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#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

- Para quê? Para nada... Quero dizer, para a Eleição! Pois a Eleição é além de amanhã, menino! O Cavaleiro chegou ontem. Agora volto eu do Governo Civil. Estive no Paço com o Sr. Bispo, depois passei pelo Governo Civil... Ótimo, o André! Aparou o bigode, parece mais moço.

E traz novidades... Traz grandes novidades!

E o Barrolo esfregava as mãos, num tão faiscante alvoroço, com tanto riso escapando dos olhos e da face reluzente, que o Fidalgo o encarou curioso, impressionado:

- Ouve lá, Barrolinho! Tu tens alguma coisa boa para me anunciar?

Barrolo recuou, negou com estrondo, como quem bruscamente fecha uma porta. Ele? Não! Não sabia nada! Só a Eleição! Na Murtosa votação tremenda...

- Ah! pensei - murmurou Gonçalo. - E a Gracinha?

- A Gracinha também não!

- Também não quê, homem? Como está? Simplesmente como está?

- Ah! está com as Lousadas. Há mais de meia hora, aquelas bêbedas!... Naturalmente porcausa do Bazar do Asilo Novo... Esta maçada dos Bazares... E ouve lá, Gonçalinho! Tu ficas até domingo?

- Não, volto amanhã para a Torre.

- Oh!...

- Pois dia de Eleição, homem! devo estar em casa, no meu centro, no meio das minhasfreguesias...

- É pena - murmurou o Barrolo. - Logo se sabia juntamente com a Eleição... Eu dava um jantartremendo...

- Logo se sabia, o quê?

O Barrolo emudeceu, com outro riso nas bochechas, que eram duas brasas gloriosas. Depois novamente gaguejou, gingando:

- Logo se sabia... Nada! O resultado, o apuramento. E grande bródio, grande foguetório. Eu, naMurtosa, abro pipa de vinho.

Então Gonçalo risonhamente prendeu o Barrolo pelos ombros:

- Dize lá, Barrolinho. Dize lá. Tu tens uma coisa boa para contar ao teu cunhado.

O outro escapou, protestando com alarido: Que teima, que tolice. Ele não sabia nada. O André não lhe contara nada!

- Bem - concluiu o Fidalgo, certo de um amável mistério, que pairava. - Então descemos. E se essas carraças das Lousadas ainda estiverem lá pegadas, manda dizer pelo escudeiro à sala, bem alto, à Gracinha, que cheguei, que lhe desejo falar imediatamente no meu quarto; com esses monstros não há considerações.

O Barrolo balbuciou, hesitando:

- O Sr. Bispo gosta delas... Muito amável comigo, ainda há pouco, o Sr. Bispo.

Mas, logo nas escadas, sentiram o piano, Gracinha cantarolando. Já se libertara das Lousadas. Era uma antiga canção patriótica da Vendéia, que outrora, na Torre, ela e Gonçalo entoavam com emoção, quando os inflamava o amor Fidalgo e romântico dos Bourbons e dos Stuarts: Monsieur de Charette a dit à ceux d'Ancenes

"Mes amis!..."

Monsieur de Charette a dit...

Gonçalo franziu vagarosamente o reposteiro da sala, rematando a estrofe, com o braço erguido como uma bandeira:

"Mes amis!

Le Rai va rammener les Fleurs de Lys!

Gracinha saltou do mocho, numa surpresa.

- Não te esperávamos! Imaginei que passavas a Eleição na Torre... E por lá?

- Na Torre, tudo bem, com a ajuda de Deus... Mas eu com trabalho imenso. Acabei o meuromance; depois visitas aos Eleitores.

Barrolo, que não sossegava pela sala, rompeu para eles, com o mesmo riso sufocado:

- Queres tu saber, Gracinha? Tem estado este homem, desde que chegou, numa curiosidade, aferver. Imagina que eu tenho uma boa nova, uma grande nova para lhe contar... Eu não sei nada, a não ser a Eleição! Pois não é verdade, Gracinha?

Gonçalo, muito sério, prendeu o queixo da irmã:

- Sabes tu, dize lá.

Ela sorriu, corada... Não, não sabia nada, só a Eleição.

- Dize lá!

- Não sei... São tolices do José.

Mas então, ante aquele sorriso fraco, rendido, que confessava - o Barrolo não se conteve, desafogou como um morteiro estoura: - Pois bem! sim! com efeito! - Grande novidade! Mas o André, que a trouxera de Lisboa, fresquinha a saltar, queria ele, só ele, causar a surpresa a Gonçalo...

- De modo que eu não posso! Jurei ao André. A Gracinha sabe, que eu já lhe contei ontem...Mas também não pode, também jurou. Só o André. Ele vem logo tomar chá, e rebenta a bomba... Que é uma bomba! e graúda!

Gonçalo, roído de curiosidade, murmurou simplesmente, encolhendo os ombros:

- Bem, já sei, é uma herança! Tens quinze tostões de alvíssaras, Barrolo.

(continua...)

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