Por Gregório de Matos (1696)
1 Que cantarei eu agora,
Senhora Dona Talia,
com que todo o mundo ria,
do pouco que Jelu chora:
inspira-me tu, Senhora,
aquele tiro violento,
que àJelu fez o Sargento;
mas que culpa o homem teve?
não fora ela puta leve,
para ser péla do vento.
2 Dizem, que ele pegou dela,
e que gafando-a no ar,
querendo a chaça ganhar
a jogou como uma péla:
fez chaça a branca Donzela
lá na horta da cachaça,
que mais de mil peças passa,
e tal jogo o homem fez,
que eu Ihe seguro esta vez,
que ninguém Ihe ganha a chaça.
3 Triste Jelu sem ventuta
ali ficou enterrada,
mas foi bem afortunada
de ir morrer à sepultura:
poupou a esmola do Cura,
as cruzes, e as confrarias,
pobres, e velas bugias,
e como era lazarenta,
depois de mui fedorenta
ressuscitou aos três dias.
4 Dizem, que depois de erguida
da morte se não lembrou,
que como ressuscitou,
se tornou à sua vida:
eu creio, que vai perdida,
e me diz o pensamento,
que há de ter um fim violento,
como se Ihe tem fadado,
ou nas solas de um soldado,
ou nas viras de um sargento.
RESSENTIDA TAMBEM COMO AS OUTRAS O POETA LHE DÀ ESTA SATISFAÇÃO
POR ESTILLO PROPORCIONADO AO SEU GENIO.
Jelu, vós sois rainha das Mulatas,
E sobretudo sois Deusa das putas,
Tendes o mando sobre as dissolutas,
Que moram na quitanda dessas Gatas.
Tendes muito distantes as Sapatas,
Por poupar de razões, e de disputas,
Porque são umas putas absolutas,
Presumidas, faceiras, pataratas.
Mas sendo vós Mulata tão airosa
Tão linda, tão galharda, e folgazona,
Tendes um mal, que sois mui cagarrosa.
Pois perante a mais ínclita persona
Desenrolando a tripa revoltosa,
O que branca ganhais, perdeis cagona.
AO PROVEDOR DA FAZENDA REAL FRANCISCO LAMBERTO FAZENDO NA
RIBEYRA O FAMOSO GALLEÃO S. JOÃO DE DEOS.
Fazer um passadiço de madeira,
Pelo qual se haja de ir daqui a Lisboa,
E fazermos pessoa por pessoa
Vizinhos de São Paulo, ou da Ribeira.
Esta alta ponte estável, e veleira
Tal virtude terá de popa a proa,
Que orbes avizinhando a esta coroa,
A esfera habitaremos derradeira.
Por esta ponte, e passadiço de ouro
Conduzireis os pomos mais fecundos
Que o de Vênus esférico tesouro.
E serão vossos anos tão jucundos
Em todo o Orbe, que o Planeta Louro
Dirá, que dais a Pedro novos mundos.
OUTRA MULATA, DE QUEM O POETA FALLA ENTRE AS BORRACHAS DO JUIZADO
DE NOSSA SENHORA DO EMPARO TAMBEM SE RESENTIO DA AFRONTA, E ELLE
À SATISFAZ AGORA NA MESMA FORMA.
1 Marta: mandai-me um perdão
em qualquer continha benta
tocada na vossa venta
passada por vossa mão:
porque ainda que a contrição
que tenho, de que entre nós
haja ofensa tão atroz,
é obra, que tanto monta,
que me hei de tocar a conta,
ou me hei de ir tocar em vós.
2 Quero, que me perdoeis,
e para me perdoar,
sendo ara do meu altar,
nela é força, me toqueis:
assim me indulgenciareis
por esta obra meritória,
que ofreço à vossa memória,
pela qual no foro externo
podeis livrar-me do inferno,
e levar-me à vossa glória.
3 Maldita seja a caraça,
que me meteu na cabeça;
que éreis vós, Marta, má peça,
para ir perder vossa graça:
e agora que a vista embaça
em tão alta galhardia,
praguejarei noite, e dia
a patifa, que me ordena,
que pegando então na pena
vos metesse na folia.
4 Vós sois a gala das Pardas,
e como sol das Mulatas
sombra fazeis às Sapatas,
que presumem de galhardas:
formosuras são bastardas
todas as mais formosuras,
mas eu tomara às escuras
topar vosso fraldelim,
porque novo para mim
assentara-lhe as costuras.
LOUVA O POETA OBSEQUIOZAMENTE O GRANDE ZELO, E CARIDADE, COM QUE
ANTONIO DE ANDRADE JUIZ, QUE ERA DOS ORPHÃOS DESTA CIDADE DA BAHIA
SENDO DISPENSEYRO DA SANTA CASA DE MISERICORDIA TRATAVA AOS
POBRES DOENTES DO HOSPITAL.
1 Senhor Antônio de Andrade,
não sei, se vos gabe mais
as franquezas naturais,
ou se a cristã caridade:
toda esta nossa Irmandade,
que a pasmos emudeceis,
vendo as obras, que fazeis,
não sabe decidir não,
se igualais o amor de Irmão,
ou se de Pai o excedeis.
2 Ou, Senhor, vós sois parente
de toda esta enfermaria,
ou vos vem por reta via
ser Pai de todo o doente:
quem vos vê tão diligente,
tão caritativo, e tão
inclinado à compaixão,
dirá de absorto, e pasmado,
que entre tanto mal curado,
só vós fostes homem são.
3 Aquela mesma piedade,
a que vos move um doente,
vos mostra evidentemente
homem são na qualidade:
de qualquer enfermidade
são aforismos não vãos,
que enfermaram mil Irmãos,
mas se o contrário se alude,
somente a vossa saúde
foi contágio de mil sãos.
(continua...)
MATOS, Gregório de. Andanças de uma viola de cabaça. In: Obra poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.