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#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

Foi por conselho de Melchior que se decidiu a ir viver com a rapariga para o Hotel Hespanhol. Era a installagão mais prompta e evitava os embaraços de oreadas, cozinheira, etc. E depois, é divertido, tinha dito Melchior. Sem contar que é mais chicl

A Concha ficara enlevada com este plano e d'ahi a dous dias Arthur despediu-se do Universal,

Quando, feita a mala, olhou em redor, pela ultima vez, aquelle quarto de reps azul que lhe dera tantas satisfações de vaidade, onde se creara tantas illusões, sentiu uma commoção. Teve saudades do oreado, um velho muitc trigueiro que o servia. Quiz tornar a vêr a sala de jantar que lhe agradava tanto, quando, depois do almoço, soprava á varanda cheia do bom sol d'inverno, o fumo do sen cha-

ruto caro, ouvindo ao lado o tlim-tlim da longa e em baixG o Chiado, no seu rumor de vida rica.

No corredor, encontrou Carvalhosa :

— Então o amigo deixa-nos

Arthur, lisonjeado, apressou-se a dizer :

— Oh, por poucos dias !

— Não morreremos de dôr ! — rosnou o outro com um aceno negligente de cabeça.

Arthur sentiu uma colera congestionai-o. Canalha ! pensou — e desceu com pressa, avido do Hegpanhol e das suas delicias.

— E para onde quer que mande as cartas, se houver — perguntou-lhe o porteiro, contente da esportula.

Arthur, com uma vaga esperança que a baro neza ainda respondesse — ped.iu que lh'as guardassem. para se dar importancia, mesmo deante do porteiro, accrescentou com mysterio :

— Mas muito secretamente ! Que ninguem veja ! O seu bahú, o seu sacco de noite, já estavam na tipoia. ao fechar a portinhola, mandou bater para o Rocio — porque, por vaidade, não quiz fazer conhecer deante do porteiro que mudava para o Hespanhol. O trem rolou, e Arthur, com um olhar para as varandas do Hotel, murmurou sentimentalmente :

—É outra pagina da minha vida que ge volta . . . Avante !

Foi n'essa noite com Melchior buscar a Con chae As companheiras estavam na sala, em redor d'ella, como uma familia em torno da noiva n'uma manhã nupcial.

A governanta, que se declarou cominovida, levou Arthur para um quarto e alli, durante vinte minu tos, foi-lhe mostrando as dividas da Concha : contas do cabelleireiro, da lavadeira, do sapateiro . . . Ars thur, aturdido, assustado, impaciente, pagava — sentindo fóra os gritinhos calidos das pequenas que Melchior beliscava.

Emfim, voltou á sala, e os adeuses começaram. A Lola, intima amiga da Concha, rompeu n'um choro exagerado, desproporcional, que irritou a governanta, descontente que ella estivesse a fazer-se feia, com tanta lagrima 9. Depois, a Concha quiz ir 'á cozinha, despedir-se do cozinheiro que era de su pueblo » e d'outra rapariga que estava em cima, no segundo andar, doente d'um furunculo. Voltou com os olhos vermelhos. Melchior troçava-a, contorcendose em prantos comicos. Ellas chamavam-lhe perdido, bandido! Todas vieram ao patamar: os beijos, os abraços, os segredinhos, o chalrar das vozes já imIpacientavam Arthur — e a arrancando-se táquellas expansões de despedida, desceu finalmente. Mas as vozes agudas seguiam-na pela escada,

Ella respondia : era um chilrear de passarada,

— Adi08, hija !

— Adios, Lolita !

— De usted empreciones a Pancho ! —- Que se le vea a usted, Arturito !

— Carmita, hija, que no se haga usted olvidada ! Adios ! adios !

Melchior rompeu adeante, o chapéu p'ra nuca, radioso, faceto, cantando o coro nupcial da Lucia. E Arthur, atraz, descia com a Concha pelo braço, um triumpho de noivo pela alma, o olho brilhanto. o peito alto — na posse, emfim, da sua andaluza !

VIII

No primeiro dia, quan'lo desceu ó sala de jantar do Hespanhol a buscar charutos — Arthur encontrou os mesmos hospedes que o habitavam, mezes antes, á sua chegada a Lisboa. Lá estava B hespanhola bonita e gordinha, o feu robe-de-chambre escarlate e o homem calvo, de oachaço grosso e rostinho vermelho, vendo-a comer, estatico, com olhinhos beatos e chorosos. Os dous republicanos hespanhoee sentavam-se no mesmo logar, cabisbaixos, as capas ao hombro, mais pallidos, mais tenebro80s. Havia, de novo, um homemzarrão barbudo que parecia um contra tador de gado, e um sujeito d'oculos azues e nariz agudD, que devia ser tabellião na provincia. E em volta da mesa, com a travessa do cozido, o Manuel — o Manuel que tanto desesperara Arthur, outr'ora, lastimando-lhe as botas ro-

tas — arrastava as chinelas, esguio, amarello, com a sua cabelleira gecca, côr de rato e esguedelhada. A mesma gaze côr de rosa protegia o caixilho dou. rado do espelho, e Prim, inalteravelmente, levantava ao ar a sua bandeira desfraldada.

O Manuel pareceu satisfeito de vêr Arthur :

(continua...)

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