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#Contos#Literatura Brasileira

Encher tempo

Por Machado de Assis (1876)

Aqueles versos foram lidos e relidos na alcova pela inspiradora deles, que com eles sonhou durante a noite inteira, e acordou com eles na memória. No coração, leitor, no coração devo eu dizer que eles estavam, e mau é quando os versos entram pelo coração, porque atrás deles pode ir o amor. Lulu sentiu alguma coisa que se parecia com isso. O que é triste e prosaico, o que eu devia excluir da novela, é a constipação do filho de D. Emiliana, uma forte constipação que apanhou nos seus passeios noturnos, e que o reteve em casa no dia seguinte. Fazê-lo adoecer de incerteza ou de qualquer outra coisa moral era talvez mais digno do papel; mas o rapaz constipou-se, e não há remédio senão admitir a coriza, suprimindo todavia as mezinhas que a mãe lhe deu e os discursos com que as temperou. 

Os tais discursos não eram agradáveis de ouvir. Pedro não saíra ostensivamente de casa na noite sacrificada ao capricho de Lulu; deitou-se à hora de costume e meia hora depois, quando sentiu a família acomodada, levantou-se e, graças à cumplicidade de um escravo, saiu à rua. De manhã voltou, dizendo que saíra cedo. Mas os olhos com que vinha, e o longo sono que dormira em toda a manhã até às horas do jantar, descobriram toda a verdade aos olhos perspicazes de D. Emiliana. 

— Padre! dizia ela; e um mariola destes quer ser padre! 

Constipado o rapaz, deixou de sair dois dias; e não saindo ele, a moça deixou de rir ou sorrir sequer, enquanto o primo temperava a gravidade do seu aspecto com desusada alegria e singular agitação, que nada pareciam ter com Lulu. O tio aborreceu-se com esta aparência de arrufos; achou pouca generosidade da parte de Alexandre, em mostrar-se jovial e descuidado, quando a moça parecia preocupada e triste, e resolveu acarear os dois corações e dizer-lhes francamente o que a respeito deles pensava, na primeira oportunidade que se lhe oferecesse.

IX 

A noite seguinte foi de amargura para Lulu, que ouviu ao primo dizer baixinho ao filho de D. Emiliana: 

— Preciso falar-lhe. 

— Pronto. 

— A sós. 

— Quando quiser. 

— Esta mesma noite. 

Pedro fez um gesto de assentimento. 

O tom da voz de Alexandre não revelava cólera; todavia, como ele dizia gravemente as coisas mais simples, Lulu estremeceu ao ouvir aquele curto diálogo e teve medo. Que haveria entre os dois logo que dali saíssem? Receosa de algum ato de vingança, a moça tratou nessa noite o primo com tamanha afabilidade que as esperanças do padre Sá renasceram, e Pedro cuidou ter perdidas todas as que ele tinha. Ela tentou prolongar a visita dos dois; mas reconheceu que era inútil o meio e que, uma vez saídos dali, qualquer que fosse a hora, podia dar-se o que ela receava. 

Teve outra idéia. Saiu repentinamente da sala e foi direito a tia Mônica. — Tia Mônica, disse a moça; venho pedir-lhe um grande favor. 

— Um favor, nhanhã! Sua preta velha obedecerá ao que lhe mandar. — Quando meu primo sair daqui com o senhor Pedro você vai acompanhá-los. — Jesus! Para que? 

— Para ouvir o que eles dizem, e ver o que houver entre eles, e gritar por socorro se houver algum perigo. 

— Mas... 

— Por alma de minha mãe, suplicou Lulu. 

— Mas não sei... 

Lulu não ouviu o resto; correu à sala. Os dois rapazes, já de pé, faziam as suas despedidas ao padre e despediram-se dela até ao dia seguinte; este dia seguinte ecoou funebremente no espírito da moça. 

Tia Mônica vestira à pressa uma mantilha e desceu atrás dos dois rapazes. La resmungando, receosa do que fazia ou do que podia acontecer, nada compreendendo daquilo, e entretanto, cheia do desejo de obedecer à vontade de sinhá moça. O padre Sá estava mais jovial do que nunca. Logo que ficou a sós com a sobrinha, disse lhe dois gracejos paternais, que ela ouviu com um sorriso à flor dos lábios; e o serão acabou logo depois. 

Lulu recolheu-se ao quarto, sabe Deus e imagina o leitor com que medos no coração. Ajoelhou diante de uma imagem da Virgem e orou fervorosamente... por Pedro? Não, por um e outro, pela vida e paz dos dois moços. O que não se sabe é se pediu alguma coisa mais. Provavelmente, não; o maior perigo naquela ocasião era aquele. A oração pacificou-lhe a alma; recurso poderoso que só conhecem as almas crentes e os corações devotos. Aquietada, esperou a volta de tia Mônica. As horas, entretanto, correram lentas, e desesperadoras. A moça não saiu da janela salvo duas ou três vezes para vir de novo ajoelhar-se diante da imagem. Meia-noite bateu e começou a primeira hora do dia seguinte sem que o vulto da boa preta aparecesse ou o som de seus passos interrompesse o silêncio da noite. 

O coração da moça não pôde resistir mais; as lágrimas brotaram dela ardentes, precipitadas e ela atirou-se à cama toda entregue ao seu desespero. Sua imaginação pintava-lhe os quadros mais tristes; e pela primeira vez sentiu ela toda a intensidade do novo sentimento que a dominava. 

(continua...)

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