Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)
Coitadinha! todos contra ela: Helena, que era a ilhoa mais áspera e desalmada, querendo-a todo o transe casada com o irmão, vigiava incessantemente a filha e não a deixava pôr pé em ramo verde.
As moças aproveitam ainda o mais fraco recurso para satisfazer sua vaidade de boniteza, e o único recurso de Águeda era, duas ou três vezes por dia, e quando a mãe se achava mas atarefada, correr por minutos à sua saleta do sótão, e pondo-se à grade da janela, mostrar seu rosto, seu colo e seus ombros aos que por acaso passavam pela Rua dos Latoeiros.
Quase sempre atrás da menina era mandada a escrava, que, ao vê-la à janela, benzia-se, dizendo:
- Ah, Nené! você faz pecado! olha senhô João!
Águeda ria-se.
Oh! mas é claro, que Jacoba era mais vigilante e mais terrível do que o dragão das Hesperides, e tanto que João Fusco para experimentá-la já tinha pago falazes tentativas de sedução para recados à Águeda, e a negra se mostrava sempre incorruptível e ameaçadora de denunciar à mãe e ao tio da menina.
Que escrava modelo!... ela porém quase tanto como Helena criara em seu colo Águeda, e amava-a com idolatria de quase avó.
Ainda mesmo com os seus varões de ferro as duas janelas do fundo do sótão da casa de João Fusco tornaram célebre a beleza de Águeda, na cidade do Rio de Janeiro.
Fora daquelas janelas, e aí mesmo, através das grades, e só por breves minutos, ninguém conseguia ver a sabida noiva de João Fusco, que apenas aos domingos saia com a irmã e com a sobrinha para ouvir missa na Igreja de S. José; mas então irmã e sobrinha levavam mantilhas e véus impenetráveis.
E nem a simples hipótese de amigo vento em socorro de Águeda!
Ao entrar na igreja era sempre o sacristão (santo rapaz, sobrinho do vigário, e que não levantava os olhos do chão) quem apresentava às duas senhoras o hissope para que elas se persignassem com água-benta.
Foi num desses momentos rápidos de oferecimento e tomada de água-benta que o libertino Alexandre Cardoso, sem poder apreciar bem, adivinhou a beleza de Águeda.
Dias depois ele viu-lhe o rosto à janela do sótão, e, aceso em criminosas flamas, resolveu seduzi-la e apoderar-se dela.
Perdeu tempo, mandando tentar a todo o preço a conivência e o concurso da negra Jacoba.
Perdida a esperança de entrar pelo portão, determinou introduzir-se pela porta da frente.
E foi jogar na casa de João Fusco.
A roda dos jogadores não era indigna; toda, porém, de gente da classe média, e de banca modesta, estava longe de satisfazer o oficial da sala, freqüentador de sociedade aristocrática e jogador delirante.
Todavia, Alexandre Cardoso voltou a jogar em casa de João Fusco mais de dez vezes, perdendo quase sempre cem, duzentos e muitos mais cruzados.
O jogo durava ali até muito depois da meia-noite; mas de ordinário Alexandre Cardoso, quando perdia, retirava-se antes de terminada a banca.
Já se desenganara do esperançoso plano de chegar a introduzir-se, mercê do jogo, no interior da casa, porque a banca tinha por limite absoluto o fundo da saleta contígua à loja, e a porta de comunicação interna sempre estava trancada; já estava disposto a libertar-se do sacrifício daquele jogo plebeu, quando uma noite, saindo pouco antes da meia-noite da banca de João Fusco, ao tomar no Largo da Carioca a Rua da Cadeia viu um vulto de homem embuçado ao portão do quintal da casa que era o seu objetivo.
Alexandre Cardoso recuou, e, pregando-se à quina da Rua dos Latoeiros, estendeu o pescoço, adiantou a cabeça até os olhos, e apurando a vista, e no silêncio geral aproveitando o ouvido, observou curioso...
O vulto bateu de leve e compassadamente três vezes no portão, que quase logo se abriu com abafado ruído da chave...
O vulto entrou, e o portão se trancou com o mesmo cuidado.
Alexandre Cardoso estava informado de que havia bravíssimo cão no quintal, mas não ouviu nem latido, nem enfezado rosnar de cão.
- É um amante feliz! disse entre si com ciúme e contusão o soberbo oficial da sala do vice-rei.
Havia explicável erro no pensamento íntimo de Alexandre Cardoso. Águeda não era vítima de um sedutor; mas, graças à segunda chave fabricada por artifícios de exaltado amor, e confiada à velha escrava protetora, a menina recebia algumas vezes em entrevistas o escolhido de seu coração, e seu desejado noivo.
Helena cansada dos trabalhos do dia inteiro, desde que dormia, era sono de pedra; João Fusco, desde que começava a jogar, e tinha no bolso a chave do portão, só ia aos fundos da casa, se o Degola rosnava, ou assanhava-se no quintal; a negra Jacoba velava protegendo o amor da menina: em noites ajustadas, ouvindo os três toques de sinal, abria o portão que outra vez trancava depois de dar entrada a um mancebo, e enquanto ia anunciá-lo a Águeda, o Degola festejava o seu já conhecido, que lhe trazia sempre algum regalo à gulodice canina.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Memórias da Rua do Ouvidor. Rio de Janeiro: [s.n.], 1878. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7544 . Acesso em: 4 jan. 2026.