Por Eça de Queirós (1875)
- Ah, fez o velho discretamente. - E enquanto tirava com método duma carteira atulhada de papéis a receita para o praticante, deu ao cônego notícias da freguesia. Era lá, nos Poiais, que o cônego tinha a fazenda, a Ricoça. O abade Ferrão passara de manhã diante da casa e ficara surpreendido vendo que lhe andavam a pintar a fachada. O amigo Dias tinha algumas idéias de ir lá passar o Verão?
Não, não tinha. Mas como trouxera obras dentro e a fachada estava uma vergonha, mandara-lhe dar uma mão de ocre. Enfim, era necessário alguma aparência, sobretudo numa casa que estava à beira da estrada, onde passava todos os dias o morgadelho dos Poiais, um parlapatão que imaginava que só ele tinha um palacete decente em dez léguas á roda... Só para meter ferro, àquele ateu! Pois não lhe parecia, amigo Ferrão?
O abade estava justamente lamentando consigo aquele sentimento de vaidade num sacerdote; mas, por caridade cristã, para não contrariar o colega, apressou-se a dizer:
- Está claro, está claro. A limpeza é a alegria das coisas...
O cônego então, vendo passar no largo uma saia e um mantelete, foi à porta afirmar-se se era Amélia. Não era. E voltando, retomado agora da sua preocupação, vendo que o praticante fora dentro ao laboratório, disse ao ouvido do Ferrão:
- Uma embaixada da fortuna! Vou ver uma endemoniada!
- Ah, fez o abade, todo sério à idéia daquela responsabilidade.
- Quer você vir comigo, abade? É aqui perto...
O abade desculpou-se polidamente. Viera falar ao senhor vigário-geral, fora depois ao Silvério para lhe pedir aqueles dois volumes, vinha ali aviar uma receita para um velho da freguesia, e tinha de estar de volta aos Poiais ao toque das duas horas.
O cônego insistiu; era um instante, e o caso parecia curioso...
O abade então confessou ao caro colega que eram coisas que não gostava de examinar. Aproximava-se sempre delas com um espírito rebelde à crença, com desconfianças e suspeitas que lhe diminuíram a imparcialidade.
- Mas enfim há prodígios! disse o cônego. - Apesar das suas próprias dúvidas, não gostava daquela hesitação do abade, a propósito dum fenômeno sobrenatural, em que ele, cônego Dias, estava interessado. Repetiu com secura: - Tenho alguma experiência, e sei que há prodígios.
- Decerto, decerto há prodígios, disse o abade. Negar que Deus ou a Rainha do Céu possa aparecer a uma criatura, é contra a doutrina da Igreja... Negar que o demônio possa habitar o corpo de um homem, seria estabelecer um erro funesto... Aconteceu a Jó, sem ir mais longe, e à família de Sara. Está claro, há prodígios. Mas que raríssimos que são, cônego Dias!
Calou-se um momento olhando o cônego, que tapava o nariz com rapé em silêncio - e continuou mais baixo, com o olho brilhante e fino:
- E depois não tem o colega notado que é uma coisa que só sucede às mulheres? É só a elas, cuja malícia é tão grande que o próprio Salomão não lhes pôde resistir, cujo temperamento é tão nervoso, tão contraditório, que os médicos não as compreendem. É só a elas que sucedem prodígios!... O colega já ouviu de ter aparecido a nossa Santa Virgem a um respeitável tabelião? Já ouviu dum digno juiz de direito possuído do espírito maligno? Não. Isto faz refletir... E eu concluo que é malícia nelas, ilusão, imaginação, doença, etc... Não lhe parece? A minha regra nesses casos é ver tudo isso de alto e com muita indiferença.
Mas o cônego, que vigiava a porta, brandiu subitamente o guarda-sol, fazendo pari o largo:
- Pst, pst! Eh lá!
Era Amélia que passava. Parou logo, contrariada daquele encontro que a ia ainda retardar mais. E já o senhor pároco devia estar desesperado...
- De modo que, disse o cônego à porta abrindo o seu guarda-sol, você, abade, em lhe cheirando a prodígio...
- Suspeito logo escândalo.
O cônego contemplou-o um momento, com respeito:
- Você, Ferrão, é capaz de dar quinaus a Salomão em prudência!
- Oh, colega! oh, colega! exclamou o abade, ofendido com aquela injustiça feita à incomparável sabedoria de Salomão.
- Ao próprio Salomão! afirmou ainda o cônego da rua.
Tinha preparado uma história hábil para justificar a sua visita à paralítica; mas durante a sua conversação com o abade ela escapara-lhe, como tudo o que deixava um momento nos reservatórios da memória; e foi sem transição que disse simplesmente a Amélia:
- Vamos lá, também quero ir ver essa Totó!
Amélia ficou petrificada. E o senhor pároco, naturalmente, já lá estava! Mas a sua madrinha Nossa Senhora das Dores, que ela invocou logo naquela aflição, não a deixou enleada no embaraço. - E o cônego, que caminhava ao lado dela, ficou surpreendido ouvindo-lhe dizer com um risinho:
- Viva, hoje é o dia das visitas à Totó! O senhor pároco disse-me que também talvez hoje aparecesse por lá... Talvez lá esteja até.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Crime do Padre Amaro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1791 . Acesso em: 29 jun. 2026.