Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Sermões#Retórica

Sermão de Santo Inácio

Por Padre Antônio Vieira (1669)

Tenho acabado as duas partes do meu discurso, mas temo que não falte quem me argüa de que nesta última excedi os limites dele, porque as diferenças que acrescentei às semelhanças, parece que desfazem as mesmas semelhanças. Comparei Santo Inácio com os patriarcas santíssimos das outras religiões sagradas, e na mesma comparação parece que introduzi, ou distingui, alguma vantagem, mas isso é o que eu nego. Ainda que faço de meu santo patriarca a estimação que devo e sua santidade merece, e ainda que sei as licenças que concede o dia próprio ao encarecimento dos louvores dos santos, conheço porém, e reconheço, que nem eu podia pretender tal vantagem, nem desejar-lhe maior grandeza que a semelhança de tão esclarecidos exemplares, e isso o que só fiz. Digo pois, e protesto, que as diferenças que ponderei, posto que pareçam vantagens, não são mais que semelhanças; antes acrescento que nenhuma delas fora semelhança se não tivera alguma coisa de vantagem, porque essa é a prerrogativa dos que vieram primeiro. Santo Inácio veio depois, e muito depois daqueles gloriosíssimos patriarcas; e quem vem depois, se não excede, não iguala; se não é mais que semelhante, não é semelhante.

No capítulo 44 e no 45 do Eclesiástico, faz o texto sagrado um elogio geral de todos os patriarcas antigos, começando desde Enoc. E chegando a Moisés, diz assim: Similem illum fecit in gloria sanctorum (Eclo. 45,2): Fê-lo Deus semelhante aos outros santos na glória de suas obras. – Este é o elogio de Moisés, que não só parece moderado e curto, senão muito inferior e quase indigno da fama e das ações de um herói tão singularmente grande. Se lermos as histórias dos antigos patriarcas, acharemos que as ações e as maravilhas de Moisés excederam quase incomparavelmente às de todos os passados. Não me detenho em o demonstrar porque fora matéria muito dilatada, e me mortifico assaz em não fazer um paralelo de Moisés com Santo Inácio. Um que falava com Deus facie ad faciem (Gên. 32,30), outro que o viu tantas vezes. Um, legislador famoso; outro, singularíssimo legislador; um, conquistador da Terra de Promissão; outro, conquistador de novos mundos. Um, domador do Mar Vermelho; outro, do oceano e de tantos mares. Um, que cedeu a glória de seus trabalhos a Josué; outro, a Jesus. Um, que tirou do cativeiro seiscentas mil famílias; outro, famílias, cidades, e reinos sem conta. Um, que pelo zelo das almas, não duvidou em ser riscado dos livros de Deus; outro que não ficou atrás em semelhante excesso. Pois se Moisés excedeu tanto as glórias dos outros patriarcas, como não diz a Escritura que lhes foi avantajado, senão somente semelhante: Similem illum fecit in gloria sanctorum? Tudo isto não avançou mais que a fazer uma semelhança? Não. Porque os outros patriarcas foram primeiro, Moisés veio depois, e ainda que excedesse muito aos primeiros, não chegou mais que a ser semelhante. Se não excedera, fora menor; porque excedeu, foi igual. O excesso fez a semelhança, a maioria a igualdade. De todos os patriarcas das sagradas religiões, só um temos na Escritura, que é Elias. S. João Batista foi o maior dos nascidos, e essa maioria, comparada com Elias, onde o chegou? Não a ser maior que Elias, senão a ser como ele: Venit Joannes Baptista in Spiritu et virtute Eliae.24 Os que vêm depois, comparados com os que vieram antes, não se medem tanto por tanto, senão tanto por mais. Se fizestes mais, sois igual: se fizestes tanto, sois menos.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...910111213Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →