Por Eça de Queirós (1912)
Diante do altar maior, no entanto, um velho, todo calvo, coberto com uma capa resplandecente, alargava os braços, beijava a toalha bordada da ara, voltava as folhas de um grande livro, ofertava para as alturas um bolo de farinha muito alva, bebia por um copo onde jóias faiscavam. Voltado para ele, ao lado do pai, Cristóvão ajoelhava como o pai sobre as lajes, traçava uma cruz sobre a testa, martelava o peito com os seus punhos duros: - mas permanecia tão insensível e alheio à adoração que ante ele se desenrolava, como o pilar de uma pedra escura, a que findava, por se encostar, fatigado daquela melancolia da casa de Deus. Os olhos então embebiam-se numa grande pomba branca, que se conservava imóvel, com as asas abertas, por cima do sacrário, e que cada domingo o atraía mais, sempre ali, fiel, paciente, sem que uma das suas peças estremecesse: só ela era doce, alegre, natural, na sua brancura adorável, e macia à vista: com um bico claro, patas rosadas, só ela não tinha, no seu corpo de pomba, nem ouro, nem sangue: natural, e igual às outras pombas, só ela o não assustava, nem deslumbrava: - e Cristóvão não compreendia porque se conservava ali naquela sombra fria, entre granitos, ao lado de agonias e dores, e não vinha voar e arrulhar com as outras, sobre os castanheiros do adro.
O seu incerto pensamento ia então para os prados que atravessara, descendo das cabanas, para a verde frescura do choupal, para o sol que aquecia os lagartos dormindo nas pedras brancas. Teria decerto gostado de ficar lá, pelos campos, pela beira do rio, todo o longo domingo, sentindo a erva fresca entre os joelhos, roçando a mão pela frescura das ramagens baixas. Mas nos domingos era necessário visitar, louvar a Deus Nosso Senhor. Só assim, como lhe afirmava o pai, se subia depois ao Céu. Ele, decerto, iria uma dia para o Céu. E uma inquietação passava na sua alma, porque o Céu, como a Igreja, se lhe afigurava escuro, pesado, com ouros, grandes panos de seda. Homens cobertos de sangue, Rainhas com o pobre coração varado de espadas – um sítio, além, nas alturas, muito rico, e muito triste. Quanto melhor a horta em que vivia, com a cerejeira, a sebe de madressilva, e a salsa junto da dorna! Um rumor passava entre os pilares de pedra, todas as faces sorriam, mais claras. O senescal descia do seu banco, a missa findara. E um contentamento enchia o coração de Cristóvão, tornando a ver os castanheiros do adro.
Então, pouco a pouco, tomou mais familiaridade com florestas e prados. Já corria a sua grossa mão sobre a doçura dos musgos; trepava aos troncos para espreitar para dentro da densidão das folhagens; estirava-se no meio das relvas altas, rolando os seus cabelos crespos pela brancura das margaridas. E ao mesmo tempo descobria, dentro de toda esta natureza, uma vida múltipla, vasta, ativa e maravilhosa. A terra, que ele remexia com seus dedos grossos, estava toda mole dos vermes que a habitavam; cada hastezinha de relva abrigava um povo de insetos, mais numerosos que a gente da aldeia, aos domingos, sob os castanheiros do adro; cada folha cobria uma asa; nas espessuras, longos dorsos peludos roçavam as suas pernas lentas; olhinhos brilhantes espreitavam de entre a negrura das tocas; o restolhar dos matos dizia a passagem das feras. Um confuso, obscuro amor por todos estes seres, crescia no seu coração simples. Passava horas encantadas, estirado nas ervas à beira de uma poça clara, admirando os insetos de grandes patas que riscam a água lisa; chamava com as mãos, sorrindo, todos os veados que, à orla das clareiras, subitamente mostravam a face majestosa e séria, entre os troncos dos castanheiros; e parava nos carreiros verdes de umidade e musgo para acariciar o dorso dos sapos.
Assim a floresta se lhe tornava familiar e íntima, e nela passava os dias, nos retiros mais densos, enterrado entre as verduras, agachado contra uma rocha, de bruços sobre uma poça de água, sem se mover, vegetando na doçura infinita de sentir os seus longos cabelos emaranhados nas folhas, os ombros aquecidos pelo mesmo sol que batia nas pedras, as rãs saltando sobre os seus pés como sobre troncos meio enterrados nas ervas úmidas. Só a fome o fazia recolher à cabana. Os seus passos desprendiam-se a custo, como se já tivesse raízes: todo ele cheirava a torrão e umidade, e era, na penumbra da tarde, como um tronco que se separava dos outros troncos. Crescera tão prodigiosamente que se agachava para transpor a porta da cabana. Como nenhuma tripeça sustentava o seu peso, sentava-se no chão diante da lareira aos pés do pai, embebido no espanto, na admiração daquela força.
O bom lenhador então já lhe não dizia ao partir para a mata: “Cristóvão, não saias da nossa horta, que te pode vir mal”. E pouco a pouco começou então a percorrer, maravilhado, os prados, as bordas do rio, os densos arvoredos, para que tantas vezes da porta da cabana se tinham alongado os seus olhos pasmados e vagos. Lento e incerto, como uma rês tresmalhada, descia pelos caminhos abertos, orlados de sebes, parando a cada passo, ficando a pasmar para os trigais altos, para os longos prados, macios e doces à vista como veludo verde, todos avivados de margaridas, papoulas e botões-de-ouro; cortando pelos choupais, ia admirar, durante longas e mudas horas, o correr e o brilhar do grande rio; ou penetrava sob os pinheirais, onde se esquecia até o entardecer, vago e pensativo, respirando com espanto e amor a frescura, o silêncio e o aroma das resinas. Depois recolhia à cabana devagar, com os braços caídos, a face no ar, risonha e contente.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. São Cristóvão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16237 . Acesso em: 29 jun. 2026.