Por Machado de Assis (1876)
A notícia da volta de Mendonça encheu de contentamento o sobrinho de D. Úrsula. D. Úrsula estava então na sala de costura, relendo algumas páginas do seu Saint-Clair, encostada a uma mesa. Do outro lado, ficava Helena, a conduir uma obra de crochet.
Titia, disse ele, dou-lhe uma novidade agradável para mim.
Que é?
O Mendonça chegou a Pernambuco; está aqui dentro de pouco tempo.
O Mendonça?
Luís Mendonça.
O que foi para a Europa, sei. Há quanto tempo?
Dois anos.
Dois anos! Parece que foi ontem.
Não lhe leio a carta que me escreveu por ser muito longa. Diz-me que devo ir também à Europa, quanto antes. Querem ir?
Eu? disse D. Úrsula, marcando a página do livro com os óculos de prata que até então conservara sobre o nariz. Não são folias para gente velha. Daqui para a cova.
A cova! exclamou Helena. Está ainda tão forte! Quem sabe se não me há de enterrar primeiro?
Menina! exclamou D. Úrsula em tom de repreensão. Helena sorriu de alegria e agradecimento; era a primeira palavra de verdadeira simpatia que ouvia a D. Úrsula. Bem o compreendeu esta; e talvez a mortificou aquela espontaneidade do coração. Mas era tarde. Não podia recolher a palavra, não podia sequer explicá-la.
Que tal virá o teu amigo? perguntou ela ao sobrinho. Era bom rapaz antes de ir; um pouco tonto, apenas.
Há de vir o mesmo, respondeu Estácio; ou ainda melhor. Melhor decerto, porque dois anos mais modificam o homem.
Estácio fez aqui um panegírico do amigo, intercalado com observações da tia, e ouvido silenciosamente pela irmã. Vieram chamar para o chá. D. Úrsula largou definitivamente o seu romance, e Helena guardou o crochet na cestinha de costura.
Pensa que gastei toda a tarde em fazer crochet? perguntou ela ao irmão, caminhando para a sala de jantar.
Não?
Não, senhor; fiz um furto.
Um furto!
Fui procurar um livro na sua estante.
E que livro foi?
Um romance.
Paulo e Virgínia?
Manon Lescaut.
Oh! exclamou Estácio. Esse livro...
Esquisito, não é? Quando percebi que o era, fechei-o e lá o pus outra vez.
Não é livro para moças solteiras.
Não creio mesmo que seja para moças casadas, replicou Helena rindo e sentando- se à mesa. Em todo o caso, li apenas algumas páginas. Depois abri um livro de geometria... e confesso que tive um desejo...
Imagino! interrompeu D. Úrsula.
O desejo de aprender a montar a cavalo, concluiu Helena.
Estácio olhou espantado para a irmã. Aquela mistura de geometria e equitação não lhe pareceu suficientemente clara e explicável. Helena soltou uma risadinha alegre de menina que aplaude a sua própria travessura.
Eu lhe explico, disse ela; abri o livro, todo alastrado de riscos que não entendi. Ouvi porém um tropel de cavalos e cheguei à janela. Eram três cavaleiros, dois homens e uma senhora. Oh! com que garbo montava a senhora! Imaginem uma moça de vinte e cinco anos, alta, esbelta, um busto de fada, apertado no corpinho de amazona, e a longa cauda do vestido caída a um lado. O cavalo era fogoso; mas a mão e o chicotinho da cavaleira quebravam-lhe os ímpetos. Tive pena, confesso, de não saber montar a cavalo.
Quer aprender comigo?
Titia consente?
D. Úrsula levantou os ombros com o ar mais indiferente que pôde achar no seu repertório. Helena não esperou mais.
Escolha você o dia.
Amanhã?
Amanhã.
Estácio costumava dar uns passeios a cavalo quase todas as manhãs. O do dia seguinte foi dispensado; começariam as lições de Helena. Antes disso, porém, escreveu Estácio à filha de Camargo uma carta recendente a ternura e afeto. Pedia-lhe desculpa do que se passara na véspera; jurava-lhe amor eterno; coisas todas que lhe dissera mais de uma vez, com o mesmo estilo, se não com as mesmas palavras. A carta dissipou-lhe a última sombra de remorso. Antes que ela chegasse ao seu destino, reconciliara-se ele consigo mesmo. O portador saiu para o Rio Comprido, e ele desceu ao terreiro que ficava nos fundos da casa, ao pé do qual estava situada a cavalariça. Naquele lado da casa corria a varanda antiga, onde a família costumava às vezes tomar café ou conversar nas noites de luar, que ali penetrava pelas largas janelas. Do meio da varanda descia uma escada de pedra que ia ter ao terreiro.
Já ali estava Helena. D. Úrsula emprestara-lhe um vestido de amazona, com que algumas vezes montara, antes da morte do irmão. O vestido ficava-lhe mal; era folgado demais para o talhe delgado da moça. Mas a elegância natural fazia esquecer o acessório das roupas.
Pronta! exclamou Helena apenas viu o irmão assomar no alto da escada.
Oh! isso não vai assim! respondeu Estácio. Não suponha que há de montar já hoje como a moça que ontem viu passar na estrada. Vença primeiramente o medo.
Não sei o que é medo, interrompeu ela com ingenuidade.
Sim? Não a supunha valente. Pois eu sei o que ele é.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Helena. Rio de Janeiro: Garnier, 1876.