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#Sermões#Retórica

Sermão da Primeira Dominga da Quaresma

Por Padre Antônio Vieira (1655)

85. Não digo eu pôr a salvação da alma em dúvida. Ainda que algum de nós soubera de certo, e tivera revelação que a sua alma se não havia de salvar, só por ser alma, a não havia de dar por nenhum preço do mundo. Ouvi uma ponderação que me faz tremer. É de fé que o Filho de Deus morreu por todos os homens. Assim o definiu Inocêncio Décimo em nossos dias, contra o erro dos jansenistas, e assim o diz expressamente S. Paulo em dois lugares de suas epístolas: na segunda ad Chorinthios, capítulo cinco: Christus pro omnibus mortuus est;24 e na primeira ad Thimotheum, capítulo dois: Qui dedit redemptionem semetipsum pro omnibus.25 Todos os homens quantos há, e houve, e há de haver no mundo, ou são predestinados que se hão de salvar, ou são precitos que se hão de perder. Que Cristo morresse pelas almas dos predestinados, bem está: são almas que se hão de salvar, e que hão de ver, e gozar, e amar a Deus por toda a eternidade; mas morrer Cristo, e dar o preço infinito de seu sangue também pelas almas dos precitos? Sim. Morreu pelas almas dos predestinados, porque são almas que se hão de salvar; e morreu também pelas almas dos precitos, porque, ainda que se não hão de salvar, são almas. Nos predestinados, morreu Cristo pela salvação das almas; nos precitos, morreu pelas almas sem salvação, porque é tão grande o valor das almas por si mesmas, ainda sem o respeito de se haverem de salvar, que deu Deus por bem empregado ou por bem perdido nelas o preço infinito de seu sangue. Grande exemplo em uma alma particular.

86. Fez Cristo por Judas os extremos que todos sabem; mas nem todos os ponderam como merecem. Se Cristo tiver certeza de que Judas se havia de salvar, bem empregadas estavam todas aquelas despesas de trabalho e de amor. E se, quando menos, a salvação de Judas estivera duvidosa, também era bem-aventurar todas aquelas diligências na contingência dessa dúvida. Mas Cristo sabia de certo que Judas era precito e se havia de condenar. Pois, Senhor, como empregais e despendeis tantas vezes o preço infinito de vossas palavras, de vossas ações e de vossas lágrimas com esse infeliz homem? Não sabeis que se há de perder a sua alma? Sim, sei; mas, ainda que se há de perder; é alma. A certeza da sua perdição não lhe tirou o ser, antes acrescenta a dor de tamanha perda. E que haja ainda almas que se queiram perder certamente? Que haja ainda tantos Judas, que dêem entrada ao demônio em suas almas, não por todo o mundo, nem por trinta dinheiros, mas por outros preços mais vis e mais vergonhosos?

87. Ora, cristãos, se uma alma, ainda sem o respeito da salvação, vale tanto, as nossas almas, que pela misericórdia de Deus ainda estão em estado de salvação, por que as estimamos tão pouco? Que nos fizeram as nossas almas, para lhes querermos tanto mal, para as desprezarmos tanto? Cristo estima infinitamente a minha alma mais que todo o mundo; o mesmo demônio estima também mais a minha alma que todo o mundo, e só eu hei de estimar todas as coisas do mundo mais que a minha alma? Que coisa há neste mundo tão vil, ou seja da vida, ou seja da honra, ou seja do interesse, ou seja do gosto, que a não estimemos mais que a alma, e que não vendamos a alma por ela? Ponhamos os olhos em um Cristo crucificado, e aprendamos naquela balança a pesar e estimar nossa alma. Como está Cristo na cruz? Despido, afrontado, atormentado, morto: despido pela minha alma, para que eu estime mais a minha alma que o interesse; afrontado pela minha alma, para que eu estime mais a minha alma que a honra; atormentado pela minha alma, para que eu estime mais a minha alma que os gostos; morto pela minha alma, para que eu estime mais a minha alma que a vida. Oh! pesemos, e pesemos bem o que é, e o que há de ser o mundo, o que é, e o que há de ser a nossa alma. Seja esta a principal devoção desta quaresma, e seja também a principal penitência. Não vos peço que nesta quaresma acrescenteis as devoções nem as penitências: só uma comutação delas vos peço, e é que tomeis na mão aquela balança. Tomemos sequer meia hora cada dia, para nos fecharmos conosco e com a nossa alma, e para tratarmos dela e com ela. Diz S. João no Apocalipse: Factum est silentium in caelo quasi media hora (Apc. 8,1): que se fez silêncio no céu por espaço de meia hora, enquanto se tratava das petições da terra. Se no céu, onde tudo é segurança é felicidade, se toma meia hora para tratar da terra, na terra, onde nada é seguro e tudo é miséria, porque se não tomará meia hora para tratar do céu? De vinte e quatro horas do dia, não lhe bastaram ao corpo vinte e três e meia, e a pobre alma não terá sequer meia hora? E que seja necessário que isto se vos esteja rogando e pedindo, e que não baste? Ora, fiéis cristãos, façamo-lo assim todos nesta quaresma, para que também a quaresma seja cristã. Consideremos que a nossa alma é uma só, que esta alma é imortal e eterna, que a união que tem esta alma com o corpo – a que chamamos vida – pode desatar-se hoje; que todas as coisas deste mundo cá hão de ficar, e só a nossa alma há de ir conosco; que a esta alma a espera uma de duas eternidades: se formos bons, eternidade de glória, se formos maus, eternidade de pena. É isto verdade ou mentira? Cremos que temos alma, ou não o cremos? São estas almas nossas, ou são alheias? Pois que fazemos?

(continua...)

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