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#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

Arthur commoveu-se, Pensou ainda na tristeza dos que emigram, nos pobres, nas existencias traba. lhosas em que o pão é um cuidado amargo. Quando viria á terra uma revolução de paz e de justiça dar a cada um um campo proprio a lavrar, uma lareira farta na velhice

Veio andando devagar junto ao comboio. O Chouriço já se installara n'uma primeira classe, de gabão pelos hombros, charuto nos dentes.

— então o padrinho perguntou galhofando.

— Não veio.

O Chouriço esfregou as mãos, divertido :

— É boa ! É muito boa ! vir o.amigo expressamente d'Oliveira d'Azemeis . . .

—E depois d'um momento :

— A proposito, diga-me uma cousa, como vae o Theodosio

— Não o tenho visto. Está p'ra quinta. — E o que fez o amigo por Oliveira P 'ra ló estou.

— Ainda se faz seu versinho, hein

Arthur sorriu ambiguamente. O Chouriço tirava o relogio, impaciente. O guarda fechava as portinholas. As raparigas, com os taboleiros ó cabeça, recolhiam á Villa ; havia agora um silencio na plataforma d'onde tinha desapparecido o chefe e o conductor. N'aquella estação somnolenta, o comboio parecia ter adormecido, sob a tarde serena ; só uma rapariguita ia dizendo a espagos, n'um tom plangente e fanhoso : agua ! agua ! E sem descontinuar, adiante, a machina resfolgava baixo.

— Então nós ficamos aqui toda a vida ?— exclamou uma voz irritada.

Era um sujeito gordo, que vinha com a senhora de vestido de xadrez. Arthur então reparou n'ella ; e pareceu-lhe tão linda, que ficou com os olhos pasmados n'um enleio que o invadia, sentindo bater forte o coração : nunca vira aquella delicadeza fina de pelle, nem uma doçura tão tenra da linha oval ; os seus olhos negros de grandes pestanas, um pouco tristes, enterneciam. Estava ainda debruçada á portinhola com o livro amarello na mão ; era pequenina e delicada e o corpete justo do vestido desenhava um seiozinho que devia caber na cova da mão.

Ella pareceu notar tambem aquelle rapaz tão admirado ; retirou-se devagar para dentro da carruagem, mas tornou logo a debruçar-se á portinhoIa, compondo ligeiramente o lago fÔfo da gravata de renda — e os olhos d'ambos encontraram-se.

— Boa pequena, hein ? — disse o Chouriço. — Eu estive para me metter na mesma carruagem e tinha divertimento p'ra toda a noite. Mas embirrei com a cara do marido.

Arthur achou-o tambem odioso— com as suas bochechas balofas e brancas, o chapelinho de casimira sobre o cabello encarapinhado, o beiço sensual de comilão e um enorme pince-nee, com a fita passada por traz da orelha.

— Eu parece-me que o conheço de Lisboa, creio até que é Barão — disse o Chouriço.

Mas o chefe da estação badalava a campainha e o comboio começou a rolar devagar com estalidos seccos dos freios retesados.

— Adeus amigo, saude ! — exclamou o Chouriço. — Até á vista !

Os olhos da senhora de, vestido de xadrez pousaram-se ainda um mo'mento nos d'Arthur. Outras faces passaram deante d'elle, apoiadas aos vidros : os soldados e o desertor gelhofavam de garrafa á bocca e o rapaz do campo, com os olhos vermelhos como carvões, dizia adeus agitando um grande lenço ; a velha ia seguindo o wagon, a gemer, estendendo-lhe ainda desesperadamente as mãos duras e negras. Por fim o trem, com um silvo penetranm te, desapparecou na curva, entre os pinheiraes já escurecidos.

Arthur sentia-se triste, Toda a noite, assim, aquelle comboio rolaria, passando as estações illuminadas, as aldeolas adormecidas, levando o Chouriço, feliz, estirado no seu gabão, o pobre emigrante banhado em lagrimas, o desertor para a enxovia, aquella linda mulher para o seu palacete. De madrugada chegariam a Lisboa: a Lisboa que lhe parecia mais desejavel, pensando quo era só lá que uma civilisação superior produzia aquellas bellezas delicadas de perfil patricio, como certas flores preciosas que só nascem em terrenos muito preparados ! Quem seria ella ? O gordo de pince-nez, era de certo o marido ; e sentia alli duas existencias discordantes : elle pesado e material, ella d'uma sentimentalidade subtil . . . Desejaria saber o seu nome e o seu pasgado, os seus gostos, o tom da sua voz e que poeta preferia. Feliz o que escrevera aquelle volume que ia lendo e que a fazia scismar : devia ser talvez um romance de Daudet ou de Sandeau, uma obra delicada e nobre. Em que pensaria ella durante essa noite toda, com cabecinha pallida apoiada ao encosto do wagon, em quanto, defronte, o marido muito prosaicamente resonasse ? Lembrar-se-ia da estação de Ovar ? . .

Arthur deu ainda um olhar aos raüs que iam assim, continuamente, parallelos e luzidios, até Lisboa e atravessou para o outro lado da estação onde o esperava o char-à-bancs d'Oliveira d'Azemeis.



(continua...)

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