Por Padre Antônio Vieira (1673)
Só resta o mais dificultoso laço de desatar, ou cortar, que são os que vós chamais gostos da vida, os quais, se ela se acaba, também acabam: Post mortem nulla voluptas.25 Ajude-me Deus a vos desenganar deste ponto, e seja ele, como é, o último. Se nesta vida (vede o que digo) se nesta vida, e neste miserável mundo, cheio, para todos os estados, de tantos pesares, pode haver gosto algum puro e sincero, só os que acabam a vida antes de morrer a gozam. Para todos os outros é a vida e o mundo, vale de lágrimas; só para os que acabaram a vida antes da morte, é paraíso na terra. Dois homens houve só neste mundo que verdadeira e realmente acabaram a vida antes da morte: Henoc e Elias. Ambos acabaram esta vida há muitos anos, e ambos hão de morrer ainda no fim do mundo. E onde estão estes dois homens que acabaram a vida antes de morrer? Ambos, e só eles, estão no paraíso terreal, e com grande mistério. Porque se há e pode haver paraíso na terra, se há e pode haver paraíso neste mundo e nesta vida, só os que acabam a vida antes de morrer o logram. Oh! que vida tão quieta! Oh! que vida tão descansada! Oh! que vida tão feliz e tão livre de todas as perturbações, de todos os desgostos, de todos os infortúnios do mundo! Depois que Henoc acabou a vida no mundo, sucedeu logo nele a maior calamidade que nunca se viu, nem verá: o dilúvio universal. O mundo grande estava já afogado debaixo daquele imenso mar sem porto nem ribeira; o mundo pequeno, metido em uma arca, já subindo às estrelas, já descendo aos abismos, sem piloto, sem leme, sem luz, flutuava atonitamente naquela tempestade. Os montes soçobrados, as cidades sumidas; o céu de todas as partes chovendo lanças e fulminando raios. E só Henoc no meio de tudo isto, como estava? Sem perigo, sem temor; sem cuidado. Porque ainda que lhe chegassem lá os ecos dos trovões e o ruído da tormenta, nada disto lhe tocava. Eu já acabei com o mundo, o mundo já acabou para mim; que importa que se acabe para os outros? Lá se avenham com os seus trabalhos, pois vivem, que eu já acabei a vida. Neste tempo não era ainda nascido Elias. Nasceu Elias, viveu anos, e antes de morrer acabou a vida do mesmo modo. Mas, que não padeceu o mundo e a terra onde Elias vivia, depois deste seu apartamento? Veio contra Samaria, Senaquerib e Salmanasar; veio contra Jerusalém, Nabucodonosor: tudo guerra, tudo fomes, tudo batalhas, ruínas, incêndios, cativeiros, desterros. As dez tribos de Israel levadas aos assírios, donde nunca tornaram; as duas tribos de Judá e Benjamim, transmigradas à Babilônia, donde voltaram despedaçadas depois de setenta anos. Porém Elias, que noutro tempo o comia tanto o zelo e amor da pátria, estava-se no seu paraíso em suma paz, em suma quietação, em sumo sossego, em suma felicidade. Volte-se o mundo debaixo para cima, reine Joaquim, ou reine Salmanasar, reine Nabuco, ou reine Ciro, vença Jerusalém, ou vença Babilônia, vão uns e tornem, e vão outros para não tornar: que se lhe dá disso Elias? Quem tem acabado a vida, de todos esses vaivéns da fortuna está seguro.
O mesmo acontece, senhores meus, e o mesmo experimenta todo aquele que deveras se resolve a deixar o mundo ao mundo, e acabar a vida antes da morte. Não são necessários para isso arrebatamentos, como os de Henoc, nem carros de fogo, como o de Elias, senão uma valente resolução. Quem assim se resolve, goza como Henoc e Elias todos os privilégios de morto. Corra o mundo por onde correr, nenhuma coisa lhe empece, nem lhe dá cuidado. Um dos professores deste estado foi, como vimos, S. Paulo, e por isso, ainda vivo, dizia: Vivo autem, jam non ego (Gál. 2,20). E que quer dizer: Eu vivo, mas já não sou eu? Quer dizer, diz S. Bernardo: Ad alia quidem omnia mortuus sum: non sentio, non atrendo, nou curo: Todas as coisas deste mundo são para mim como para os mortos; nem as sinto, nem me dão cuidado, nem faço mais caso delas, que se não foram; porque se elas ainda são, eu já não sou. Considerai as imunidades dos mortos, e vereis o descanso de que gozam e os trabalhos de que se livram os que antecipam a morte. Vieram ao Calvário os executores de Pilatos para quebrar as canelas aos crucificados, e assim o fizeram a Dimas e Gestas com grandes dores daquele tormento, porque estavam ainda vivos (Jo. 19,31 s.). Ad Jesum autem cum venissent (Ibid 32), mas quando chegaram a Cristo, Ut viderunt eum jam mortuum, non fregerunt ejus crura: Como viram que estava já morto, não executaram nele aquela crueldade. – De quantos quebrantamentos, de quantas moléstias, de quantas sem-razões se livra quem está já morto! O epitáfio que eu pusera a um morto destes, é aquele verso de Davi:
Inter mortuos liber (Sl. 87, 6):
Entre os mortos livre. Livre dos cuidados do mundo, porque já está fora do mundo. Livre de emulações e invejas, porque a ninguém faz oposição. Livre de esperanças e temores, porque nenhuma coisa deseja. Livre de contingências e mudanças, porque se isentou da jurisdição da fortuna. Livre dos homens, que é a mais dificultosa liberdade, porque se descativou de si mesmo. Livre finalmente de todos os pesares e moléstias e inquietações da vida, porque já é morto.
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 30 ago. 2026.