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#Crônicas#Literatura Brasileira

Crônica do Viver Baiano Seiscentista

Por Gregório de Matos (1650)

como postas de cação.



AOS MESMOS PADRES HOSPEDES ENTRE OS QUAIS VINHA O Pe PERICO, QUE ERA PEQUENINO.



Vieram Sacerdotes dois e meio

Para a casa do grande sacerdote,

Dous e meio couberam em um bote,

Notável carga foi para o granjeiro.



O barco, e o Arrais, que ia no meio,

Tanto que em terra pôs um, e outro zote,

Se foi buscar a vida a todo o trote,

Deixando a carga, o susto, e o recreio.

Assustei-me em ver tanta clerezia,

Que como o trago enfermo de remela,

Cuidei, vinham rezar-me a agonia.



Porém ao pôr da mesa, e postos nela,

Entendi, que vieram da Bahia

Não mais que por papar a cabidela.



AO MESMO VIGÁRIO GALANTEIA O POETA FAZENDO CHISTES DE UM MIMO, QUE LHE MANDARA BRITES UMA GRACIOSA COMADRE SUA, ENTRE O QUAL VINHA PARA O POETA UM CAJÚ.



Ao Padre Vigário a flor,

ao pobre Doutor o fruto,

há nisto, que dizer, muito,

e dirá muito o Doutor:

tenho por grande favor,

que a título de compadre

deis, Brites, a flor ao Padre:

mas dando-me o fruto a mim,

o que se me deu assim,

é força, que mais me quadre.



Quadra-me, que o fruto influa,

que uma flor, que eu não queria,

Se dê, a quem principia

e o fruto, a quem continua:

se o fruto faz, que se argua,

que eu sou o dono da planta,

a flor seja tanto, ou quanta,

sempre o dono a quer perdida,

porque pelo chão caída

faz, que o fruto se adianta.



Quem é do fruto Senhor

sabe as Leis d'agricultura,

que todo o fruto assegura,

e despreza toda a flor:

e inda que chamam favor

dar a sua flor a Dama

àquele, por quem se inflama

eu entendo de outro modo,

e ao fruto mais me acomodo,

que honra, e proveito se chama.



Porque na testa vos entre

o mistério, que isto encerra,

quem me dá o fruto da terra,

me pode dar do seu ventre:

e porque se reconcentre

este vaticínio imundo

no vosso peito fecundo,

digo qual bem augureiro,

que quem me deu o primeiro,

me pode dar o segundo.



O Padre andou muito tolo

em vos estimar a flor,

porque era folha o favor,

e o meu todo era miolo:

com meu favor me consolo

de sorte, e tão por inteiro,

que afirmou por derradeiro,

que um favor, e outro suposto,

eu levo de vós o gosto,

e o Padre vigário o cheiro.



Eu do Vigário zombei,

porque vejo, que levou

uma flor, que se murchou,

e eu o fruto vos papei:

este exemplo lhe gravei,

y este desengaño doy

dela dicha, em que me estoy

cantando a su flor ansi,

que ayer maravilla fui,

y oy sombra mia aun no soy.



AO CELEBRE FR. JOANICO COMPREENDIDO EM LISBOA EM CRIMES DE SODOMITA.



Furão das tripas, sanguessuga humana,

cuja condição grave, meiga, e pia,

sendo cristel dos Santos algum dia,

hoje urinol dos presos vive ufana.



Fero algoz já descortês profana

Sua imagem do nicho da enxovia,

Que esse amargoso traje em profecia

Com a lombriga racional se dana.

Ah, Joanico fatal, em que horóscopos,

Ou porque à costa, ou porque à vante deste,

Da camandola Irmão quebraste os copos.



Enfim Papagaio humano te perdeste,

Ou porque enfim darias nos cachopos,

Ou porque em culis mundi te meteste.



A FR. PASCAL QUE SENDO ABADE DE N. S. DAS BROTAS HOSPEDOU ALI COM GRANDEZA A D. ANGELA, E SEUS PAIS, QUE FORAM DE ROMARIA À AQUELE SANTUÁRIO.



Prelado de tan alta perfecion,

Que supo em un aplauso, en un festin

Congregar en su casa um serafin

Cercado de tan alta relacion:

Ya mas tenga en su cargo dissension,

Ni en sus Fraylecitos vea motin:



Ninguno Hijuelo suyo sea ruin,

Y los crie en su santa bendicion.

Llena estè la cosina de sarten,

Y siempre el refectorio abunde en pan,

Que bien merece Frayle tan de bien.



A quien el sacro bago se le dan

Regir la casa santa de Belém,

Y que ya sela quite al soliman.



A FR. TOMAS D'APRESENTAÇÃO PREGANDO EM TERMOS LACONICOS A PRIMEYRA DOMINGA DA QUARESMA.



Padre Tomás, se Vossa Reverência

Nos pregar as Paixões desta arte mesma,

Viremos a entender, que na Quaresma

Não há mais pregador do que vossência.



Pregar com tão lacônica eloqüência

Em um só quarto, o que escrevo em resma,

À fé, que o não fazia Frei Ledesma,

Que pregava uma resma de abstinência.



Quando pregar o vi, vi um São Francisco,

(continua...)

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