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#Sermões#Retórica

Sermão da Sexagésima

Por Padre Antônio Vieira (1655)

Dizei-me, pregadores (aqueles com quem eu falo indignos verdadeiramente de tão sagrado nome) dizei-me: estes assuntos inúteis, que tantas vezes levantais, essas empresas, ao vosso parecer agudas, que prosseguis, achaste-las alguma vez nos profetas do Testamento Velho, ou nos apóstolos e evangelistas do Testamento Novo, ou no Autor de ambos os Testamentos, Cristo? É certo que não, porque desde a primeira palavra do Gênesis até a última do Apocalipse, não há tal coisa em todas as Escrituras.

Pois se nas Escrituras não há o que dizeis e o que pregais, como cuidais que pregais a palavra de Deus? Mais. Nesses lugares, nesses textos que alegais para prova do que dizeis, é esse o sentido em que Deus os disse? É esse o sentido em que os entendemos Padres da Igreja? É esse o sentido da mesma gramática das palavras? Não, por certo, porque muitas vezes as tomais pelo que soam, e não pelo que significam, e talvez nem pelo que soam. Pois se não é esse o sentido das palavras de Deus, segue-se que não são palavras de Deus. E se não são palavras de Deus, que nos queixamos de que não façam fruto as pregações? Basta que havemos de trazer as palavras de Deus a que digam o que nós queremos, e não havemos de querer dizer o que elas dizem. E então ver cabecear o ouditório a estas coisas, quando devíamos de dar com a cabeça pelas paredes de as ouvir! Verdadeiramente não sei de que mais me espante, se dos nossos conceitos, se dos vossos aplousos. Oh! que bem levantou o pregador! Assim é: mas que levantou? Um falso testemunho ao texto, outro falso testemunho ao santo, outro ao entendimento e ao sentido de ambos. Então que se converta o mundo com falsos testemunhos da palavra de Deus? Se a alguém parecer demasiada a censura, ouça-me.

Estava Cristo acusado diante de Caifás, e diz o evangelista S. Mateus que por fim vieram duas testemunhas: Novissime venerunt duo falsi testes (Mt. 26,60). Estas testemunhas referiram que ouviram dizer a Cristo que, se os judeus destruíssem o Templo, ele o tomaria a reedificar em três dias. Se lermos o evangelista S. João, acharemos que Cristo verdadeiramente tinha dito as palavras referidas. Pois se Cristo tinha dito que havia de reedificar o Templo dentro de três dias, e isso mesmo é o que referiram as testemunhas, como lhes chama o evangelista testemunhas falsas: Duo falsi testes? O mesmo S. João deu a razão: Loquebatur de templo corporis sui (Jo. 2,21). Quando Cristo disse que em três dias reedificaria o templo, – falava o Senhor do templo místico de seu corpo, o qual os judeus destruíram pela morte, e o Senhor o reedificou pela ressurreição, e como Cristo falava do templo místico e as testemunhas o referiram ao templo material de Jerusalém, ainda que as palavras eram verdadeiras, as testemunhas eram falsas. Eram falsas, porque Cristo as dissera em um sentido, e eles as referiram em outro, e referir as palavras de Deus em diferente sentido do que foram ditas, é levantar falso testemunho a Deus, é levantar falso testemunho às Escrituras. Ah! Senhor, quantos falsos testemunhos vos levantam! Quantas vezes ouço dizer que dizeis o que nunca dissestes! Quantas vezes ouço dizer que são palavras vossas o que são imaginações minhas, que me não quero excluir deste número! Que muito logo, que as nossas imaginações e as nossas vaidades e as nossas fábulas não tenham a eficácia de palavra de Deus!

Miseráveis de nós, e miseráveis dos nossos tempos! Pois neles se veio a cumprir a profecia de S. Paulo: Erit tempus curo sanam doctrinam non sustinebunt (2 Tim. 4,3): Virá tempo, diz S. Paulo, em que os homens não sofrerão a doutrina sã: Sed ad sua desideria coacervabunt sibi magistros prurientes ouribus: mas para seu apetite terão grande número de pregadores feitos a montão e sem escolha, os quais não façam mais do que adular-lhes as orelhas: A veritate quidem ouditun avertent, ad fabulas outem convertentur: fecharão os ouvidos à verdade e abri-los-ão às fábulas. Fábula tem duas significações: quer dizer fingimento, e quer dizer comédia, e tudo são muitas pregações deste tempo. São fingimento, porque são subtilezas e pensamentos aéreos, sem fundamento de verdade: são comédia, porque os ouvintes vêm à pregação como à comédia, e há pregadores que vêm ao púlpito como comediantes. Uma das felicidades que se contava entre as do tempo presente, era acabarem-se as comédias em Portugal, mas não foi assim. Não se acabaram, mudaram-se, passaram-se do teatro ao púlpito. Não cuideis que encareço em chamar comédias a muitas pregações das que hoje se usam. Tomara ter aqui as comédias de Plouto, de Terêncio, de Sêneca, e veríeis se não acháveis nelas muitos desenganos da vida e vaidade do mundo, muitos pontos de doutrina moral, muito mais verdadeiros e muito mais sólidos do que hoje se ouvem nos púlpitos. Grande miséria, por certo, que se achem maiores documentos para a vida nos versos de um poeta profano e gentio que nas pregações de um orador cristão, e muitas vezes sobre cristão religioso!

(continua...)

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