Por Eça de Queirós (1900)
Gonçalo seguiu, revoltado pela idéia de que o pobre valentão de Nacejas, ainda moído, com a orelha mal soldada, baixasse à sórdida enxovia de Vila-Clara, para dormir sobre uma tábua. Pensou mesmo em galopar para Vila-Clara, reter o zelo legal do João Gouveia. Mas perto, adiante do lavadouro, era a casa de um Influente, o João Firmino, carpinteiro e seu compadre. E para lá trotou, apeando ao portal do quinteiro. O compadre Firmino largara cedo para a Arribada, onde trabalhava nas obras do lagar do Sr. Esteves. E foi a comadre Firmina que correu da cozinha, obesa e luzidia, com dois pequenos dependurados das saias e mais sujos que esfregões. O Fidalgo beijou ternamente as duas faces ramelosas:
- E que rico cheiro a pão fresco, ó comadre! Foi a fornada, bem? Pois então grande abraço aoFirmino. E que se não esqueça! A Eleição vem para o outro domingo. Lá conto como voto dele.
E olhe que não é pelo voto, é pela amizade.
A comadre arreganhava os dentes magníficos num regalado e gordo riso: - "Ai o Fidalgo podia ficar seguro! Que o Firmino já jurara, até ao Sr. Regedor, que para o Fidalgo era todo o sítio a votar, e quem não fosse a amor ia a pau". O Fidalgo apertou a mão da comadre - que do degrau do quinteiro, com os dois pequenos enrodilhados nas saias, e o gordo riso mais embevecido, seguiu a poeira da égua como o sulco dum Rei benéfico.
E depois nas outras visitas, ao Cerejeira, ao Ventura da Chiche, encontrou o mesmo fervor, os mesmos sorrisos luzindo de gosto. "O quê! para o Fidalgo! Isso tudo! E nem que fosse contra o Governo!" - Na tasca do Manuel da Adega, um rancho de trabalhadores bebia, já ruidoso, com as jaquetas atiradas para cima dos bancos; o Fidalgo bebeu com eles, galhofando, gozando sinceramente a pinga verde e o barulho. O mais velho, um avejão escuro, sem dentes, e a face mais engelhada que uma ameixa seca, esmurrou com entusiasmo o balcão: - "Isto, rapazes, é Fidalgo que, quando um pobre de Cristo escalavra a perna, lhe empresta a égua, e vai ele ao lado mais duma légua a pé, como foi como Solha! Rapazes! isto é Fidalgo para a gente ter gosto!" As saúdes atroaram a venda. E quando Gonçalo montou, todos o cercavam como vassalos ardentes, que a um aceno correriam a votar - ou a matar!
Em casa do Tomás Pedra, a avó Ana Preta, uma velha entrevada, muito velha e trêmula, rompeu a choramingar por o seu Tomás andar para o Olival quando o Fidalgo o visitava. "Que aquilo era como visita de santo!"
- Ora essa, tia Pedra! Pecador, grande pecador!
Dobrada na cadeirinha baixa, com as farripas brancas descendo do lenço, pela face toda chupada de grelhas e peluda, a tia Ana bateu no joelho agudo:
- Não senhor! não senhor! que quem mostrou aquela caridade pelo filho do Casco merece estarem altar!
O Fidalgo ria, beijocava pequenadas encardidas, apertava mãos ásperas e rugosas como raízes, acendia o cigarro à brasa das lareiras, conversando, com intimidade, das moléstias e dos derriços. Depois, no calor e pó da estrada, pensava: - "É curioso! parece haver amizade, nesta gente!"
Às quatro horas, derreado, decidiu cessar o giro, recolher à Torre pela estrada mais fresca da Bica Santa. E passara o lugarejo do Cerdal, quando na volta aguda do Caminho, rente ao souto de azinheiros, quase esbarrou com o Dr. Júlio, também a cavalo, também no seu giro, de quinzena de alpaca, alagado em suor, debaixo dum guarda-sol de seda verde. Ambos detiveram as éguas, se saudaram amavelmente.
- Muito gosto em o ver, Sr. Dr. Júlio...
- Igualmente, com muita honra, Sr. Gonçalo Ramires...
- Então também na tarefa?...
O Dr. Júlio encolheu os ombros:
- Que quer V. Exa.? Se me meteram nesta! E sabe V. Exa. como isto acaba?... Acaba em eu mesmo, no outro domingo, votar em V. Exa..
O Fidalgo riu. Ambos se debruçaram, para se apertarem as mãos com alegria, com estima.
- Que calor este, Sr. Dr. Júlio!
- Horroroso, Sr. Gonçalo Ramires... E que maçada!
Assim o Fidalgo empregou essa semana nas visitas aos Eleitores - "os grandes e os miúdos". E dois dias antes da Eleição, numa sexta-feira à tarde, com um tempo já macio e fresco, partiu para Oliveira - onde chegara, na véspera, o André Cavaleiro, depois da sua tão longa, tão falada demora em Lisboa.
Nos Cunhais, apenas saltara da caleche, logo se enfureceu ao saber, pelo bom João da Porta "que as Sras. Lousadas estavam em cima, de visita, com a Sra. D. Graça...
- Há muito?
- Já lá estão pegadas há meia hora boa, meu senhor.
Gonçalo enfiou sorrateiramente para o seu quarto, pensando: - "Que desavergonhadas! Chegou o André, vêm logo cocar!" E já se lavara, mudara o fato cinzento - quando o Barrolo apareceu, esbaforido, desusadamente radiante, de sobrecasaca, de chapéu alto, com as bochechas acesas, alvoroçadamente radiantes:
- Eh, seu Barrolo, que janota!
- Parece bruxedo! - gritou o Barrolo, depois dum abraço, que repetiu, com desacostumadofervor. - Estava agora mesmo para te mandar um telegrama, que viesses...
- Para quê?
O Barrolo gaguejou, com um riso reprimido que o iluminava, o inchava:
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.