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#Comédias#Literatura Brasileira

Romance de uma Velha

Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)

BRAZ – Vamos procurá-lo; aceita o meu braço? pode aceitá-lo, não é de artífice, nem de artista, mas é de arteiro et coetera...

IRENE – Seja o que quiser; tenha a bondade de me levar a meu irmão.

BRAZ – Iremos pelo caminho mais longo para chegar mais depressa; até já, madrinha; verei se consigo serenar este anjinho encolerizado; menina, fui amigo de seu pai... no outro tempo... (Indo-se com Irene) antes não tivesse sido, e contasse trinta anos de menos... porque em tal caso, palavra de honra, tomava a enxó de carpinteiro, ou o buril de estatuário, para viver no seu horizonte. ( Vão-se os dois)

CENA V

VIOLANTE e AUGUSTO

AUGUSTO – Enfim, minha senhora, a fortuna, desde duas horas cruel, me depara o ensejo mais ardentemente almejado.

VIOLANTE – Para que, sr. doutor?

AUGUSTO – Para assegurar a v. ex. a profunda energia do terno sentimento que me inspirou e a pureza das minhas intenções...

VIOLANTE – Eu não compreendo... e a perturbação... o vexame... seria possível, sr. doutor?

AUGUSTO – A minha maior glória fora merecê-la em casamento...

VIOLANTE – A proposição me lisonjeia... mas quando penso que vou fazer sessenta e três anos daqui a dois meses.

AUGUSTO – Diana de Poitiers era bela nessa idade e Ninon de Lenclos inspirou ardente paixão aos oitenta anos.

VIOLANTE – Por fim de contas, não conheci essas senhoras...

AUGUSTO – É natural; elas floresceram em outros séculos.

VIOLANTE – Mas aposto que não usavam, como eu, de óculos e touca; ah, sr.

doutor, quando o considero tão jovem, e tão bonito, com tanto direito a ser esposo de alguma linda moça...

AUGUSTO – Não me conhece ainda; jovem, tenho já austeros costumes; aborrecem-me essas meninas, para quem a vida consiste em vaidades e loucuras; o meu belo ideal é a majestade da senhora que passou além dos limites da idade dos desvarios; excelentíssima, nós nascemos um para o outro; v. ex. é para mim o páramo da vida tranqüila, a beatificação pela serenidade; eu sou o desinteresse que assegura a dedicação, o amor que garante a felicidade, e a ciência do direito que defenderá sem ambição a sua fortuna ameaçada pelos velhacos que enchem o mundo, e dos quais sou mortal inimigo.

VIOLANTE – Eu me sinto comovida... a ventura é tão grande... tão inesperada...

AUGUSTO – (Ajoelhando-se.) – Oh! serei pois tão ditoso!... (Beijando a mão de

Violante.)

VIOLANTE (Suspendendo-o.) – Tenha dó da minha reputação... e dos tormentos do meu pudor; o seu pedido exige reflexão... deixe-me pensar... agora não estou em mim... mas... aqui mesmo... nesta varanda, receberá a minha resposta às duas horas da madrugada em ponto.

AUGUSTO – Que bárbaro adiamento da bem-aventurança que me sorria...

VIOLANTE – Também a mim me custa... creia; dou-lhe a mão a beijar para consolar-nos... mas depressa... que não chegue alguém...

AUGUSTO (Beijando a mão.) – Delícia! delícia! VIOLANTE – Aí vem minha sobrinha...

AUGUSTO – Até às duas horas. (Vai-se.)

CENA VI

VIOLANTE e CLEMÊNCIA

CLEMÊNCIA – Muito bem, titia!

VIOLANTE – Estavas me espiando?

CLEMÊNCIA – Para que? a sua aparente vitória é manifesta: há meia hora Leopoldo, que simula desdenhar-me, fez-lhe em um passeio proposição semelhante à do dr. Augusto e recebeu a mesma resposta.

VIOLANTE – Por fim de contas uma hora antes Polidoro foi o primeiro.

CLEMÊNCIA – Acredito; mas porque a titia marcou aos dois e talvez também a Polidoro o mesmo lugar e a mesma hora para a decisão?...

VIOLANTE – Para te chamar e te pedir que me aconselhasses na escolha do noivo.

CLEMÊNCIA – Estás pois resolvida a casar-se?

VIOLANTE – Que pergunta! fala a verdade: no meu caso que farias?...

CLEMÊNCIA – Não sei responder, porque ainda não tenho a sua idade.

VIOLANTE – Fica pois sabendo que para a mulher o casamento é aos dez anos um brinquedo, aos quinze sonho dourado, aos vinte empenho aflitivo, aos trinta sede devoradora, aos quarenta desesperado desejo, e aos sessenta e daí por diante mais do que paixão, desatinada fúria; faze idéia, como estou entusiasmada! Clemência, em sinal de regozijo, proponho-te a anulação da nossa aposta.

CLEMÊNCIA – Rejeito esse favor, e peço outro: rogo-lhe que me conceda uma dilação.

VIOLANTE – Dilação de que?

CLEMÊNCIA – Da escolha do seu noivo; se se julga invencível, dê-me oito dias e verá que reconquisto os meus três apaixonados.

VIOLANTE – Oito dias é impossível, morro por casar-me; tu não me concederias oito horas, eu cedo três dias à tua louca vaidade.

CLEMÊNCIA – Três dias?... aceito. Confio na sua palavra; mas trema, titia, porque perdeu as suas vantagens. Veja bem, que tenho três dias. (Vai-se.)

VIOLANTE – Eu te daria trezentos sem receio de ser vencida. ( Vai-se)

CENA VII

POLIDORO e LEOPOLDO

(continua...)

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