha um modo de falar de cães e de animais, de arrepiar!... Ai, era um encargo que já lhe pesava... Que a rapariga não lhe escutava as lições, nem as orações, nem os conselhos... Era uma fera!
- O cheiro é desagradável! rosnou o cônego, entrando.
Que queria! A rapariga era uma porca, não havia tê-la arranjado. O pai, esse, um desleixado também...
- É aqui, senhor cônego, disse, abrindo a porta da alcova - que, agora, em obediência às ordens do senhor pároco, o tio Esguelhas deixava sempre fechada.
Encontraram a Totó meio erguida sobre a cama, com a face acesa numa curiosidade, àquela voz do cônego que não conhecia.
- Ora viva lá a Sra. Totó! disse ele da porta, sem se aproximar.
- Vá, cumprimenta o senhor cônego, disse Amélia, começando logo, com uma caridade desacostumada, a compor a roupa da cama, a arrumar a alcova. Dize-lhe como estás... Não te faças amuada!
Mas a Totó permaneceu tão muda como a imagem de S. Bento que tinha à cabeceira, examinando muito aquele sacerdote tão gordo, tão grisalho, tão diferente do senhor pároco... E os seus olhos, mais brilhantes todos os dias à medida que se lhe cavavam as faces, iam, como de costume, do homem para Amélia, numa ansiedade de perceber por que o trazia ela ali, àquele velho obeso, e se ia também subir com ele para o quarto.
Amélia agora tremia. Se o senhor pároco entrasse, e ali, diante do cônego, a Totó, tomada do seu frenesi, rompesse aos gritos, tratando-os de cães!... Com o pretexto de dar uma arrumadela, foi à cozinha vigiar o pátio. Faria um sinal da janela, apenas Amaro aparecesse.
E o cônego, só na alcova da Totó, preparando-se para começar as suas observações, ia perguntarlhe quantas eram as pessoas da Santíssima Trindade, - quando ela, adiantando a face, lhe disse numa voz sutil como um sopro:
- E o outro?
O cônego não compreendeu. Que falasse alto! Que era?
- O outro, o que vem com ela!
O cônego chegou-se, com a orelha dilatada de curiosidade:
- Que outro?
- O bonito. O que vai com ela para o quarto. O que a belisca...
Mas Amélia entrava; e a paralítica calou-se logo, repousada, com os olhos cerrados e respirando regaladamente, como num alívio repentino de todo o seu sofrimento. O cônego, esse, imobilizado de assombro, permanecia na mesma postura, dobrado sobre a cama como para auscultar a Totó. Ergueu-se por fim, soprou como numa calma de agosto, sorveu de espaço uma pitada forte; e ficou com a caixa aberta entre os dedos, os olhos muito vermelhos cravados na colcha da Totó.
- Então, senhor cônego, que lhe parece cá a minha doente? perguntou Amélia.
Ele respondeu, sem a olhar:
- Sim senhor, muito bem... Vai bem... É esquisita... Pois é andar, é andar... Adeus...
Saiu, resmungando que tinha negócios, - e voltou imediatamente à botica.
- Um copo de água! exclamou, caindo em cheio sobre a cadeira.
O Carlos, que voltara, apressou-se, oferecendo flor de laranja, perguntando se sua excelência estava incomodado...
- Cansadote, disse.
Tomou o Popular de sobre a mesa, e ali ficou, sem se mexer, abismado nas colunas do periódico. O Carlos tentou falar da política do pais, depois dos negócios de Espanha, depois dos perigos revolucionários que ameaçavam a Sociedade, depois da deficiência da administração do concelho de que era agora um adversário feroz... Debalde. Sua excelência grunhia apenas monossílabos soturnos. E o Carlos, enfim, recolheu-se a um silêncio chocado, comparando, num desdém interior que lhe vincava de sarcasmo os cantos dos beiços, a obtusidade soturna daquele sacerdote à palavra inspirada dum Lacordaire e dum Malhão! Por isso o Materialismo em Leiria, em todo o Portugal, erguia a sua cabeça de hidra...
Batia uma hora na torre quando o cônego, que vigiava a Praça pelo canto do olho, vendo passar Amélia, arremessou o jornal, saiu da botica sem dizer uma palavra e estugou o seu passo de obeso para a casa do tio Esguelhas. A Totó estremeceu de medo ao ver de novo aquela figura bojuda aparecer à porta da alcova. Mas o cônego riu-se para ela, chamou-lhe Totozinha, prometeu-lhe um pinto para bolos; e mesmo sentou-se aos pés da cama com um ah! regalado, dizendo:
- Ora vamos nós agora conversar, amiguinha... Esta é que é a pernita doente, hem? Coitadita! Deixa que te hás-de curar... Hei-de pedir a Deus... Fica por minha conta.
Ela fazia-se ora toda branca ora toda vermelha, olhando aqui e além, inquieta, na perturbação que lhe dava aquele homem a sós com ela tão perto que lhe sentia o hálito forte.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Crime do Padre Amaro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1791 . Acesso em: 29 jun. 2026.