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#Crônicas#Literatura Portuguesa

Crónicas de Londres

Por Eça de Queirós (1940)

Os jornais ordinariamente só dão notícia de alguma – que por certas qualidades revela um talento nascente – ou das que são tão extraordinariamente más que a sua exposição interessa como o estudo de um fenómeno curioso. Li uma deste género, publicada a semana passada: chama-se Gabriel e Eu. E uma autobiografia. «Gabriel» é um padre e «Eu» é a sua mulher Inês. É ela que conta a sua existência de namorada e de esposa – e tão singular é a acumulação de pieguice, de incongruências, de insensatezes, de sensaborias – que os três volumes tornam-se realmente uma leitura extraordinariamente interessante como estudo de um curioso caso de imbecilidade humana.

Os teatros não dão nada de notável.. Uma companhia francesa representa na Gayty o Ami Fritz, a célebre comédia de Erkmann-Chatrian, que fez antes da sua aparição um escândalo tão feio e teve depois um êxito tão pronunciado. É uma espécie de idílio alsaciano em que se comem imensos jantares, se bebem tonéis de cerveja – e um gordo e glutão bom rapaz ama a casa com uma doce rapariga. Mais nada. Tudo isto entre jardim e pomar, com quadros pitorescos dos costumes alsacianos e representado com aquela fina arte que é o segredo e a glória do Théâtre Français.

É uma peça boa para Paris para descansar os paladares abrasados: depois de peças ardentes de Dumas & Cª, depois de todos os picantes e todos os salgados da opérette – aquele bom amigo Fritz, cheio de bondade, de apetite e de sentimento, repousa e refresca. Mas em Londres – os paladares não estão esquentados, e não necessitam esta calma frescura; pelo contrário: o muito leite que têm bebido faz-lhes desejar alguma coisa que raspe. Por isso o Ami Fritz tem tido apenas um sucesso agradável, enquanto que os Dominós Cor-de-Rosa, que se dão no Criterion, têm um sucesso monstruoso. É picante. E o inglês está-se tornando ávido de picante.

A season continua, como dizem aqui, dull – isto é, faz bocejar. Uma das causas desta monotonia é sem dúvida a ausência e dispersão da família real.

A corte é o centro da season: sem ela o high-life de Londres está como uma vela a que falta o vento.

A princesa de Gales está em Atenas: o príncipe de Edimburgo no Egipto, o duque de Connaught na Irlanda e a rainha na Escócia. A sua partida para a Escócia foi mesmo origem de um artigo do Spectator que me ia matando de espanto. A imprensa inglesa não fala da família real senão de joelhos: imagine-se, pois, o horror, a estranheza, a boca-aberta que me causou o Spectator, dizendo, com uma frieza extraordinária e amarga – que a partida da rainha, para o fundo da Escócia, no momento de uma tão grande crise na Europa era uma alta inconveniência; que o seu primeiro-ministro, cheio de gota e de confiança na sua soberana, era obrigado a fazer todas as semanas uma longa jornada de caminho de ferro para ouvir uma palavra escassa dos reais lábios; e, continuando num tom de fria ironia à inglesa, terminava por dizer que desgraçadamente as pessoas reais julgavam que o que lhes convinha a elas convinha à nação; mas que a verdade era que nada desabitua da realeza como a ausência do rei – e que saber viver sem ver o aspecto do trono é o primeiro passo para a educação republicana! Apanha!

O Spectator, como sabem, é um dos primeiros jornais da Inglaterra.

É esta monotonia da season que obriga os rapazes a inventarem alguma coisa de original e de pitoresco. Dois lordes, menores de vinte e cinco anos, descobriram o seguinte: vestirem-se de padres – e irem, por todas as tabernas do Strand, beber, gritar e dar o espectáculo curioso de dois jovens eclesiásticos ébrios. Esta maneira nova de desacreditar o clero não tinha ainda lembrado aos radicais.

Honra seja aos dois jovens lordes, que inventaram tão delicadamente esta nova táctica revolucionária!

IV

Londres, 4 de Julho de 1877

Ei-los enfim do outro lado do Danúbio! Depois de ter coqueteado, por espaço de dois meses, com os Turcos, o grão-duque Nicolau decidiu-se enfim, na noite de 26 de Julho, pelas onze horas, a fazer atravessar em botes uma divisão junto a Simnitza e a começar a sério a destruição do Império Otomano. A cena, ao que parece, pelas descrições do capitão-poeta que manda as suas impressões para o Times, teve uma grandeza sinistra: o lugar de embarque da divisão é coberto de arvoredos – e o silêncio grave dos movimentos de tropa, a decoração da noite muito escurecida de nuvens e alumiada por um luar lívido, a ansiedade da aventura, tudo concorreu para dar àqli2le movimento histórico um tom trágico.

(continua...)

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