Por Machado de Assis (1878)
De sala em sala chegaram a uma pequena varanda, onde uma circunstância nova os deteve algum tempo. Numa das extremidades da varanda havia um pombal velho, onde eles foram achar, esquecido ou abandonado, um casal de pombos. As duas aves, após vinte e quatro horas de solidão, pareciam saudar as pessoas que ali apareciam repentinamente.
— Coitadinhos! disse Estela logo que entrou na varanda.
Valéria prestou um minuto de atenção, talvez meio, e seguiu a ver a casa. Estela ficara a olhar para os dous pombos, e não a viu sair.
— Quer levá-los? disse a voz de Jorge.
A moça voltou-se e respondeu que não:
— Contudo, continuou ela, era bom dá-los a alguém para não morrerem à fome. São tão bonitos!
— Mas por que não os há de levar a senhora mesma?
— Vou pedir ao mestre que os tire dali, disse ela dando um passo para dentro.
— Não é preciso: eu vou tirá-los.
Estela protestou, mas o bacharel resolvera, e ia satisfazer ele próprio o desejo da moça. O pombal não ficava ao alcance da mão; era preciso trepar ao parapeito da varanda, esticar-se nos bicos dos pés e estender o braço. Ainda assim, precisaria contar com a boa vontade dos pombos. Jorge trepou ao parapeito, sem embargo dos protestos de Estela. Se perdesse o equilíbrio poderia cair ao chão da chácara. Para evitá-lo, Jorge lançou a mão esquerda a um ferro que havia na coluna do canto, e que o amparou; depois esticou o corpo e alcançou com a mão o pombal. Um dos pombos ficou logo seguro; o outro, a princípio arisco, foi colhido depois de algum esforço. Estela recebeu-os; Jorge saltou ao chão.
— A Sra. D. Valéria, se visse isto, havia de ralhar, disse Estela.
— Grande façanha! respondeu Jorge sacudindo com o lenço as mãos e a aba do fraque. — Podia cair.
— Mas não caí; foi um risco que passou. São bonitinhos, não são? continuou ele apontando para os pombos que Estela tinha entre as mãos.
A moça respondeu com um gesto e deu alguns passos, a fim de ir ter com a viúva. Jorge deteve-a, mantendo-se entre ela e a porta.
— Não se vá embora, disse ele.
— Que é? perguntou Estela erguendo tranqüilamente seus grandes olhos límpidos.
— Disfarçada!
Estela baixou silenciosamente a cabeça e buscou dar outra volta para entrar na sala ao pé; Jorge, porém, interceptou-lhe de novo o caminho.
— Deixe-me passar, disse ela sem cólera nem súplica.
Jorge recusara até a porta, única das três que estava aberta. Era arriscado o que fazia; mas, além de que Valéria e o mestre estavam no pavimento superior, — ele ouvia-lhes os passos, — perdera naquela ocasião toda a lucidez de espírito. Era deserto o lugar, e naturalmente seria longo o tempo de que poderia dispor para lhe dizer tudo. Mas os lábios ficaram cerrados alguns instantes, enquanto os olhos diziam a eloqüência da paixão mal contida e prestes a irromper.
Não insistiu Estela, mas ficou diante dele, quieta e sem arrogância, como esperando ser obedecida. Jorge quisera-a suplicante ou desvairada; a tranqüilidade feria-lhe o amor-próprio, fazendo-lhe ver que o perigo era nenhum, e revelando, em todo caso, a mais dura indiferença. Quem era ela para o afrontar assim? Era a segunda vez que seu espírito formulava essa pergunta; tinha-a feito nas primeiras auroras da paixão. Desta vez a resposta foi deplorável. Cravando os olhos em Estela, disse com voz trêmula, mas imperiosa:
— Não há de sair daqui, sem me dizer se gosta de mim. Vamos; responda! Não sabe o que lhe pode custar esse silêncio?
Não obtendo resposta, continuou depois de alguma pausa:
— É animosa! Saiba que posso vir a odiá-la e que talvez já a odeio; saiba também que posso tirar vingança de seus desprezos, e chegarei a ser cruel se for necessário.
Estela suspirou apenas, e foi encostar-se ao parapeito, a olhar para a chácara. Sua intenção era não irritá-lo, com a resposta seca e má que lhe ditava o coração, e esperar que Valéria descesse. Entretanto, na posição em que ficara tinha as costas voltadas para Jorge, circunstância que não era intencional, mas que pareceu a este um simples meio de lhe significar o seu desdém. A irritação de Jorge foi grande. Após uns dous ou três minutos de silêncio, Jorge caminhou na direção do parapeito, onde estava Estela, com a cabeça inclinada, a beijar a cabeça dos pombos, que tinha encostados ao seio. Deteve-se, sem que a moça mudasse de posição. Contemplou-a ainda um instante, e se Estela olhasse para ele veria que a expressão dos olhos era de respeitosa ternura e nada mais.
Esse instante, porém, voou depressa, e com ele a consideração. Inclinando-se para a moça, Jorge afetou um modo que não era nem de sua educação nem de sua índole, mas só do despeito, que lhe fazia ferver o sangue naquela hora cruel; inclinou-se e disse:
(continua...)
ASSIS, Machado de. Iaiá Garcia. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1878.